Archive for the 'João Gilberto Noll' Category

O CEGO E A DANÇARINA, João Gilberto Noll

julho 5, 2010

Não chove há um ano e meio. A terra em volta se cresta. Há um sensacionalismo nordestino nessa terra assim ferida, mas a mulher e o adolescente ignoram qualquer Nordeste. E no entanto são atingidos. Tão atingidos que a mulher pensa que dança mas está apenas aturdida por vermes e o adolescente pensa que olha uma mulher que deseja mas de fato olha a mancha suada que dança na sua quase cegueira.

A MÁQUINA DE SER, João Gilberto Noll

janeiro 26, 2010

EM NOME DO FILHO

O médico saiu da sala de cirurgia e me olhou como se adivinhando nos meus olhos o endereço da notícia que deveria dar: “O seu filho entrou em óbito”, ele contou. Claro, ao dizer “entrou em óbito”, ele pretendia suavizar o fato de que meu filho tinha morrido de uma vez por todas –, para que eu mesmo, como de fato acabou ocorrendo, não me desse conta assim de chofre de que o meu filho tinha chegado a um estado que o apartava de mim para nunca mais. Por enquanto eu não poderia sequer imaginar que a partir dali eu iria me referir a ele definitivamente no passado. Que eu continuasse nem que por alguns segundos o infatigável presente do meu filho em sua ação no mundo a meu redor. Ou nem tão ao redor assim, já que meu filho sofria de ausências. Mas enfim, até ali, mesmo que ele tivesse ingressado em algum estado limite, esse estado, como quase tudo na vida, poderia acabar desaguando em outra situação, talvez melhor.

Pois então o médico saiu da sala de cirurgia e disse: “O seu filho entrou em óbito”, e não que tinha morrido –, para que eu começasse, paulatinamente, a digerir o verdadeiro abismo da hora.

Ele tocou no meu ombro, levando-me até uma cadeira ao lado de um pedestal com um vaso sustentando uma planta a se debulhar até roçar o chão. Sei que fixei a atenção naquela planta de adorno no corredor do hospital, retardando um pouco o que eu já iniciava a absorver antes mesmo de me abandonar a todas as letras do fato.

%d blogueiros gostam disto: