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TRÊS USOS DA FACA, David Mamet

fevereiro 25, 2010

Os anti-stratfordianos afirmam que Shakespeare não escreveu as peças de Shakespeare; que foi outro sujeito com o mesmo nome, ou com nome diferente. Com isso, invertem a equação megalomaníaca e tornam-se não os eleitos, mas os superiores dos eleitos. Impedidos de escrever as peças de Shakespeare por um lamentável acidente temporal, eles aceitam, na fantasia de quase todo editor, o manto de primum mobile, lançam o (falsamente apontado) criador no esquecimento e banham-se na adulação da multidão com sua proeza de descoberta e compreensão, a qual é muito mais profunda e intelectualizada do que o necessariamente porco trabalho do autor.

Ao fazer isso, os anti-stratfordianos identificam-se como campeões das castas superiores (o conde de Oxford, Bacon, Elizabeth) e, mais importante que isso, se revelam como aqueles-que-subjugam-a-morte. Designam a si mesmos como a “eternidade”, ou a força que irá julgar todas as coisas.

Atribuir a autoria a Bacon etc. é como a barretada que a gerência faz ao trabalho preguiçoso, estando no mesmo nível de um prêmio de “Melhor funcionário da semana”, no qual o verdadeiro status jaz não com o recipiente mas com o doador e seu poder paternalista.

O anti-stratfordiano, tal como o crente numa terra plana e o criacionista, elege a si mesmo Deus, possuidor do poder de sobrepor-se à ordem natural; e a mais profundamente oculta, porém abrangente, fantasia dos acima citados é o delírio absoluto de divindidade: “Eu fiz o mundo.”

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