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NÃO FALEI, Beatriz Bracher

setembro 22, 2010

(que alegria!!)

Meu, minha, meu, como uma criança pequena aprendendo a fala da tribo, encontro-me nessa fase de aquisição de uma nova linguagem uma vez que a antiga, a que sabia e usei, suas palavras parecem ter se tornado estéreis, foram discutidas, aceitas e transformadas em algo que não reconheço mais. Por isso meu copo, meu pão, minha ira, meus sessenta e quatro anos. Como se precisasse novamente nomear e tomar posse do que levo comigo. Retornar à primeira pessoa e ao possessivo, as duas pragas juvenis que a modernidade nos legou e contra as quais sinceramente me bati. O bilhete de José dizia da mesma necessidade mas num sentido todo inverso ao meu. Fala em rememorar e eu penso em criar; pensa em descobrir e eu preciso fundar. O bilhete trouxe-me paz, afastou de mim aquela indignação pueril dos últimos dias, vibrante e frívola que me obstruía a reflexão deixando-me órfão nas mãos da reação. Seu tom machadiano, que José anda lá cultivando de tal modo que alcança o plágio por um percurso paradoxalmente pessoal, reavivou a alegria, a mesma de quando, em meio a um raciocínio complexo sobre o específico de uma composição, somos surpreendidos pelo canto de um passarinho. Talvez já cantasse há tempo, talvez seu cantar tenha adentrado manso as reviravoltas do raciocínio, mas o percebemos de supetão, nascido junto com a nossa alegria inesperada ao ouvi-lo. Arranca-nos para fora, destrói sem deixar rastros o fio que laboriosamente construíamos, entrega-nos apenas à nossa alegria de ouvir um passarinho. E, não raro, quando nos damos conta da alegria e do fio perdido e suspiramos resignados em recomeçar o trabalho, a solução aparece tão limpida e inesperada quanto o canto. Assim as palavras de José, “tal faço eu, à medida que me vai lembrando e convindo à construção  ou reconstrução de mim mesmo” (Machado por José).

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