Archive for the 'Imre Kerstész' Category

O FIASCO, Imre Kertész

novembro 30, 2009

Köves leu a carta com uma mistura de embaraço, raiva e preocupação. Como? A vida aqui começa demitindo-se as pessoas? Se bem que Köves ultimamente já não trabalhava na redação desse jornal que o acabara de demitir; por outro lado, no que lhe dizia respeito, até que ele poderia trabalhar, sim — agora que lhe deram o “bilhete azul”, Köves sentia uma verdadeira tentação para essa possibilidade, cuja realização, no entanto, mal acabara de lampejar, já lhe fora tolhida. Mas talvez nem fosse uma possibilidade sua! Como poderia saber? Resposta a isso só a experiência podia dar; só que nesse caso já não se trataria de possibilidade, mas de sua própria vida. Pensando bem, Köves não se sentia nem um pouco atraído pelo jornalismo; era possível, ou melhor, era bem provável até que ele não tivesse vocação nenhuma para essa profissão. O jornalismo — essa sua alma — era uma mentira ou, no mínimo, uma leviandade insensata; e, embora Köves estivesse longe de se considerar um moço incapaz de mentir, sentia, em contrapartida, que não poderia adequar-se a qualquer tipo de mentira; algumas mentiras ultrapassavam suas forças, outras ainda, suas aptidões — que Köves classificaria preferivelmente como: seu talento. Por outro lado — sem dúvida alguma —, ele era um homem de letras, e parece que isso ali era apreciado — naturalmente, à moda deles; ao lado disso — se de resto ele não estava ali para ser jornalista, ou cultivador de qualquer outra profissão banal —, de alguma coisa ele teria de viver, e o jornalismo, à parte a mentiraria, era uma ocupação bastante confortável, que permite até um tempo livre tolerável. De qualquer modo — Köves decidiu por fim —, sua imaginação não poderia prender-se a algo diferente daquilo que lhe fosse oferecido; a carta fizera dele um jornalista, mais exatamente um jornalista demitido: e ele teria que partir daí — e imediatamente.

O FIASCO, Imre Kertész

junho 28, 2009

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Sobre essa pasta cinza sobrepunha-se a título de peso de papel (ou ainda arredondava-se) (dependendo de que lado se olhasse) uma pedra também cinza – embora de um cinza mais escuro -, portanto uma pedra de forma irregular, e sobre a qual não podemos dizer nada de tranqüilizador (como, por exemplo, que se tratava de um paralelepípedo de vários ângulos) (portanto, qualquer coisa que – mesmo sem entendê-la de verdade – satisfizesse o espírito humano e o conciliasse harmoniosamente com os objetos, fazendo-os ao menos corresponder a uma figura geométrica e assim considerar o assunto solucionado); acontece que essa pedra, com as arestas desgastadas, os cantos, as pontas, os arredondamentos, as estrias, as rachaduras, as saliências e deformações, era tão irregular quanto só uma pedra pode ser, da qual jamais é possível saber se é o pedacinho desprendido de uma unidade rochosa maior, ou, pelo contrário, se é o remanescente de uma grande rocha, sendo esta no entanto – assim como a rocha em relação à montanha – certamente parte de uma unidade ainda maior (ao final, parece que toda pedra acaba nos arrebatando e levando a ponderações pré-históricas) (o que não é nosso propósito) (embora seja difícil resistir) (principalmente se se tratar de uma pedra que é a derradeira) (ou antes, a inicial) (nossa imaginação frustrada é conduzida rumo aos princípios, fins, densidades e unidades, para que no final retornemos impotentes) – (mas ao menos investidos da pretensa nobreza do saber) – (à nossa ignorância, levados por tantas outras coisas, assim como por essa pedra, de que não se sabe se é um pedaço que se desprendeu de uma pedra maior, ou, pelo contrário, se é a sobra de uma grande pedra).

O FIASCO, Imre Kerstész

junho 28, 2009

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E isso é necessário.

– É assim mesmo – disse o velho.

É necessário – e nosso desenvolvimento se direciona cada vez mais para esse lado – que nada aconteça conosco, nada que é estranho, somente o que já há muito nos pertence. Já que tivemos que reavaliar tantas variedades de força motriz, iremos também reconhecer aos poucos que aquilo que nós chamamos de destino procede de dentro do homem, e não atua sobre ele de fora. Só que os homens, em sua maioria, enquanto seu destino vivia dentro deles, não o assimilaram, não o transformaram, e assim não tiveram como reconhecer aquilo que se originou de dentro deles; era-lhes tão estranho que, em seu medo conturbado, eles acreditaram: certamente tinha sido naquela hora que ele se mudou para dentro deles, porque até ousariam jurar jamais ter encontrado algo antes semelhante dentro de si. Assim como por muito tempo o homem imaginou o movimento do Sol de forma errada, assim ele se frustra hoje ainda com relação ao movimento do porvir. O futuro, caro sr. Kappus, permanece firmemente de pé, enquanto nós nos movimentamos no espaço infinito.

O velho estava parado, imóvel e rijo, com o livro nas mãos.

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