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O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

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O DIABO

(…)

Costuma-se pensar que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores. Isso não é de todo verdadeiro. As pessoas mais conservadoras em geral são os jovens, que desejam viver, mas que não pensam nem têm tempo para pensar como se deve viver e por isso tomam como modelo a vida já conhecida.

O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

9788540507258

KHOLSTOMÉR, A HISTÓRIA DE UM CAVALO.

(…)

Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras “meu”, “meu potro”, palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consistia esse vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras “meu cavalo”, referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras “minha terra”, “meu ar”, “minha água”.

No entanto, estas palavras exerciam uma enorme influência sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas palavras. Era o seguinte: os homens não orientam suas vidas por atos, mas por palavras. Eles não gostam tanto da possibilidade de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade de falar de diferentes objetos utilizando-se de palavras que convencionam entre si. Dessas, as que mais consideram são “meu” e “minha”, que se aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa, apenas um deles diria “meu”. E aquele que diz “meu” para o maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para quê isso, não sei, mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.

YO NO SOY YO, Juan Ramón Jiménez

junho 23, 2014

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YO NO SOY YO

Soy este
que va a mi lado sin yo verlo;
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces, olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
el que perdona, dulce, cuando ódio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pie cuando yo muera.

A HISTÓRIA DO CABELO, Alan Pauls

janeiro 17, 2014

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Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como os outros pensam na morte. Não assim de repente, ah, o cabelo! Não, ele não descobre algo cuja existência ignorava. Sempre soube que o cabelo está ali, entocado em algum lugar, mas pôde viver perfeitamente sem levá-lo em conta, sem torná-lo algo presente. Não descobre uma experiência, mas uma dimensão; não algo que sua vida não tivesse incluído até então: algo que já estava nele, trabalhando-o em silêncio, com uma paciência de ruminante, à espera do momento oportuno para acordar e emitir os primeiros sinais de uma vida visível. A morte é um exemplo clássico. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É algo que se sabe: uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida e acaba passando despercebida. Assim por anos a fio. Até que de repente aparece e reivindica o que é seu. Um conhecido sofre um ataque enquanto dirige e a cadeira que duas semanas depois estava reservada para seu jantar de aniversário fica vazia para sempre. Alguém próximo se queixa de uma dor insignificante ao engolir e dias depois o médico que anota numa ficha o relato que lhe faz o episódio para de escrever e levanta a cabeça e olha para ele franzindo o cenho. De repente algo se precipita e se consolida: o que era invisível e sigiloso se torna material, de pedra, ineludível, um obstáculo escuro que não chega a bloquear totalmente o caminho mas contra o qual não há jeito de não tropeçar, e que, intruso vigilante, começa a aparecer em todas e em cada uma das fotografias que tiramos quando brincamos de imaginar nosso futuro.

O REMORSO DE BALTAZAR SERAPIÃO, valter hugo mãe

outubro 29, 2013

baltazar

sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa. é como lhe peço que encomende como melhor sabe os cuidados de deus. que os encomende de coração bom para que nada do que façamos seja falso. haverá de se ter debaixo desta pedra uma mulher como se fosse uma própria nuvem do céu, uma coisa muito leve sob o peso da pedra. muito leve mas forte, capaz de resistir aos ventos. capaz de fazer tempestades.

A FERA NA SELVA, Henry James

maio 8, 2013

A Fera na Selva

– Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.

