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AS COISAS, George Perec

outubro 3, 2013

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Em teoria, um jovem que faz alguns estudos e depois cumpre honestamente suas obrigações militares encontra-se por volta dos vinte e cinco anos nu como no dia em que nasceu, embora já virtualmente possuidor, por causa de seu próprio saber, de mais dinheiro do que jamais fora capaz de desejar. Isto é, ele sabe com toda certeza que chegará um dia em que terá seu apartamento, sua casa de campo, seu carro, seu aparelho de som de alta fidelidade. No entanto, ocorre que essas exaltantes promessas se façam desagradavelmente esperar: pertencem, por sua própria natureza, a um processo do qual dependem, se quisermos refletir melhor, o casamento, o nascimento dos filhos, a evolução dos valores morais, atitudes sociais e comportamentos humanos. Em suma, o jovem deverá se instalar, e isso lhe tomará bem uns quinze anos.

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? E, pensando em se consolar, cai nas armadilhas das vendas a prazo. A partir daí, está pego, bem pego: só lhe resta se armar de paciência. Infelizmente, quando está no fundo do poço, o jovem não é mais tão jovem, e, cúmulo da desgraça, poderá até mesmo lhe parecer que sua vida já ficou para trás, que ela era apenas seu esforço, e não seu objetivo, e conquanto ele seja muito sensato, muito prudente – pois sua lenta ascensão lhe terá dado uma saudável experiência – para ousar fazer tais comentários, será uma absoluta verdade o fato de que estará com quarenta anos e que a instalação de suas residências, principal e secundária, e a educação de seus filhos terão bastado para preencher as magras horas que não tiver dedicado a seu labor…

A FERA NA SELVA, Henry James

maio 6, 2013

A Fera na Selva

 

Sendo ao longo do Tempo que deveria cumprir o seu destino, então era no Tempo que seu destino deveria agir, e quando acordou para a realidade de não ser mais um jovem, que era exatamente a consciência de estar esgotado, e, por sua vez, a consciência de ser fraco, acordou também para outra realidade. Tudo se juntava: eles se submetiam, ele e sua incerteza, à mesma lei indivisível. Quando as próprias possibilidades se tornaram consequentemente esgotadas, quando o segredo dos deuses se tornou tênue, quase mesmo se evaporou, isto, e isto somente, era o fracasso. Não teria sido fracasso ter falido, ter sido desonrado, exposto à execração pública, enforcado; o fracasso era não acontecer nada.

LIBERDADE, Jonathan Franzen

dezembro 16, 2012

Liberdade

A sensação que tinha de deslocamento não resultava exatamente em inveja, nem inteiramente na impressão de ter vivido além da conta. Era mais uma espécie de desespero diante do esfacelamento do mundo. Os Estados Unidos estavam travando duas guerras terrestres e feias em dois países, o planeta estava se aquecendo como um forno elétrico, e ali no 9:30, ao seu redor, havia centenas de meninos e meninas do mesmo molde que Sarah, a assadora de bolos de banana, com suas suaves aspirações, sua ideia inocente de que tinham pleno direito – a quê? À emoção. À adoração invariável muito especial. A poder ficar a sós uns com os outros e repudiar por uma ou duas horas de uma noite de sábado, como num rito, a desfaçatez e o ódio a seus pais e avós. Pareciam, como Jessica tinha sugerido mais cedo na reunião, não ter nada contra ninguém. Katz percebia isso em suas roupas, que não traíam nada de fúria e do desgosto das plateias de que tinha participado quando era mais novo. Congregavam-se não na raiva mas na celebração de terem descoberto, como geração, um modo mais suave e respeitoso de ser. Um modo de vida, não por acaso, que se harmonizava muito melhor com o consumo. E que, por isso, dizia a Katz: morra.

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

outubro 27, 2012

O PERSEGUIDOR

(…) o que queria explicar a mim mesmo é que a distância que vai de Johnny até nós não tem explicação, não se fundamenta em diferenças explicáveis. E acho que ele é o primeiro a pagar as consequências disso, que o afeta tanto quanto a nós. Dá vontade de dizer na mesma hora que Johnny é como um anjo entre os homens, até que uma elementar honradez obriga a engolir a frase, a dar-lhe a volta com formosura e a reconhecer que talvez o que aconteça é Johnny ser um homem entre os anjos, uma realidade entre as irrealidades que somos todos nós. E vai ver, é por isso que Johnny toca meu rosto com os dedos e me faz sentir tão infeliz, tão transparente, tão pouca coisa com minha boa saúde, minha casa, minha mulher, meu prestígio. Meu prestígio, principalmente. Principalmente meu prestígio.

