Archive for the 'Gabriel García Marquez' Category

NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL, Gabriel García Márquez

agosto 26, 2011

Viu o galo amarrado no suporte do fogareiro e desta vez lhe pareceu um animal diferente. A mulher também olhou-o.

– Hoje à tarde tive de espantar os meninos com um cacete – comentou. – Trouxeram uma galinha velha para cruzar com ele.

– Não é a primeira vez – disse o Coronel. – Faziam isso mesmo nos povoados com o coronel Aureliano Buendía. Levavam para ele mocinhas para acasalar.

Ela celebrou a ocorrência. O galo emitiu um som gutural que chegou até o corredor como uma surda conversação humana.

– Às vezes eu penso que esse bicho vai falar – comentou ela.

O Coronel observou-o mais uma vez.

– Trata-se de um galo cantante e sonante – argumentou. Fez cálculos enquanto sorvia uma colherada de canjica. – Ele ainda vai dar de comer à gente por uns três anos.

– Ilusão não se come – preveniu a mulher.

– Não se come, mas alimenta – replicou. – É algo assim milagroso como as pastilhas do meu compadre Sabas.

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Marquez

agosto 19, 2010

Flora Miguel acordou naquela segunda-feira com os primeiros bramidos do navio do bispo, e muito pouco tempo depois soube que os gêmeos Vicário estavam esperando Santiago Nasar para matá-lo. A minha irmã, a freira, a única que falou com ela depois da desgraça, disse que não se lembrava sequer de quem lhe dissera. “Só sei que às seis da manhã todo mundo sabia”, disse-lhe. Achou, entretanto, inconcebível que fossem matar Santiago Nasar e, em troca, pensou que o iriam casar à força com Ângela Vicário, para assim lhe devolver a honra. Sofreu uma crise de humilhação. Enquanto meio povo esperava pelo bispo, ficava em seu quarto chorando de raiva e pondo em ordem o cofre das cartas que Santiago Nasar lhe escrevera do colégio.

Sempre que passava pela casa de Flora Miguel, ainda que ninguém estivesse lá, Santiago Nasar raspava com as chaves a tela metálica das janelas. Naquela segunda-feira ela o estava esperando com o cofre das cartas no regaço. Santiago Nasar não podia vê-la da rua; ela, entretanto, viu-o aproximar-se através da rede metálica antes mesmo que a raspasse com as chaves.

– Entre – disse-lhe.

Ninguém, nem mesmo um médico, entrara nessa casa às 6h45m da manhã. Santiago Nasar acabava de deixar Cristo Bedoya no estabelecimento de Yamil Shaium, e na praça havia tanta gente interessada nele que era incompreensível que ninguém o visse entrar na casa da noiva. O juiz instrutor procurou pelo menos uma pessoa que o houvesse visto, e o fez com tanta persistência como eu, mas não foi possível encontrá-la. A folha 382 do sumário, ele escreveu outra sentença marginal a tinta vermelha: A fatalidade nos faz invisíveis.

A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DE CÂNDIDA ERÊNDIRA E SUA AVÓ DESALMADA, Gabriel García Márquez

abril 19, 2010

BLACAMAN, O BOM VENDEDOR DE MILAGRES

O caso é que estávamos pondo sua botica de circo naquele baú com babados de púrpura, que mais parecia o sepulcro de um erudito, quando ele deve ter visto dentro de mim alguma luz que não vira antes, porque me perguntou de mau humor quem é você, e eu lhe respondi que era o único órfão de pai e mãe a quem ainda não morrera o papai, e ele soltou umas gargalhadas mais estrepitosas que as do veneno e me perguntou depois o que você faz na vida, e eu lhe respondi que não fazia nada mais que estar vivo, porque tudo o mais não valia a pena, e ainda chorando de rir me perguntou qual era a ciência que mais queria conhecer no mundo, e essa foi a única vez que lhe respondi sem ironia, que queria ser adivinho, e então não voltou a rir, mas me disse, como que pensando em voz alta, que para isso me faltava pouco, pois já tinha o mais fácil de aprender, que era a minha cara de bobo.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA, Gabriel García Márquez

novembro 11, 2009

o-amor-nos-tempos-do-colera-1

Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.

Coincidiram.

CIEN AÑOS DE SOLEDAD, Gabriel García Márquez

setembro 24, 2009

cien_sol2

Volvió a comer tierra. La primera vez lo hizo casi por curiosidad, segura de que el mal sabor sería el mejor remedio contra la tentación. Y en efecto no pudo soportar la tierra en la boca. Pero insistió, vencida por el ansia creciente, y poco a poco fue rescatando el apetito ancestral, el gusto de los minerales primarios, la satisfacción sin resquicios del alimento original. Se echaba puñados de tierra en los bolsillos, y los comía a granitos sin ser vista, con un difuso sentimiento de dicha y de rabia, mientras adiestraba a sus amigas en las puntadas más difíciles y conversaba de otros hombres que no merecían el sacrificio de que se comiera por ellos la cal de la pared. Los puñados de tierra hacían menos remoto y más cierto al único hombre que merecia aquella degradación, como si el suelo que pisaba con sus finas botas de charol en otro lugar del mundo, le transmitiera a ella el peso y la temperatura de su sangre en un rescoldo áspero en la boca y un sedimento de paz en el corazón.

O VENENO DA MADRUGADA (A má hora), Gabriel García Márquez

setembro 17, 2009

726859g

– Tudo a seu tempo – replicou Padre Ángel. E logo, noutro tom, acrescentou: – É claro que não quero chegar já velho a uma nova paróquia. Não quero que aconteça comigo o que aconteceu com o manso Antonio Isabel del Santíssimo Sacramento del Altar Castañeda y Montero, o qual disse ao seu bispo que em sua paróquia estava caindo uma chuva de pássaros mortos. E quando o enviado do bispo lá chegou, encontrou-o na praça do povoado, brincando com as crianças de bandido e mocinho.

As damas mostraram-se perplexas.

– Quem era ele?

– O paróco que me sucedeu em Macondo – disse Padre Ángel. – Tinha cem anos.

MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES, Gabriel García Márquez

julho 3, 2009

252857gg

Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice. Comecei por me perguntar quando tomei consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos, havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: É uma dor natural na sua idade, falou.

– Então – disse eu –, o que não é natural é a minha idade.

O médico me deu um sorriso de lástima. Vejo que o senhor é um filósofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade em termos de velhice, mas não tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil eqüino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.

DOZE CONTOS PEREGRINOS, Gabriel García Marquez

junho 18, 2009

DOZE_CONTOS_PEREGRINOS_1229343485P

“Neruda dormiu no ato, e despertou dez minutos depois, como as crianças, quando menos esperávamos. Apareceu na sala restaurado e com o monograma do travesseiro impresso na face.

– Sonhei com essa mulher que sonha – disse.

Matilde quis que ele contasse o sonho.

– Sonhei que ela estava sonhando comigo – disse ele.

– Isso é coisa de Borges – comentei.

Ele me olhou desencantado.

– Está escrito?

– Se não estiver, ele vai escrever algum dia – respondi. – Será um de seus labirintos.”

DOZE CONTOS PEREGRINOS, Gabriel García Marquez

junho 18, 2009

DOZE_CONTOS_PEREGRINOS_1229343485P

“Só havia conhecido uma ansiedade semelhante quando era muito pequena em Manaus, um minuto antes do amanhecer, quando os ruídos numerosos da noite cessavam de repente, as águas se detinham, o tempo titubeava, e a selva amazônica mergulhava num silêncio abismal que só podia ser igual ao da morte.”

%d blogueiros gostam disto: