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NOTAS DO SUBSOLO, Dostoiévski

abril 3, 2017

 

As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, gosta apenas do processo de procurar atingir um objetivo , e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá mais nada para procurar. Os trabalhadores, ao término do trabalho, pelo menos recebem seu dinheiro e podem ir para o botequim e depois podem acabar na delegacia – e têm, assim, ocupação para a semana. Mas o homem para onde irá? Pelo menos, sempre se nota que ele fica um pouco sem jeito quando consegue atingir algum desses objetivos. Ele ama o processo de conseguir, mas atingir mesmo, nem tanto, e isso, claro está, é terrivelmente engraçado. Em uma palavra, o homem é constituído de modo cômico; em tudo isso, pelo visto, há um jogo de palavras. Mas dois e dois são quatro é, de qualquer modo, uma coisa extremamente insuportável. Dois e dois são quatro, na minha opinião, é pura insolência. Dois e dois são quatro olha para você com ar petulante, fica no meio do seu caminho com as mãos na cintura e cospe pro lado. Concordo que dois e dois são quatro é uma coisa excelente; porém, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco às vezes também é uma coisinha bem encantadora.

FAHRENHEIT 451, Ray Bradbury

junho 23, 2014

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Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo no qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes.

FAHRENHEIT 451, Ray Bradbury

junho 23, 2014

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Estamos vivendo num tempo em que as flores tentam viver de flores, e não com a boa chuva e o húmus preto. Mesmo os fogos de artifício, apesar de toda a sua beleza, derivam de produtos químicos da terra. No entanto, de algum modo, achamos que podemos crescer alimentando-nos de flores e fogos de artifício, sem completar o ciclo de volta à realidade. Você conhece a lenda de Hércules e Anteu, o gigantesco lutador cuja força era invencível desde que ele ficasse firmemente plantado na terra? Mas quando Hércules o ergueu no ar, deixando-o sem raízes, ele facilmente pereceu. Se não existe nessa lenda nenhuma lição para nós hoje, nesta cidade, em nosso tempo, então sou um completo demente.

O ÚLTIMO OLIMPIANO, Rick Riordan

setembro 7, 2012

– Uma corrida até a estrada? – desafiei.

– Você vai perder. – Ela disparou Colina Meio-Sangue abaixo,

e eu arranquei atrás dela.

Dessa vez, não olhei para trás.

A LIBÉLULA DE SEUS OITO ANOS, Martin Page

março 14, 2011

Fio não chorou. Tinha perdido entes queridos tão jovem, que já se acostumara antecipadamente com o desaparecimento das pessoas que amava. Quando começou a sentir que Zora se tornara sua amiga, tempos atrás, chorou, então, por conta do dia em que a perderia, e já tinha construído uma pequena sepultura para ela no cemitério do seu coração. Fio não acreditava em Deus, mas sabia também que o ateísmo é uma quimera. Inventara, então, as suas próprias crenças. Arrancou uma violeta num canteiro de Buttes-Chaumont, pois, segundo a sua mitologia íntima, quando se colhia uma flor pensando numa pessoa amada e falecida, o seu perfume e a sua beleza se tranferiam para o além.

NÃO FALEI, Beatriz Bracher

setembro 22, 2010

(que alegria!!)

Meu, minha, meu, como uma criança pequena aprendendo a fala da tribo, encontro-me nessa fase de aquisição de uma nova linguagem uma vez que a antiga, a que sabia e usei, suas palavras parecem ter se tornado estéreis, foram discutidas, aceitas e transformadas em algo que não reconheço mais. Por isso meu copo, meu pão, minha ira, meus sessenta e quatro anos. Como se precisasse novamente nomear e tomar posse do que levo comigo. Retornar à primeira pessoa e ao possessivo, as duas pragas juvenis que a modernidade nos legou e contra as quais sinceramente me bati. O bilhete de José dizia da mesma necessidade mas num sentido todo inverso ao meu. Fala em rememorar e eu penso em criar; pensa em descobrir e eu preciso fundar. O bilhete trouxe-me paz, afastou de mim aquela indignação pueril dos últimos dias, vibrante e frívola que me obstruía a reflexão deixando-me órfão nas mãos da reação. Seu tom machadiano, que José anda lá cultivando de tal modo que alcança o plágio por um percurso paradoxalmente pessoal, reavivou a alegria, a mesma de quando, em meio a um raciocínio complexo sobre o específico de uma composição, somos surpreendidos pelo canto de um passarinho. Talvez já cantasse há tempo, talvez seu cantar tenha adentrado manso as reviravoltas do raciocínio, mas o percebemos de supetão, nascido junto com a nossa alegria inesperada ao ouvi-lo. Arranca-nos para fora, destrói sem deixar rastros o fio que laboriosamente construíamos, entrega-nos apenas à nossa alegria de ouvir um passarinho. E, não raro, quando nos damos conta da alegria e do fio perdido e suspiramos resignados em recomeçar o trabalho, a solução aparece tão limpida e inesperada quanto o canto. Assim as palavras de José, “tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção  ou reconstrução de mim mesmo” (Machado por José).

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