A DESOBEDIÊNCIA CIVIL, Henry David Thoreau

maio 8, 2013

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Não pago imposto individual há seis anos. Por causa disso, certa vez, fui colocado na cadeia por uma noite. E, enquanto contemplava as sólidas paredes de pedra, com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro, com um pé de espessura, e a grade de ferro que filtrava a luz, não pude deixar de ficar impressionado com a insensatez daquela instituição que me tratava como se eu fosse um mero amontoado de carne, sangue e ossos, pronto pra ser aprisionado. Estranhei que ela tenha concluído, por fim, que aquele fosse o melhor uso que poderia fazer de mim e que não tenha pensado em aproveitar-se de meus serviços de algum modo. Vi que, se havia um muro de pedra entre eu e meus concidadãos, havia um outro ainda mais difícil de galgar e transpor para que eles pudessem tornar-se tão livres quanto eu. Não me senti aprisionado sequer por um momento e aqueles muros pareceram-me um enorme desperdício de pedra e argamassa. Sentia-me como se apenas eu, entre todos meus concidadãos, tivesse pago o imposto. Eles claramente não sabiam como tratar-me mas portavam-se como pessoas mal-educadas. Em cada ameaça e em cada cumprimento havia um disparate, por pensarem que meu maior desejo era estar do outro lado daquele muro de pedra. Eu não podia senão sorrir ao ver quão diligentemente fechavam a porta às minhas meditações, que os perseguiam totalmente desimpedidas, e eles é que eram, na verdade, tudo de perigoso. Como não podiam alcançar-me, resolveram punir meu corpo; como meninos que, não conseguindo atacar alguém que odeiam, maltratam-lhe o cão. Vi que o Estado era irresponsável, tímido como uma mulher solitária com suas colheres de prata, e que não sabia distinguir seus amigos de seus inimigos, e perdi o resto de respeito que ainda nutria por ele, e tive pena dele.

Portanto, o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é o mais forte.

RATOS E HOMENS, John Steinbeck

maio 8, 2013

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A mulher de Curley estava lá deitada, meio tapada por um cobertor de feno amarelo. E a maldade e os estratagemas e o descontentamento e a ânsia por atenção já não faziam mais parte do rosto dela. Ela era muito bonita e simples, e o rosto dela era doce e jovem. Suas bochechas avermelhadas e os lábios pintados faziam com que ela parecesse viva, dormindo um sono bem leve. Os cachos, como salsichinhas pequeninas, espalhavam-se por sobre o feno atrás da cabeça dela, e seus lábios estavam entreabertos.

Como de vez em quando acontece, um momento se instalou ali e ficou pairando. O som cessou, e o movimento parou – por muito, muito mais do que um momento.

GUERRA E PAZ, Liev Tolstói

novembro 18, 2012

Voilà une belle mort – disse Napoleão, olhando para Bolkónski.
O príncipe Andrei entendeu que as palavras se referiam a ele e que foram ditas por Napoleão. Observou que quem falava tais palavras foi tratado de sire. Mas ouviu aquelas palavras da mesma forma como ouviria o zumbido de uma mosca. Não só não se interessou como nem se deu conta daquelas palavras e esqueceu-as imediatamente. Sua cabeça queimava; sentia que perdia sangue e via, acima o céu distante, alto e eterno. Sabia que era Napoleão – o seu herói; mas naquele instante Napoleão lhe parecia um homem tão pequeno, insignificante, em comparação com o que se passava, agora, entre a sua alma e aquele céu alto e infinito, com nuvens que fugiam. Quem estava ao seu lado e o que falasse a seu respeito, isso era de todo indiferente para Andrei naquele instante; só estava contente porque pessoas haviam parado perto dele e só desejava que tais pessoas o ajudassem e o devolvessem à vida, que lhe parecia tão bela, pois agora ele a compreendia de um moedo muito diferente. Reuniu todas as suas forças para mexer-se e emitir algum som. Moveu ligeiramente a perna e soltou um gemido fraco, dolorido, que causou pena nele próprio.

AS COISAS, George Perec

novembro 18, 2012

Como fazer fortuna? Era um problema insolúvel. No entanto, todo dia, parecia que indivíduos isolados conseguiam, por sua própria conta, resolvê-lo perfeitamente. E esses exemplos a seguir, eternos fiadores do vigor intelectual e moral da França, de rostos sorridentes e ajuizados, espertos, voluntariosos, cheios de saúde, de decisão, de modéstia, eram outras tantas imagens pias para a paciência e o governo dos outros, aqueles que estagnam, marcam passo, não se soltam, mordem os lábios na poeira.

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