Arquivo por Autor

1984, George Orwell

janeiro 4, 2011

Era terrivelmente perigoso deixar os pensamentos à solta num lugar público qualquer ou na esfera de visão de uma teletela. Qualquer coisinha podia ser sua perdição. Um tique nervoso, um olhar inconsciente de ansiedade, o hábito de falar sozinho – tudo que pudesse produzir uma impressão de anormalidade, de que tinha alguma coisa a esconder. Fosse como fosse, ostentar uma expressão inadequada no rosto (parecer incrédulo no momento em que uma vitória era anunciada, por exemplo) era em si um infração passível de castigo. Havia inclusive uma palavra para isso em Novafala: rostocrime.

ESQUIMÓ, Fabrício Corsaletti

março 4, 2010

Exílios

o nariz da minha mulher
lembraria o focinho
de uma capivara
de pelúcia
se vivêssemos
numa ilha
selvagem
onde as capivaras
fossem os únicos
animais e corressem
risco de extinção


desde que conheci
minha mulher
me sinto exilado
dentro de mim mesmo

A SOLIDÃO DOS NÚMEROS PRIMOS, Paolo Giordano

fevereiro 20, 2010

Sua mãe, frequentemente, não completava a frase, como se discordasse do fim, enquanto a pronunciava. Essas interrupções deixavam em seus olhos e no ar duas bolhas de vazio, e toda vez que isso acontecia Mattia imaginava estourá-las com o dedo.

O LIVRO DOS ABRAÇOS, Eduardo Galeano

janeiro 21, 2010

CHORAR

Foi na selva, na Amazônia equatoriana. Os índios shuar estavam chorando a avó moribunda. Choravam sentados, na margem de sua agonia. Uma pessoa, vinda de outros mundos, perguntou:

– Por que choram na frente dela, se ela ainda está viva?

E os que choravam responderam:

– Para que ela saiba que gostamos muito dela.

A VIDA DAS MUSAS, Francine Prose

janeiro 14, 2010

“Gostaria de usar algum perfume, mas só tinha água de colônia, o que me deixava enjoado. Teria então de invertar alguma outra solução (…). Comecei a ferver um pouco de água na qual dissolvi um pouco de cola de pixe (…). Enquanto esperava que a água começasse a borbulhar, corri para os fundos da casa, onde sabia que vários sacos de esterco de bode tinham sido depositados (…). De volta ao meu estúdio, joguei um punhado deste esterco, e depois mais outro, na cola derretida (…). Deixei a mistura toda solidificar-se até o estado de gel, e, quando estava fria, tomei um pedaço daquela pasta e passei por todo corpo.”

“Com isso”, decidiu Dali, “eu estava pronto”. Mas neste exato momento ele olhou pela janela e viu Gala, cujo dorso nu, como o de uma adolescente, “formava um hífem infinitamente esbelto entre a magreza voluntariosa, enérgica e orgulhosa do seu tronco e suas nádegas delicadas” o que o convenceu de que estava contemplando a mulher de seus sonhos. Ele começou a esfregar o corpo para eliminar a o odor e descartou os acessórios mais originais, embora tenha conservado o colar de pérolas e o gerânio vermelho.

ZAZIE NO METRÔ, Raymond Queneau

outubro 15, 2009

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Dondekevemtantofedô, Gabriel se perguntou, irritado.

ZAZIE NO METRÔ, Raymond Queneau

outubro 15, 2009

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O sujeito sorriu diabolicamente, como no cinema.

– E me diga, meu rapaz – que ele sussurra -, qual é o seu ofício ou sua profissão atrás do qual ou da qual o senhor esconde as suas atividades delituosas?

– Repito que não tenho atividades delituosas.

– Sem papo furado. Profissão?

– Artista.

– O senhor? Um artista? A menina me disse que o senhor era vigia noturno.

– Ela não sabe de nada. E depois, nem sempre a gente diz a verdade às crianças. Não é verdade?

– Para mim, dizem sim.

– Mas o senhor não é criança (sorriso amável). Uma granadina?

– (gesto).

HISTÓRIAS REAIS, Sophie Calle

julho 19, 2009

O lençol

Minha tia-avó chamava-se Valentine. Nasceu em 4 de fevereiro de 1888. Aos noventa e seis anos cansou de viver. Mas tinha fixado um objetivo: tornar-se centenária. Agonizante, pouco antes dos cem anos, conseguiu voltar à vida para perguntar: “Quantos dias faltam?” Faltavam seis dias. Ela murmurou: “Vou conseguir.” Morreu em 4 de fevereiro de 1988. Para o anúncio de seu falecimento ela escolheu esse versículo da Bíblia: “Ela fez o que pôde.” Antes de morrer, bordou um lençol com as minhas iniciais. Ofereci-o a meu amigo Hervé, que estava gravemente enfermo, como lembrança da noite, já distante, na qual ele não quisera compartilhar minha cama. Assim, era como se eu o convidasse a dormir um pouco comigo. E, depois, eu queria acreditar que, tendo sido bordado por uma mulher que se tornou centenária graças a uma imensa força de vontade, aquele lençol, envolvido pela fé, transmitiria a ele sua força.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, Milan Kundera

julho 11, 2009

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Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com — e a raiz passio, que originalmente significa “sofrimento”. Em outras línguas, por exemplo em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mitgefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade (em inglês pity, em italiano pietà, etc.), sugere mesmo uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.

É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.

Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio: sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido de soucit, wspol-czucie, Mitgefühl, med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva — a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

FAZES-ME FALTA, Inês Pedrosa

maio 20, 2009

fazes-me+falta

“Verifico agora que a minha dedicação às Grandes Causas foi crescendo na proporção inversa da minha decepção com as Grandes Pessoas da minha vida. Tomei a amizade como uma versão adulta e vacinada do amor, o que significa que transferi para a casa dela a artilharia pesada do meu batalhão de afetos. Substituí o Príncipe Encantado pelo Amigo Maravilhoso, que eras tu. Podias ser meu pai, eras o meu discípulo. Nada nos poderia separar, porque estávamos naturalmente livres das armadilhas do desejo, da via sacra da posse e do sacrifício. Quanta candura. Uma vida inteira desperdiçada em candura – e nem sequer tive tempo para mudar o mundo.”

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