Archive for the 'Franz Kafka' Category

SONHOS, Franz Kafka

maio 8, 2010

É muito tarde, minha cara, e ainda assim vou dormir, sem merecer. Bem, dormir mesmo não vou, mas apenas sonhar. Como ontem, por exemplo, quando no sonho eu andava até uma ponte ou um cais em cuja amurada por acaso havia dois telefones; eu levava os fones ao ouvido e ficava pedindo notícias dos “confins do mar”, mas do telefone só vinha o bramir do oceano e um cântico sem palavras, triste, impressionante. Mesmo depois de perceber que nenhuma voz humana conseguiria sobrepor-se a tais ruídos, não desisti e ali fiquei.

CARTA AO PAI, Franz Kafka

abril 7, 2010

É claro que na realidade as coisas não se encaixam tão bem como as provas contidas na minha carta, pois a vida é mais que um jogo de paciência; mas com a correção que resulta dessa réplica – que não posso nem quero estender aos detalhes – alcançou-se a meu ver alguma coisa tão próxima da verdade que pode nos tranqüilizar um pouco e tornar a vida e a morte mais leve para ambos.

CARTA AO PAI, Franz Kafka

março 24, 2010

Recebemos da sua mão aquilo que você precisou lutar para conseguir, mas a luta pela vida material, que no seu caso foi imediata, e da qual naturalmente não somos poupados, essa nós só tivemos de travar mais tarde, com energia de criança na idade adulta. Não digo que por causa disso nossa situação seja necessariamente menos favorável do que foi a sua, provavelmente ela é equivalente (ainda que as situações de base não possam, é claro, ser comparadas); estamos em desvantagem no sentido de que não podemos nos vangloriar das nossas privações, nem humilhar ninguém com elas, como você fez com as suas. Também não nego que teria sido possível que eu fruísse e valorizasse na justa medida os frutos do seu grande e bem-sucedido trabalho e pudesse levá-los em frente para lhe dar alegria; mas justamente nosso distanciamento se opunha a isso. Eu podia desfrutar o que você me dava, mas só com vergonha, cansaço, fraqueza, consciência de culpa. Conseqüentemente, por tudo isso eu só conseguia ser grato como um mendigo, nunca através da ação.

CONTOS, Franz Kafka

julho 10, 2009

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O Novo Advogado

Mesmo no seu tempo, as portas da Índia eram inatingíveis; no entanto, a espada do rei apontava-lhes o caminho. Hoje em dia, as portas recuaram para locais mais remotos e elevados. Ninguém aponta o caminho. Há muitos que andam de espada, mas apenas para a brandirem, e os olhos que tentarem segui-la ficam confundidos.

A METAMORFOSE, Franz Kafka

julho 10, 2009

a metamorfose kafka

E a ferida que Gregor tinha no dorso parecia abrir-se de novo quando a mãe e a irmã, depois de meterem o pai na cama, deixavam os seus trabalhos no local e se sentavam, com a cara encostada uma à outra. A mãe costumava então dizer, apontando para o quarto de Gregor: “Fecha a porta, Grete”. E lá ficava ele novamente mergulhado na escuridão, enquanto na sala ao lado as mulheres misturavam as lágrimas ou, quem sabe, se deixavam ficar à mesa, de olhos enxutos, a contemplar o vazio.

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