Archive for the 'George Perec' Category

AS COISAS, George Perec

outubro 3, 2013

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Em teoria, um jovem que faz alguns estudos e depois cumpre honestamente suas obrigações militares encontra-se por volta dos vinte e cinco anos nu como no dia em que nasceu, embora já virtualmente possuidor, por causa de seu próprio saber, de mais dinheiro do que jamais fora capaz de desejar. Isto é, ele sabe com toda certeza que chegará um dia em que terá seu apartamento, sua casa de campo, seu carro, seu aparelho de som de alta fidelidade. No entanto, ocorre que essas exaltantes promessas se façam desagradavelmente esperar: pertencem, por sua própria natureza, a um processo do qual dependem, se quisermos refletir melhor, o casamento, o nascimento dos filhos, a evolução dos valores morais, atitudes sociais e comportamentos humanos. Em suma, o jovem deverá se instalar, e isso lhe tomará bem uns quinze anos.

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? E, pensando em se consolar, cai nas armadilhas das vendas a prazo. A partir daí, está pego, bem pego: só lhe resta se armar de paciência. Infelizmente, quando está no fundo do poço, o jovem não é mais tão jovem, e, cúmulo da desgraça, poderá até mesmo lhe parecer que sua vida já ficou para trás, que ela era apenas seu esforço, e não seu objetivo, e conquanto ele seja muito sensato, muito prudente – pois sua lenta ascensão lhe terá dado uma saudável experiência – para ousar fazer tais comentários, será uma absoluta verdade o fato de que estará com quarenta anos e que a instalação de suas residências, principal e secundária, e a educação de seus filhos terão bastado para preencher as magras horas que não tiver dedicado a seu labor…

AS COISAS, George Perec

novembro 18, 2012

Como fazer fortuna? Era um problema insolúvel. No entanto, todo dia, parecia que indivíduos isolados conseguiam, por sua própria conta, resolvê-lo perfeitamente. E esses exemplos a seguir, eternos fiadores do vigor intelectual e moral da França, de rostos sorridentes e ajuizados, espertos, voluntariosos, cheios de saúde, de decisão, de modéstia, eram outras tantas imagens pias para a paciência e o governo dos outros, aqueles que estagnam, marcam passo, não se soltam, mordem os lábios na poeira.

AS COISAS, George Perec

novembro 18, 2012

Gostariam de ter sido ricos. Acreditavam que teriam sabido sê-lo. Saberiam ter se vestido, olhado, sorrido como gente rica. Teriam tido o tato, a discrição necessária. Teriam esquecido sua riqueza, teriam sabido não ostentá-la. Não teriam se glorificado com ela. Apenas a teriam respirado. Seus prazeres teriam sido intensos. Gostariam de ter andado, flanado, escolhido, apreciado. Gostariam de ter vivido. A vida teria sido uma arte de viver.

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