Archive for the 'Jerzy Kosinski' Category

O PÁSSARO PINTADO, Jerzy Kosinski

maio 23, 2013

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Encostado na parede do moinho, perto do estábulo, jazia o ajudante. A princípio pensei em passar por ele rapidamente, mas logo lembrei-me de que ele não enxergava. Estava ainda sob o efeito do choque; o rosto coberto com as mãos, chorava e gemia, todo ensanguentado. Tive vontade de dizer alguma coisa, mas refreei-me, com medo de que me perguntasse o que havia sido feito de seus olhos, obrigando-me a a contar que o moleiro os tinha esmagado. Sentia muita pena dele.

Perguntava a mim mesmo se a perda da visão implicaria também o esquecimento de tudo o que havia sido visto antes. Se assim fosse, o homem não enxergaria realmente mais, nem em sonho. Caso contrário, porém, mantida a visão da memória, a cegueira não seria assim tão ruim. O mundo parecia-me quase igual em toda a parte, e apesar de as pessoas serem diferentes umas das outras, como os animais e as árvores, não deveria ser difícil saber-lhes as feições depois de tê-las visto durante tantos anos. Eu tinha vivido apenas sete anos, mas já lembrava muitas coisas, e quando fechava os olhos reencontrava, ainda mais vívidos, inúmeros detalhes. Quem sabe sem os olhos o ajudante talvez descobrisse um mundo novo e fascinante.

O PÁSSARO PINTADO, Jerzy Kosinski

maio 20, 2013

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Como invejava Mitka! Subitamente compreendi uma boa parte do que um dos soldados dissera numa discussão com ele. “Ser Humano – este é um título glorioso. O homem carrega em si mesmo sua própria guerra particular, a qual lhe compete desencadear, ganhe ou perca – e sua própria justiça, a qual só a ele compete ministrar.” Agora, Mitka, o Cuco, havia imposto a vingança pela morte de seus amigos, a despeito das opiniões dos outros, do risco de sua posição no regimento e de seu título de Herói da União Soviética. Se não pudesse vingar seus amigos, de que teriam valido todos aqueles dias de treino na arte de franco-atirador, o controle da visão, da mão e da respiração? Que valor teria o título de Herói, respeitado e adorado por dezenas de milhares de cidadãos, se ele não mais o merecia a seus próprios olhos?

Havia outro elemento na vingança de Mitka. Um homem, não importa quão popular ou admirado, vive principalmnete consigo mesmo. Se ele não estiver em paz consigo mesmo, se estiver contrariado acerca de algo que não fez mas que deveria ter feito a fim de preservar a imagem que guarda de si mesmo, ele é como o “infeliz Demônio, espírito desterrado, pairando muito acima do mundo pecador”.

Compreendi algo mais. Havia muitos atalhos e muitas elevações guiando-nos à culminância da moral. Mas podia-se também atingir o topo sozinho, com a ajuda, na maioria das vezes, de um único amigo do modo como Mitka e eu havíamos subido na árvore. Este era um topo diferente, separado da marcha das massas trabalhadoras.

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