Archive for the 'Herman Melville' Category

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

agosto 25, 2011

É tão verdadeiro e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido apenas ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela.

BARTLEBY, O ESCRIVÃO, Herman Melville

julho 18, 2011

Alguns dias mais tarde, Bartleby terminou quatro documentos longos, quatro cópias de depoimentos prestados diante de mim, durante uma semana, na Suprema Corte. Era necessário conferi-los. Era uma tarefa importante, que exigia precisão. Depois de arrumar tudo, chamei Turkey, Nippers e Ginger Nut da sala ao lado, pensando em dar quatro cópias aos meus quatro funcionários, enquanto eu leria o original. Assim, Turkey, Nippers e Ginger Nut sentaram-se em fila, todos com o seu documento na mão, quando então chamei Bartleby para se juntar a esse curioso grupo.

“Bartleby, depressa! Estou esperando.”

Ouvi um lento arrastar da cadeira no chão sem tapete, e logo ele apareceu, parando na entrada do seu eremitério.

“O que deseja?”, perguntou, dócil.

“As cópias, as cópias! Nós vamos conferi-las. Tome aqui!”, eu disse apressado, estendendo-lhe a quarta cópia.

“Acho melhor não”, ele disse, desaparecendo silenciosamente atrás do biombo.

Por um instante, fiquei como uma estátua de sal à frente da fileira de funcionários sentados. Recompondo-me, dei uns passos na direção do biombo e exigi uma explicação para comportamento tão estranho.

“Por que se recusa?”

“Acho melhor não.”

Com qualquer outro homem, eu teria tido imediatamente um acesso de raiva e o teria expulsado, desprezando quaisquer explicações. Mas havia algo em Bartleby que não apenas me desarmou, como também me comoveu e desconcertou, de maneira assombrosa. Pus-me a raciocinar com ele.

“Estas são as suas próprias cópias que vamos conferir. Vai lhe poupar trabalho, porque basta uma averiguação para os seus quatro documentos. Isso é de praxe. Todo copista tem a obrigação de conferir a sua cópia. Não é? Não vai falar nada? Responda!”

“Acho melhor não”, respondeu num tom agudo.

Parecia que, enquanto eu falava com ele, Bartleby analisava com cuidado cada palavra que eu proferia, compreendia o que eu queria dizer, não conseguia se opor à conclusão irresistível, mas, ao mesmo tempo, uma razão superior o levava a responder daquela forma.

“Então, está decidido a não atender o meu pedido – um pedido feito segundo o costume e o bom senso?”

Ele me deu a entender laconicamente que o meu raciocínio era razoável. Mas que a sua decisão era irreversível.

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