Mas é a mesma coisa de sempre, saí do hospital e assim que pisei na rua, nas horas, em tudo que tenho de fazer, a omelete girou molemente pelo ar e deu a volta. Pobre Johnny, tão fora da realidade. (É assim, é assim. Para mim é mais fácil acreditar que é assim, agora que estou num café e a duas horas depois da minha visita ao hospital, do que tudo que escrevi aí em cima forçando-me feito um condenado a ser pelo menos um pouco decente comigo mesmo.)

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

outubro 1, 2012

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AS BABAS DO DIABO

Na marca dos quatorze, talvez dos quinze, dava para adivinhá-lo vestido e alimentado por seus pais mas sem um centavo no bolso, tendo que deliberar com os colegas antes de decidir entre um café, um conhaque, um maço de cigarros. Andaria pelas ruas pensando nas companheiras de estudo, no bom que seria ir ao cinema e ver o último filme, ou comprar romances ou gravatas ou garrafas de licor com rótulos verdes e brancos. Em sua casa (sua casa seria respeitável, seria almoço ao meio-dia e paisagens românticas nas paredes, com um vestíbulo escuro e um porta-guarda-chuvas de carvalho ao lado da porta), choveria devagar o tempo de estudar, de ser a esperança de mamãe, de parecer com papai, de escrever para a tia de Avignon. Por isso tanta rua, o rio todo para ele (mas sem um centavo) e a cidade misteriosa dos quinze anos, com suas marcas nas portas, seus gatos estremecedores, o saco de batata frita de trinta francos, a revista pornográfica dobrada em quatro, a solidão como um vazio no bolso, os encontros felizes, o fervor por tanta coisa incompreendida mas iluminada por um amor total, pela disponibilidade parecida com o vento e com as ruas.

PARIS É UMA FESTA, Ernest Hemingway

setembro 6, 2012

Evan Shipman, outro bom poeta, embora displicente  quanto à publicação de seus versos, achou melhor que essas indagações permanecessem envoltas em mistério.

– Necessitamos de um pouco de mistério em nossas vidas, Hem – disse-me ele certa vez. – O escritor completamente desambicioso e o bom poema inédito, eis duas coisas que muita falta nos fazem hoje em dia. Mas o problema da subsistência é de uma realidade desgraçada…

PARIS NÃO TEM FIM, Enrique Vila-Matas

junho 12, 2012

Disse-lhe que não sabia se ela já pensara nisso alguma vez, mas até mesmo o pior Hemingway nos lembra que, para nos comprometermos com a literatura, primeiro temos que nos comprometer com a vida. Pensei que isso podia fazê-la chorar mas, para dizer a verdade, não chorou, entre outros motivos porque nada compreendeu das minhas palavras. Decidi ir embora dali o quanto antes. E foi então que ela disse algo com a intenção de que eu chorasse. “Já sou tão velha quanto meu pai, que está morto.” Decidi não retardar mais minha partida. Beijei cerimoniosamente sua mão e parti. Lembrei uma frase que ouvira minha mãe dizer muitas vezes: “Há que saber nadar só o bastante para se abster de salvar os outros”.

O LIVRO DAS PERGUNTAS, Pablo Neruda

maio 30, 2012

Por que não nos deram extensos

meses que durem todo o ano?

SEDA, Alessandro Baricco

maio 2, 2012

Baldabiou ficou a ouvir, em silêncio, até o fim, até o trem de Eberfeld.

Não pensava nada.

Escutava.

Sentiu-se mal, no final, ao ouvir Hervé Joncour dizer devagar:

– Nem ao menos ouvi a sua voz.

E pouco depois:

– É uma dor estranha.

Devagar.

Morrer de nostalgia por algo que nunca se viverá.

O GRANDE GATSBY, F. Scott Fitzgerald

dezembro 1, 2011

Conforme a lua subia no céu, as casas insignificantes passaram a se dissolver até que, pouco a pouco, meus pensamentos desaguaram na antiga ilha selvagem que surgira aos olhos dos marinheiros holandeses neste exato lugar – o seio verde e frondoso de um Novo Mundo. Suas árvores extintas, aquelas que cederam lugar à casa de Gatsby, outrora estimularam os sonhos derradeiros e mais ambiciosos dos homens; por um momento transitório e mágico, alguém deve ter prendido o fôlego à vista deste continente, compelido a uma contemplação estética que não compreendia e tampouco desejava, face a face, pela última vez na história, com algo proporcional à sua capacidade de maravilhar-se. Enquanto estava ali, remoendo esse velho e desconhecido mundo, pensei no assombro de Gatsby ao ver pela primeira vez a luz verde da extremidade do cais de Daisy. Ele havia percorrido um caminho enorme até chegar a esse jardim azulado, e seu sonho lhe deve ter parecido tão próximo que dificilmente o deixaria escapar.

(…)

Gatsby acreditava na luz verde, no futuro orgástico que, ano após ano, costuma recuar diante de nós. Ontem fomos iludidos, mas não importa – amanhã correremos mais rápido, esticando nossos braços mais além… E numa bela manhã…

E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado.

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