Archive for the 'Andrea Camilleri' Category

A PENSÃO EVA, Andrea Camilleri

junho 6, 2009

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“_ Ciccio, acha que eu vou ficar alto que nem você?
_ Bah! Mas que besteira!
_ Fala, por favor!
_ Já reparou que você me faz essa pergunta quase todo dia?
_ Por favor! Quero uma resposta…
Ciccio perdeu a calma.
_ Mas você, seu grandíssimo imbecil, como você acha que é, agora?
_ Baixinho demais, quase um anão…
Sem falar, Ciccio levantou-se, deu-lhe a mão, levou-o até o espelho do armário e ficou ao lado dele.
_ Não está vendo que temos a mesma altura, seu idiota?
Nenè olhou-se. Não tinha jeito, tinham, sim, a mesma altura, mas ele sentia-se mais baixo. O que podia fazer?

A PENSÃO EVA, Andrea Camilleri

maio 22, 2009

AndreaCamilleri

“…um cliente, assim que tiramos a roupa, quis que ficássemos em pé, um diante do outro. Depois, levou o indicador da mão direita para o meu mamilo esquerdo, apertou um pouco e fez “fom-fom” com a boca: parecia mesmo a buzina de um carro. Depois, levou o indicador da mão esquerda para o meu mamilo direito e fez “hõ-hõ”, outro tipo de buzina. Em seguida, com a palma aberta da mão direita, pegou a teta esquerda e começou a apertá-la e soltá-la fazendo “pém-pém-pém-pém”, como uma velha trompa de automóvel. Fez o mesmo com a mão esquerda, mas de novo mudou o som da trompa, que virou “pó-pó-pó-pó”. Era fantástico: o sujeito imitava esses sons perfeitamente. A partir daí, não se conteve mais: “pepénguuuuupópófogué”…”

A PENSÃO EVA, Andrea Camilleri

maio 18, 2009

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“_ Quando esse daí entra dentro desta daqui, isso vem a ser fazer amor – ela disse correndo, engolindo as palavras.
Nenè ficou atordoado. O que era? Uma adivinhação? Esse daí, desta aqui… Não tinha entendido nada!
_ Explique de novo, vai…
_ Não!
_ Tá, mas isso serve para quê?
_ Serve para ter prazer e para fazer os filhos.
_ Mas se serve para fazer os filhos, por que é pecado mortalíssimo?
_ Vem a ser pecado quando é feito por dois que não são casados ou quando é feito sem querer fazer os filhos.
Nenè ficou matutando, não compreendia direito a diferença de quando era pecado e quando não. Era preciso provar.
_ Me mostra como se faz?
Nova gargalhada de Angela.
_ Não se pode.
_ E por quê? Porque é pecado mortalíssimo?
_ Não, porque você não vai conseguir.
_ E você consegue?
_ Eu sim.
_ E por que eu não?
_ Porque o seu é pequeno.
Nenè ficou gelado.
No sótão, o sol desapareceu de repente, o lugar veio a encontrar-se exatamente ao lado da calota polar, baixou uma noite funda e fria, desceu um gelo ártico.
Então era por isso que ele sempre era excluído de cara das competições com os seus amigos da terceira série, todos com as cuecas abaixadas, num velho depósito de enxofre abandonado, para medir comprimento e grossura! Nem o levavam em conta! Virgem Maria, que desgraça! Virgem Maria,  que tragédia!
Por que logo ele teve de ter essa grandíssima má sorte? Não teria sido melhor nascer corcunda, até mesmo com duas corcovas? Muito melhor do que ter um pinto tão pequeno que não servia para fazer amor!
Todo mole, sem músculos ou nervos que o sustentassem, sentiu-se derreter e deslizou do sofá para o chão. Mal segurava o choro.
_ O que foi? _ Angela perguntou.
_ Nada.
_ Como nada? Fale, vá!
_ Se você diz que é assim… quer dizer que eu nunca…
Não deu mais para segurar: lágrimas grossas como grãos-de-bico começaram a descer-lhe pelo rosto.
_ Mas o que deu na sua cabeça, seu bobo? Quando você for grande, ele será igual ao de todos os homens grandes!
Talvez Angela dissesse a verdade.”

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