Archive for the 'Dostoiévski' Category

NOTAS DO SUBSOLO, Dostoiévski

abril 3, 2017

 

As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, gosta apenas do processo de procurar atingir um objetivo , e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá mais nada para procurar. Os trabalhadores, ao término do trabalho, pelo menos recebem seu dinheiro e podem ir para o botequim e depois podem acabar na delegacia – e têm, assim, ocupação para a semana. Mas o homem para onde irá? Pelo menos, sempre se nota que ele fica um pouco sem jeito quando consegue atingir algum desses objetivos. Ele ama o processo de conseguir, mas atingir mesmo, nem tanto, e isso, claro está, é terrivelmente engraçado. Em uma palavra, o homem é constituído de modo cômico; em tudo isso, pelo visto, há um jogo de palavras. Mas dois e dois são quatro é, de qualquer modo, uma coisa extremamente insuportável. Dois e dois são quatro, na minha opinião, é pura insolência. Dois e dois são quatro olha para você com ar petulante, fica no meio do seu caminho com as mãos na cintura e cospe pro lado. Concordo que dois e dois são quatro é uma coisa excelente; porém, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco às vezes também é uma coisinha bem encantadora.

DUAS NARRATIVAS FANTÁSTICAS, Dostoiévski

agosto 12, 2010

O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO

Por exemplo, ocorreu-me de repente a estranha consideração de que, se eu vivesse na lua, ou em Marte, e lá cometesse o ato mais canalha e mais desonesto que se possa imaginar, e lá fosse achincalhado e desonrado como só se pode sentir e imaginar às vezes dormindo, num pesadelo, e se, vindo parar depois na terra, eu continuasse a ter consciência do que cometi no outro planeta e, além disso, soubesse que nunca mais, de jeito nenhum, voltaria para lá, então, olhando a lua da terra – tudo me seria indiferente ou não?

CRIME E CASTIGO, Fiódor M. Dostoiévski

janeiro 28, 2010

” — Não, não é um lugar comum. Por exemplo, ensinaram-nos até aqui – “ama teu próximo”. Se eu pratico tal preceito, que é que acontece? prosseguiu Piótr Petróvich com uma precipitação talvez um pouco visível demais. Acontece que eu rasgo meu capote em dois, dou a metade ao próximo e ficamos, os dois, nem vestidos, nem nus. Segundo o provérbio russo: “Quando se caçam muitas lebres, não se pega nenhuma.”Ora, a ciênca me ensina a amar a mim mesmo acima de tudo, porque tudo neste mundo se estriba no interesse pessoal. Se o senhor amar a si mesmo realizará os seus negócios direitinho e guardará o seu capote inteiro. A economia política acrescenta que, quanto mais fortunas privadas se formarem numa sociedade, ou, em outras palavras, quanto mais capotes inteiros forem fabricados, melhor se assentará nas suas bases e será melhor organizada.Portanto, trabalhando para mim sòzinho, eu trabalho, por conseguinte, para todo o mundo e contribuo para que o próximo receba um pouco mais da metade do capote furado e isso não por causa das liberdades privadas ou individuais, mas em consequência do progresso geral. A idéia é simples: infelizmente, tem demorado muito para seguir seu caminho, tendo sido durante muito tempo abafada pelo espírito quimérico e sonhador.”

CRIME E CASTIGO, Dostoiévski

dezembro 4, 2009

(…) Bem, não sei se acreditam: exigem total falta de personalidade, e nisso encontram o próprio prazer! A gente tem de arranjar jeito de não ser o que é, de parecer o mínimo possível consigo mesmo! Entre eles é isso que se considera o mais elevado progresso. Se pelo menos mentissem a seu modo, no entanto…

– Escute – interrompeu timidamente Pulkhéria Alieksándrovna -, isso só pôs lenha na fogueira.

– E o que a senhora acha? – gritou Razumíkhin, levantando ainda mais a voz. – A senhora acha que estou a favor de que eles mintam? Absurdo! Eu gosto quando mentem! A mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos. Quem mente chega à verdade! Minto, por isso sou um ser humano. Nunca se chegou a nenhuma verdade sem antes haver mentido de antemão quatorze, e talvez até cento e quatorze vezes, e isso é uma espécie de honra; mas nós não somos capazes nem de mentir com inteligência! Mente pra mim, mas mente a teu modo, e então eu te dou um beijo. Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro! A verdade não foge e a vida a gente pode segurar com pregos; exemplos houve. E hoje, o que nós fazemos? Todos nós, todos sem exceção, no que se refere à ciência, ao desenvolvimento, ao pensamento, aos inventos, aos ideais, aos desejos, ao liberalismo, à razão, à experiência e tudo, tudo, tudo, tudo, ainda estamos na primeira classe preparatória do colégio! Nós nos contentamos em viver da inteligência alheia – e nos impregnamos!

