Archive for the 'Cristovão Tezza' Category

O FILHO ETERNO, Cristovão Tezza

maio 30, 2009

filho-eterno

“O pai sempre se recusou a dizer, fazendo-se humilde, que “escreve umas coisinhas”, o álibi de quem se desculpa, de quem quer entrar no salão mas não recebeu convite. Nunca foi esse o seu caso; sempre viveu debaixo de uma autonomia agressiva, beirando a sociopatia; e ao mesmo tempo por muitos anos teve vergonha de se afirmar, intransitivo, um “escritor”, e a angústia maior vinha do fato de, durante década e meia, não ter nada para colocar no lugar quando lhe perguntavam o que fazia na vida; dizer “eu escrevo” seria confessar uma intimidade absurda, equivalente à da vida sexual ou à dos problemas da família, entregar o que se sonha no escuro, a massa disforme dos desejos; partilhar o hálito, confessar esse amontoado de palavras inúteis mas arrogantes, pretensiosas, papagaios empinados pela vaidade; durante todos esses anos sentiu o peso do ridículo de ser escritor, alguém que publica livros aos quais não há resposta, livros que ninguém lê; e que resistiu bravamente, e pelo menos nisso teve sucesso, ao consolo confortável, à coceira na língua, quase sempre calhorda, de despejar no mundo as culpas da própria escolha. É simplesmente um fato com o qual temos que lidar sozinhos, ele imaginava, escoteiro, anos a fio, camponês de si mesmo, girando no seu mundo de dez metros de diâmetro, até que se tornou professor, um trabalho, esse sim, que lhe pareceu realmente defensável, um trabalho que lhe valeu um suspiro de alívio, o álibi perfeito na vida – ele era, finalmente, alguém, e alguém até de alguma importância. Uma bela figura diante do quadro-negro! Isto é, ganhava algum dinheiro com o suor do seu rosto, como queria o seu pai e o pai de seu pai até o início e o fim dos tempos”.

O FILHO ETERNO, Cristovão Tezza

abril 25, 2009

filho-eterno

“São Paulo é uma cidade que lhe agrada muito – aquela combinação abstrata de linhas e formas infinitas quadriculando o mundo inteiro e fazendo dele uma obra tão brutalmente humana que não há fissura por onde a natureza possa entrar. Um mundo de cabeças se movendo; todos habitam um mapa, não um espaço. São idéias e projetos que se movem, não pessoas. Ele se sente em casa, ainda que na última camada da memória ressoe a maldição de seu guru de infância contra as megalópoles como o clímax do anti-humanismo e a derrota final do bom selvagem. O rio Tietê apodrece, os prédios sobem para o céu; o asfalto que nos separa da natureza é também o homem passado a limpo. Ou – ele imagina, sorrindo – eu gostaria de ficar de cócoras (volta-lhe a imagem clássica do Jeca Tatu de Monteiro Lobato) picando fumo acocorado no chão ou sentado num banquinho de três pernas para não complicar o equilíbrio? Os moderados diriam que progresso e natureza não são incompatíveis, mas é preciso alguma civilização entre uma coisa e outra, e no Brasil parece que não há tempo para nada, entre um projeto e outro há um mar de pessoas que vão sendo esmagadas no caminho – o país não dá para todos, paciência.”

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