Archive for the 'Bernardo Carvalho' Category

O FILHO DA MÃE, Bernardo Carvalho

novembro 15, 2009

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– Anna foi embora dois meses depois do seu nascimento. No começo, fiquei revoltada, mas aos poucos, conforme fui me apegando a você, obrigada a voltar a ser mãe por necessidade, comecei a entender. Se desde o início ela pretendia abandoná-lo, era melhor que saísse o quanto antes. Não são todas as mães que amam desde o início. E Anna tinha vindo para Grózni para se livrar do amor. As mulheres nascem para um amor que é insustentável e que passam a vida tentando compensar com amores secundários, para não ficarem loucas. Por isso, querem mais de um filho, para que o amor de um anule o do outro. Quando começam, não podem parar.

O FILHO DA MÃE, Bernardo Carvalho

novembro 9, 2009

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– Deixa que eu falo com ele – diz o ladrão ao recruta.

– As leis na Rússia são boas. Pena que os russos não estejam aqui para cumpri-las – o velho reclama, quando o ladrão lhe oferece dez dólares pela travessia.

Paga com a nota de um roubo recente. O velho quer saber de onde vêm os dólares. Desconfia que seja dinheiro roubado de turistas.

– É meu. Ele me roubou – Andrei se adianta, para tranquilizar o barqueiro, com um desprendimento que surpreende o batedor de carteiras.

Os três atravessam o canal sob a lua minguante e o céu de estrelas.

NOVE NOITES, Bernado Carvalho.

abril 6, 2009

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“Numa das vezes em que me falou de suas viagens pelo mundo, perguntei aonde queria chegar e ele me disse que estava em busca de um ponto de vista. Eu lhe perguntei: “Para olhar o quê?”. Ele respondeu: “Um ponto de vista em que eu já não esteja no campo de visão”. Eu poderia ter dito a ele, mas não tive coragem, que não precisava procurar, que se fosse por isso não precisava ter ido tão longe. Porque ele nunca estaria no seu próprio campo de visão, onde quer que estivesse, ninguém nunca está no seu próprio campo de visão, desde que evite os espelhos. Às vezes me dava a impressão de que, a despeito de ter visto muitas coisas, não via o óbvio, e por isso acreditava que os outros também não o vissem…”

“Terá que aprender a se lembrar dele como um homem fora do seu campo de visão, se é que pretende vê-lo como eu o vi. Também demorei a entender o que ele queria dizer com aquilo, o que havia de mais terrível nas suas palavras: que, ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver.”

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