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CARTAS DE VIAGEM E OUTRAS CRÔNICAS, Campos de Carvalho

abril 13, 2018

Ao por os pés no chão cada manhã deveríamos pensar: estou realizando o ato mais importante que um homem pode realizar fora de sua cama e de si mesmo, que é o de pisar o mundo, em consequência carregá-lo às costas, sentir-lhe todas as alegrias e tristezas humanamente e não como um robô ensinado por seus pais e avós também robôs. Estou pisando o mundo e só eu posso na minha fragilidade e em meio a tanto espelho e a tanta porta descobrir o que é certo e o que não é, qual o caminho que leva ao mar como acontece às tartarugas recém-nascidas e quais os caminhos que não levam a lugar nenhum e de onde nos espreita, com suas mil faces, o anjo da morte. Só eu posso na minha cegueira guiar-me com as luzes profundas da intuição, aquele fiapo de luz entrevisto no fim do imenso túnel e ao qual me agarrarei como o afogado à ponta de uma corda: uma possibilidade em mil de salvar-me, de acertar com o meu caminho, mas sempre uma razão de viver e de ainda continuar vivo, lado a lado com os milhões de espermatozóides que tentam comigo a grande aventura. Um crápula muitas vezes perplexo no seu (alheio) labirinto, dando murros no ar e imprecando nas trevas – mas o mesmíssimo ser capaz de amanhã escrever um Invenção de Orfeu ou beijar qual Francisco de Assis todos os leprosos do caminho, levado pelos ventos do gênio ou da santidade, o olhar perdido no horizonte enfim achado, finalmente em paz com a sua consciência e pronto para morrer para o mundo e depois morrer.

 

OBRA REUNIDA, Campos de Carvalho

maio 7, 2009

campcarv

13 de novembro

Fui ao psicanalista e ele me fez deitar num divã, sem o paletó, a gravata e os sapatos.

– Está se sentindo confortável?

– Muito. E o senhor?

– Desaperte o cinto.

– Quer dizer que já subimos?

– Limite-se a responder. Feche os olhos, procure concentrar-se.

Fazia um calor dos diabos, e de repente, me veio uma vontade louca de urinar.

– Já pensou alguma vez em matar seu pai?

– Muitas. Mas, se o sr. me permite, eu gostaria de urinar.

– E sua mãe, já pensou em possuí-la alguma vez?

– Isso nunca; sempre tive namorada firme. Mas eu gostaria de ir urinar.

– Tem irmãos ou irmãs?

– Que eu saiba, não. Assim de momento é meio difícil…

– Gatos? Cachorros?

– Se o sr. não me deixar ir urinar, não respondo, nem respondo pelas consequências.

E depois eu voltei do banheiro:

– Quantos dedos o sr. tem nas mãos? Não, não pode abrir os olhos.

– Dez, até chegar aqui pelo menos.

– Responda depressa: se ponho vinte e duas melancias nas suas mãos e depois tiro cinco e acrescento três, com quantos dedos o senhor fica?

– Vinte. Contando com os dos pés, naturalmente.

– Em que ano estamos?

– Mil novecentos e sessenta e três.

– Século?

– Vinte.

– Antes de Cristo ou depois de Cristo?

– Que Cristo?

– Não faça perguntas, já disse. O mar é vermelho ou amarelo?

– Depende. No mapa lá de casa, tanto o mar Vermelho quanto o Amarelo são azuis. Da minha janela às vezes ele é cor de abóbora.

– Qual o oceano que dá pra sua janela?

– O Atlântico, isto é pacífico.

– O Atlântico ou o Pacífico?

– Assim o sr. me confunde. Nem eu vim aqui para me submeter a prova de geografia.

O homem foi até a janela e cerrou calmamente as cortinas.

– Agora vai dizer em voz alta, e sem pensar, tudo que lhe vier à cabeça. Relaxe-se o mais que possível e nada de escrúpulo.

– Escrúpulo. Cabeça. O oceano é azul. Que calor está fazendo. A morte de Danton. As metamorfoses de Ovídio. O senhor é uma besta. Com quantos paus se faz uma canoa? Vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro. As laranjas da Califórnia são deliciosas. Umbigo. Rapadura. Otorrinolaringologista. É a tua, mulher nua, vou prá lua, jumento, pára-vento, dez por cento, Catão, catatau, catapulta que o pariu, catástrofe, caralho, os medos, os vegas, as vegaminas, as sulfas e as para-sulfas, dimetilaminatetrassulfonatosódico, porra de merda, argentino, argentários, argentículo, testículo, laparotomia, Bóris Karloff, Irmãos Karamazov, Irmãos Marx, Marx, Engels, Lenin, Lenita, onomatopéia, onomatopaico, onanista, ovos de páscoa, jerimum, malacacheta, salsaparrilha, Rzhwpstkj, Celeste Império, semicúpio, Salazar, sai azar, vinte e seis da manhã, Dadá, Dedé, Dodô, Dudu, holofote, oliveira, olá Olavo, Alá, ali, alô sua besta já não basta?…

– Basta. O sábio agora me olhava atentamente, o lápis suspenso no ar, o bloco de papel com rascunhos sobre o joelho. Sua máscara traia uma grande inquietação, como se temesse alguma coisa ou já começasse a pôr em dúvida a minha sanidade. Até que, simulando uma calma absoluta, arriscou o ar mais natural deste mundo:

– O senhor já foi à Bulgária?”

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