CRIME E CASTIGO, Dostoiévski

novembro 16, 2009

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A coisa é clara: não se vende em proveito próprio, por conforto, nem para escapar da morte, mas se vende em proveito do outro! Se vende por uma pessoa querida, por uma pessoa adorada! É nisso que consiste toda essa nossa coisa: pelo irmão, pela mãe ela se vende! Vende tudo! Oh, aqui, havendo oportunidade, nós esmagamos até o nosso sentimento ético; levamos à loja de usados a liberdade, a tranqüilidade, até a consciência, tudo, tudo. Dane-se a vida! Contanto que esses nossos seres apaixonados sejam felizes. Como se não nos bastasse inventar a nossa própria casuística, aprendemos com os jesuítas e, pode ser, por um momento tranqüilizamos a nós mesmos, persuadimos a nós mesmos de que se deve agir assim, de que realmente se deve, para atingir um bom objetivo. Nós somos assim mesmo, e tudo é claro como o dia.

NOITES BRANCAS, Dostoiévski

novembro 8, 2009

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Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril… mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes.

CRIME E CASTIGO, Fiódor M. Dostoiévski

setembro 17, 2009

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“Entende, entende bem, meu caro senhor, o que significa não ter mais aonde ir?” Eram as palavras de Marmeladóv, pronunciadas na véspera, que Raskólnikov lembrava, ràpidamente, “porque todo homem deve ter um lugar aonde ir…”

OS IRMÃOS KARAMÁZOV, Dostoiévski

setembro 15, 2009

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— Está falando a verdade? Bem, agora, depois dessa confissão, acredito que a senhora é sincera e tem um bom coração. Senão chegar à felicidade, lembre-se sempre, porém, de que está no bom caminho e procure não sair dele. E o principal: fuja da mentira, de toda e qualquer mentira, particularmente de mentir para si mesma. Vigie sua mentira, examine-a a toda hora, a cada minuto. Fuja também à repulsa, tanto aos outros quanto a si mesma: aquilo que a senhora, em seu próprio íntimo, acha ruim, já se purifica pelo simples fato de o haver notado dentro de si mesma. Fuja igualmente do medo, embora o medo seja apenas a consequência de todo erro. Nunca tema sua própria falta de coragem na tentativa de conquistar o amor, nem mesmo tema muito os próprios maus atos que aí tenha cometido. Lamento não poder lhe dizer nada de mais confortante, pois que o amor ativo, comparado ao amor contemplativo, é algo cruel e apavorante. O amor contemplativo anseia por uma proeza imediata, que possa ser rapidamente realizada e que todos vejam. E nisso chega efetivamente a ponto de sacrificar a vida, contanto que a coisa não demore muito e se realize bem depressa, como que no palco, para que todos a vejam e elogiem. Já o amor ativo é trabalho e autodomínio e, para quem o pratica, é talvez toda uma ciência. Contudo, predigo que no instante mesmo em que a senhora constatar horrorizada que, apesar de todos os seus esforços, não só não se aproximou da meta mas até  como que se afastou dela — nesse mesmo instante, predigo-lhe, a senhora atingirá de repente a meta…

CRIME E CASTIGO, Dostoiévski

agosto 10, 2009

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– E se eu fugir? – perguntou Raskolnikov com um riso estranho.

– Não foge. Um mujique fugiria, um revolucionário vulgar fugiria porque tem um credo para toda a vida. Mas o senhor já não crê na sua teoria: que levaria se fugisse? Ademais, que existência ignóbil e odiosa a de um fugitivo! Fugindo, voltaria por sua própria vontade. O senhor não pode passar sem nós.

DUAS NARRATIVAS FANTÁSTICAS, Dostoiévski

junho 9, 2009

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A DÓCIL

Besteira, besteira, besteira e besteira! Expliquei-lhe então franca e impiedosamente (e ressalto que foi impiedosamente), em duas palavras, que a generosidade da juventude é um encanto, mas – não vale um vintém. Por que não vale? Porque não lhe custa nada, não resultou do fato de ter vivido, tudo são, por assim dizer, “as primeiras impressões da existência”, mas vamos ver como é que se arranja no trabalho! A generosidade barata é sempre fácil, e até o sacrifício da própria vida – mesmo isso também sai barato, porque nesse caso é só o sangue que ferve e há um excesso de forças, e se deseja apaixonadamente a beleza! Não, vamos, tome uma proeza da generosidade, uma proeza difícil, abafada, inaudível, sem brilho, alvo de calúnia, na qual há muito sacrifício e nem uma gota de glória – na qual o senhor, um homem esplêndido, seja exposto diante de todo o mundo como um canalha, quando na verdade é mais honesto que todos os homens da terra – bem, vamos lá, experimente realizar essa proeza, ah, não senhor, o senhor se recusaria!

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