Archive for the 'Albert Camus' Category

O AVESSO E O DIREITO, Albert Camus

maio 6, 2010

PREFÁCIO

Há muito tempo, durante oito dias, vivi cumulado pelos bens desse mundo: dormíamos sem teto, numa praia; eu me alimentava de frutas e passava a metade de meus dias em águas desertas. Aprendi, nessa época, uma verdade que me levou a receber os sinais do conforto, ou da instalação, com ironia, impaciência e, às vezes, com raiva. Se bem que viva, agora, sem preocupações com o dia de amanhã, portanto como um privilegiado, não sei possuir. Não consigo guardar o que tenho, e o que sempre me é oferecido sem que tenha buscado. Parece-me que é menos por prodigalidade do que por outro tipo de parcimônia: sou avarento com essa liberdade que desaparece assim que começa o excesso de bens. O maior dos luxos nunca deixou de coincidir, no meu caso, com um certo despojamento. Gosto da casa nua dos árabes ou dos espanhóis. O lugar em que prefiro viver e trabalhar (e, coisa mais rara, onde não me importaria de morrer) é o quarto de hotel. Jamais consegui entregar-me ao que se chama a vida de interiores (que, tantas vezes, é o contrário da vida interior); a chamada felicidade burguesa me entedia e me assusta. Esta incapacidade, de resto, nada tem de glorioso; não foi pouca sua contribuição para alimentar meus defeitos. Não invejo nada, o que é um direito meu, mas não penso sempre nas invejas dos outros, e isso me subtrai imaginação, isto é, bondade. É bem verdade que criei uma máxima para uso próprio: “É preciso colocar princípios nas grandes coisas; para as pequenas, basta a misericórdia.” Infelizmente, criamos máximas para preencher as lacunas da nossa própria natureza. No meu caso, a misericórdia de que falo chama-se, antes, indiferença. Seus efeitos, com certeza, são menos milagrosos.

O MITO DE SÍSIFO, Albert Camus

agosto 18, 2009

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“Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico. Galileu, que sustentava uma verdade científica importante, abjurou dela com a maior tranquilidade assim que viu sua vida em perigo. Em certo sentido, fez bem. Essa verdade não valia o risco da fogueira. É profundamente indiferente saber qual dos dois, a Terra ou o Sol, gira em torno do outro. Em suma, uma futilidade.”

A priori, e invertendo os termos do problema, parece que ou você se mata ou não se mata, só há duas soluções filosóficas, a do sim e a do não. Seria fácil demais. Mas temos que pensar naqueles que não param de interrogar, sem chegar a nenhuma conclusão. E não estou ironizando: trata-se da maioria. Vejo também que aqueles que respondem que não, agem como se pensassem sim. Na verdade, se aceitarmos o critério nietzchiano, eles pensam sim de uma maneira ou de outra.”

O ESTRANGEIRO, Albert Camus

julho 4, 2009

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Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

A QUEDA, Albert Camus

abril 9, 2009

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“Às vezes imagino o que dirão de nós os futuros historiadores. Uma só frase lhes bastará para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais.”

“Sem dúvida, deve ser um homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta! E também judiciosa: estamos apenas mais ou menos em todas as coisas.”

“Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, jâ não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas. Se nos impusessem algo, seria a memória, e nós temos a memória curta. Não, é o morto recente que amamos em nossos amigos, o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós mesmos!”

“Bem sei que não se pode deixar de dominar ou de ser servido. Todo homem tem necessidade de escravos, como de ar puro. Mandar é respirar, não tem a mesma opinião? E até os mais favorecidos conseguem respirar. O último da escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é solteiro, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se, sem que alguém tenha o direito de responder.”

“Ah! caro amigo, como os homens são pobres de inventiva! Julgam sempre que nos suicidamos por uma razão. Mas podemos muito bem suicidar-nos por duas razões. Não, isso não lhes entra na cabeça. Para que serve, então, morrer voluntariamente, sacrificar-nos à ideia que se quer dar de si mesmo? Uma vez morto, eles se aproveitarão disso para atribuir ao gesto motivos idiotas ou vulgares. Os mártires, caro amigo, têm que escolher entre serem esquecidos, ridicularizados ou usados. Quanto a ser compreendidos – isso, nunca.”

“Sobretudo, não acredite nos seus amigos, quando lhe pedirem que seja sincero com eles. Só anseiam que alguém os mantenha no bom conceito que fazem de si próprios, aos lhes fornecer uma certeza suplementar, que extrairão de sua promessa de sinceridade. Como poderia a sinceridade ser uma condição da amizade? O gosto pela verdade a qualquer preço é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, às vezes um conforto, ou um egoísmo. Portanto, se o senhor se encontrar nesse caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder.”

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