Archive for the 'Italo Calvino' Category

MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE, Italo Calvino

dezembro 24, 2010

Os brinquedos, espalhados em cima de um grande tapete, eram tantos como numa loja de brinquedos, sobretudo complicados engenhos eletrônicos e modelos de astronaves. Sobre o tapete, num canto livre, encontrava-se um menino deitado, de bruços, aparentando nove anos, com uma expressão amuada e entediada. Folheava um livro ilustrado, como se tudo aquilo que havia ao redor não lhe dissesse respeito.
– Gianfranco, vamos, Gianfranco – disse a governanta -, viu que Papai Noel está de volta com outro presente?
– Trezentos e doze – suspirou o menino sem erguer os olhos do livro. – Coloque ali.
– É o tricentésimo décimo segundo presente que chega – disse a governanta – Gianfranco é tão esperto que conta todos, sua grande paixão é contar.
Na ponta dos pés, Marcovaldo e Michelino saíram da casa.
– Papai, aquele é um menino pobre? – perguntou Michelino.
Marcovaldo estava ocupado realocando em ordem os pacotes e não respondeu logo. Mas, depois de um instante, apressou-se em protestar:
– Pobre? Que está dizendo? Sabe quem é o pai dele? É o presidente da União para o Incremento das Vendas Natalinas!

AS CIDADES INVISÍVEIS, Ítalo Calvino

setembro 17, 2010

As cidades e o desejo – 1

Da cidade de Dorotéia, pode-se falar de duas maneiras: dizer que quatro torres de alumínio erguem-se de suas muralhas flanqueando sete portas com pontes levadiças que transpõem o fosso cuja água verde alimenta quatro canais que atravessam a cidade e a dividem em nove bairros, cada qual com trezentas casas e setecentas chaminés; e, levando-se em conta que as moças núbeis de um bairro se casam com jovens dos outros bairros e que as suas famílias trocam as mercadorias exclusivas que possuem: bergamotas, ovas de esturjão, astrolábios, ametistas, fazer cálculos a partir desses dados até obter todas as informações a respeito da cidade no passado no presente no futuro; ou então dizer, como fez o cameleiro que me conduziu até ali: “Cheguei aqui na minha juventude, uma manhã; muita gente caminhava rapidamente pelas ruas em direção ao mercado, as mulheres tinham lindos dentes e olhavam nos olhos, três soldados tocavam clarim num palco, em todos os lugares ali em torno rodas giravam e desfraldavam-se escritas coloridas. Antes disso, não conhecia nada além do deserto e das trilhas das caravanas. Aquela manhã em Dorotéia senti que não havia bem que não pudesse esperar da vida. Nos anos seguintes meus olhos voltaram a contemplar as extensões do deserto e as trilhas das caravanas; mas agora sei que esta é apenas uma das muitas estradas que naquela manhã se abriam para mim em Dorotéia”.

O CAVALEIRO INEXISTENTE, Italo Calvino

abril 21, 2010

Um tanto galopo pelos campos de guerra entre duelos e amores, outro tanto me encerro nos conventos, meditando e escrevendo as histórias que me ocorrem, para tentar entendê-las. Quando vim me trancar aqui estava desesperada de amor por Agilulfo, agora queimo pelo jovem e apaixonado Rambaldo.

Por isso, a certa altura, minha pena se pôs a correr. Corria ao encontro dele; sabia que não tardaria a chegar. A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas estradas. O capítulo que começamos e ainda não sabemos que história vamos contar é como a encruzilhada que superamos ao sair do convento e não sabemos se nos vai colocar diante de um dragão, um exército bárbaro, uma ilha encantada, um novo amor.

Corro, Rambaldo. Não me despeço nem da abadessa. Já me conhecem e sabem que depois das batalhas, abraços e enganos retorno sempre a este claustro. Mas desta vez será diferente… Será…

De narradora no passado, e do presente que me tomava a mão nos trechos conturbados, aqui está, ó futuro, saltei na sela de seu cavalo. Quais estandartes novos você me traz dos mastros das torres de cidades ainda não fundadas? Quais fumaças de devastações dos castelos e dos jardins que amava? Quais imprevistas idades de ouro prepara, você, malgovernado, você, precursor de tesouros que custam muito caro, você, meu reino a ser conquistado, futuro…

