CARTA AO PAI, Franz Kafka

março 24, 2010

Recebemos da sua mão aquilo que você precisou lutar para conseguir, mas a luta pela vida material, que no seu caso foi imediata, e da qual naturalmente não somos poupados, essa nós só tivemos de travar mais tarde, com energia de criança na idade adulta. Não digo que por causa disso nossa situação seja necessariamente menos favorável do que foi a sua, provavelmente ela é equivalente (ainda que as situações de base não possam, é claro, ser comparadas); estamos em desvantagem no sentido de que não podemos nos vangloriar das nossas privações, nem humilhar ninguém com elas, como você fez com as suas. Também não nego que teria sido possível que eu fruísse e valorizasse na justa medida os frutos do seu grande e bem-sucedido trabalho e pudesse levá-los em frente para lhe dar alegria; mas justamente nosso distanciamento se opunha a isso. Eu podia desfrutar o que você me dava, mas só com vergonha, cansaço, fraqueza, consciência de culpa. Conseqüentemente, por tudo isso eu só conseguia ser grato como um mendigo, nunca através da ação.

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