A VIDA SUBMARINA, Ana Martins Marques

abril 21, 2018

 

SEDA

 

É tão difícil amar
neste mundo imperfeito
é difícil dizer alguma coisa
que não seja um equívoco
é difícil encontrar
o peso correto
das coisas
saber nosso próprio tamanho
olhar alguns bichos nos olhos
pensar com doçura
aproveitar adequadamente a luz
desejar para o pássaro um destino de pássaro,
para a seda, um destino de seda.

 


CARTAS DE VIAGEM E OUTRAS CRÔNICAS, Campos de Carvalho

abril 13, 2018

Ao por os pés no chão cada manhã deveríamos pensar: estou realizando o ato mais importante que um homem pode realizar fora de sua cama e de si mesmo, que é o de pisar o mundo, em consequência carregá-lo às costas, sentir-lhe todas as alegrias e tristezas humanamente e não como um robô ensinado por seus pais e avós também robôs. Estou pisando o mundo e só eu posso na minha fragilidade e em meio a tanto espelho e a tanta porta descobrir o que é certo e o que não é, qual o caminho que leva ao mar como acontece às tartarugas recém-nascidas e quais os caminhos que não levam a lugar nenhum e de onde nos espreita, com suas mil faces, o anjo da morte. Só eu posso na minha cegueira guiar-me com as luzes profundas da intuição, aquele fiapo de luz entrevisto no fim do imenso túnel e ao qual me agarrarei como o afogado à ponta de uma corda: uma possibilidade em mil de salvar-me, de acertar com o meu caminho, mas sempre uma razão de viver e de ainda continuar vivo, lado a lado com os milhões de espermatozóides que tentam comigo a grande aventura. Um crápula muitas vezes perplexo no seu (alheio) labirinto, dando murros no ar e imprecando nas trevas – mas o mesmíssimo ser capaz de amanhã escrever um Invenção de Orfeu ou beijar qual Francisco de Assis todos os leprosos do caminho, levado pelos ventos do gênio ou da santidade, o olhar perdido no horizonte enfim achado, finalmente em paz com a sua consciência e pronto para morrer para o mundo e depois morrer.

 


A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES, Fernanda Torres

fevereiro 5, 2018

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Acabara de anoitecer. Os postes recém-acesos ainda piscavam fracos. Uma rajada quente anunciou chuva. Os dois quarteirões que me separavam da praça revelaram-se sinistros com o fim do dia. Tratei de apressar o passo. A pior desgraça dessa cidade é o pavor de dobrar a esquina.


O FILHO DE MIL HOMENS, Valter Hugo Mãe

outubro 22, 2017

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“Os filhos, pensava ele, são modos de estender o corpo e aquilo a que se vai chamando alma. São como continuarmos por onde já não estamos e estarmos, passarmos a estar verdadeiramente, porque ansiamos e sofremos mais pelos filhos do que por nós próprios, assim como nos reconfortam mais as alegrias deles do que a satisfação que diretamente auferimos. Por isso temos gula pelos filhos, uma gula do tamanho dos absurdos, sempre começada, sempre incontrolável. E queremos tudo dos filhos como se nunca nos bastasssem, nunca nos cansassem porque, ainda que nos cansemos, estamos incondicionalmente dispostos a continuar, uma e outra vez até que seja o corpo extenuado a desistir, mas nunca o nosso ímpeto, nunca o nosso espírito. Até porque desistir de um filho seria como desistir do melhor de nós próprios. Cada filho somos nós no melhor que temos para dar. No melhor que temos para ser.”


UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar

maio 25, 2017

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“só usa a razão quem nela incorpora suas paixões”


NOTAS DO SUBSOLO, Dostoiévski

abril 3, 2017

 

As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, gosta apenas do processo de procurar atingir um objetivo , e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá mais nada para procurar. Os trabalhadores, ao término do trabalho, pelo menos recebem seu dinheiro e podem ir para o botequim e depois podem acabar na delegacia – e têm, assim, ocupação para a semana. Mas o homem para onde irá? Pelo menos, sempre se nota que ele fica um pouco sem jeito quando consegue atingir algum desses objetivos. Ele ama o processo de conseguir, mas atingir mesmo, nem tanto, e isso, claro está, é terrivelmente engraçado. Em uma palavra, o homem é constituído de modo cômico; em tudo isso, pelo visto, há um jogo de palavras. Mas dois e dois são quatro é, de qualquer modo, uma coisa extremamente insuportável. Dois e dois são quatro, na minha opinião, é pura insolência. Dois e dois são quatro olha para você com ar petulante, fica no meio do seu caminho com as mãos na cintura e cospe pro lado. Concordo que dois e dois são quatro é uma coisa excelente; porém, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco às vezes também é uma coisinha bem encantadora.


O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

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O DIABO

(…)

Costuma-se pensar que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores. Isso não é de todo verdadeiro. As pessoas mais conservadoras em geral são os jovens, que desejam viver, mas que não pensam nem têm tempo para pensar como se deve viver e por isso tomam como modelo a vida já conhecida.


O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

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KHOLSTOMÉR, A HISTÓRIA DE UM CAVALO.

(…)

Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras “meu”, “meu potro”, palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consistia esse vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras “meu cavalo”, referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras “minha terra”, “meu ar”, “minha água”.

No entanto, estas palavras exerciam uma enorme influência sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas palavras. Era o seguinte: os homens não orientam suas vidas por atos, mas por palavras. Eles não gostam tanto da possibilidade de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade de falar de diferentes objetos utilizando-se de palavras que convencionam entre si. Dessas, as que mais consideram são “meu” e “minha”, que se aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa, apenas um deles diria “meu”. E aquele que diz “meu” para o maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para quê isso, não sei, mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.


MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 22, 2015

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Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:

– Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

– Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

– Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

– Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

(…)

– Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.


SEM PLUMAS, Woody Allen

junho 10, 2015

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GUIA BREVE, PORÉM ÚTIL, À DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Concentrar-se em frente ao palácio do governo e gritar a palavra “Pudim” até que as exigências sejam atendidas.

Engarrafar o trânsito da cidade conduzindo um rebanho de carneiros pela avenida na hora do rush.

Telefonar a membros do establishment e cantar alguma canção de protesto ou de ninar.

Fazer-se passar por policial e então faltar ao serviço.


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