O CAVALEIRO INEXISTENTE, Ítalo Calvino

abril 15, 2010

Na hora do alvorecer, Agilulfo precisava sempre dedicar-se a um exercício de precisão: contar objetos, ordená-los em figuras geométricas, resolver problemas de aritmética. É a hora em que as coisas perdem a consistência de sombra que as acompanhou durante a noite e readquirem pouco a pouco as cores, mas nesse meio tempo atravessam uma espécie de limbo incerto, somente tocado e quase envolto em halo pela luz: a hora em que se tem menos certeza da existência do mundo. Ele, Agilulfo, sempre necessitara sentir-se perante as coisas como uma parede maciça à qual contrapor a tensão de sua vontade, e só assim conseguia manter uma consciência segura de si. Porém, se o mundo ao redor se desfazia na incerteza, na ambiguidade, até ele sentia que se afogava naquela penumbra macia, não conseguia mais fazer florescer do vazio um pensamento distinto, um assomo de decisão, uma obstinação. Ficava mal: eram aqueles os momentos em que se sentia pior; por vezes, só às custas de um esforço extremo conseguia não dissolver-se. Aí, punha-se a contar: folhas, pedras, lanças, pinhas, o que lhe surgisse pela frente. Ou então colocava tudo em fila, arrumado em quadrados ou pirâmides. Dedicar-se a estas ocupações exatas permitia-lhe vencer o mal-estar, absorver o desprazer, a inquietude e o marasmo, e retomar a lucidez e a compostura habituais.

AS CIDADES INVISÍVEIS, Italo Calvino

agosto 11, 2009

as-cidades-invisiveis

AS CIDADES E O DESEJO

Anastácia, cidade enganosa, tem um poder, que às vezes se diz maligno e outras vezes benigno: se você trabalha oito horas por dia como minerador de ágatas ônix crisóprasos, a fadiga que dá forma aos seus desejos toma dos desejos a sua forma, e você acha que está se divertindo em Anastácia quando não passa de seu escravo.

MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE, Italo Calvino

julho 20, 2009

marcovaldo

“Inclinou-se para amarrar o sapato e observou melhor: eram cogumelos, cogumelos de verdade, que estavam rompendo a terra bem no coração da cidade! Marcovaldo teve a impressão de que o mundo cinzento e miserável que o circundava se tornava de repente generoso em riquezas escondidas e que ainda se podia esperar alguma coisa da vida, além das horas pagas pelo salário contratual, da compensação de perdas, do salário-família e da carestia.”

“- E onde estão esses cogumelos? – perguntaram as crianças. – Diga-nos onde estão crescendo!

Diante de tal pergunta, o entusiasmo de Marcovaldo foi refreado por uma suspeita: “Se lhes disser onde estão, vão procurá-los com um dos costumeiros bandos de moleques, corre a notícia pelo bairro, e os cogumelos terminam na panela dos outros!” Assim, aquela descoberta que de repente lhe enchera o coração de amor universal, agora lhe acendia a obsessão da posse, cercava-o de temor ciumento e desconfiado.”

UM GENERAL NA BIBLIOTECA, Ítalo Calvino

julho 11, 2009

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A OVELHA NEGRA

Havia um país onde todos eram ladrões.

À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia arrombar a casa do vizinho. Voltava de madrugada, carregado, e encontrava a sua casa roubada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo, pois um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por diante, até que se chegava ao último, que roubava o primeiro. O comércio naquele país só era praticado como trapaça, tanto por quem vendia como por quem comprava. O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez só se preocupavam em fraudar o governo. Assim a vida prosseguia sem tropeços e não havia ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que no país aparece um homem honesto. À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, ficava em casa fumando e lendo romances.

MARCOVALDO OU AS ESTAÇÕES NA CIDADE, Italo Calvino

julho 9, 2009

marcovaldo

O que aconteceu foi que os departamentos de relações públicas de muitas empresas tinham tido a mesma idéia; e haviam recrutado uma grande quantidade de pessoas, em geral desempregados, aposentados, vendedores ambulantes, para vesti-los com o casaco vermelho e a barba de algodão. Os meninos, depois de terem se divertido nas primeiras vezes reconhecendo sob aquele disfarce conhecidos e pessoas do bairro, depois de algum tempo tinham se habituado e não ligavam mais para aquilo.

A brincadeira com que se entretinham parecia ser muito apaixonante. Tinham se reunido num patamar, sentados em círculo.

– Pode-se saber o que andam tramando? – perguntou Marcovaldo.

– Deixe-nos em paz, papai, temos de preparar os presentes.

– Presentes para quem?

– Para um menino pobre. Temos de procurar um menino pobre e lhe dar presentes.

– Mas quem lhes disse isso?

– Está no livro de leitura.

Marcovaldo estava para dizer: “Vocês é que são os meninos pobres!”, mas durante aquela semana havia se persuadido de tal modo a se considerar um habitante do País das Maravilhas, onde todos compravam, desfrutavam e trocavam presentes, que não lhe parecia de bom-tom falar de pobreza, e preferiu declarar:

– Meninos pobres não existem mais!

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