Archive for the 'Alessandro Baricco' Category

SEDA, Alessandro Baricco

maio 2, 2012

Baldabiou ficou a ouvir, em silêncio, até o fim, até o trem de Eberfeld.

Não pensava nada.

Escutava.

Sentiu-se mal, no final, ao ouvir Hervé Joncour dizer devagar:

– Nem ao menos ouvi a sua voz.

E pouco depois:

– É uma dor estranha.

Devagar.

Morrer de nostalgia por algo que nunca se viverá.

NOVECENTOS, Alessandro Baricco

dezembro 16, 2009

Só parou quando chegou ao piano. Quis dizer muitas coisas, naquele momento, entre outras “onde diabos aprendeste isso?” ou ainda “onde diabos estava escondido?” Mas, como tantos homens habituados a viver fardados, tinha acabado de pensar, também, na sua farda. Assim, o que disse foi:

– Novecentos, tudo isso é absolutamente contra o regulamento.

Novecentos parou de tocar. Era um garotinho de poucas palavras e de grande capacidade de aprendizado. Olhou o comandante com doçura e disse:

– No cu, o regulamento.

NOVECENTOS, Alessandro Baricco

junho 12, 2009

novecentos

Desarmei a infelicidade. Livrei a minha vida dos meus desejos.

SEDA, Alessandro Baricco

junho 4, 2009

seda-del

Uma noite aceitaram o convite de um barão italiano que festejava seu sexagésimo aniversário com um jantar de gala no Hotel Suisse. Estavam na sobremesa quando aconteceu de Hervé Joncour dirigir o olhar para Hélène. Ela estava sentada do outro lado da mesa, ao lado de um atraente cavalheiro inglês que, curiosamente, ostentava na lapela uma pequena guirlanda de florzinhas azuis. Hervé Joncour o viu inclinar-se para Hélène e sussurrar-lhe qualquer coisa no ouvido. Hélène se pôs a rir de um modo belíssimo e rindo inclinou-se levemente para o cavalheiro inglês, chegando a tocar seu ombro com seus cabelos, num gesto que não demonstrava qualquer embaraço, apenas uma desconcertante correção. Hervé Joncour baixou o olhar para o prato. Não pôde deixar de notar que sua mão, que apertava uma colher de prata, indubitavelmente tremia.

Mais tarde, no fumoir, Hervé Joncour, cambaleando pelo excesso de bebida, aproximou-se de um homem que, sentado à mesa, sozinho, olhava para a frente com uma expressão vagamente idiota. Inclinou-se para ele e lhe disse, vagarosamente:

– Devo comunicar-vos uma coisa muito importante, Monsieur. Todos nós damos nojo. Somos todos maravilhosos e todos damos nojo.

NOVECENTOS, Alessandro Baricco

maio 31, 2009

8532510841

– Já temos os músicos – disse o fulano da Companhia.

– Sei disso – e me pus a tocar. Ele ficou ali me olhando, sem mover um músculo. Esperou que eu terminasse, sem dizer uma palavra. Depois, perguntou-me:

– O que era?

– Não sei.

Os seus olhos se iluminaram.

– Quando você não sabe o que é, então é jazz.

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