Archive for the 'Jorge Luis Borges' Category

O FAZEDOR, Jorge Luis Borges

julho 2, 2010

Borges e eu

Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.

OUTRAS INQUISIÇÕES, Jorge Luis Borges

fevereiro 9, 2010

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram as que o dr. Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animas se dividem em:

a) pertencentes ao Imperador,

b) embalsamados,

c) domesticados,

d) leitões,

e) sereias,

f) fabulosos,

g) cães em liberdade,

h) incluídos na presente classificação,

i) que se agitam como loucos,

j) inumeráveis,

k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo,

l) et cetera,

m) que acabam de quebrar a bilha,

n) que de longe parecem moscas.

EL LIBRO DE ARENA, Jorge Luis Borges

janeiro 1, 2010

– ¿Y la grande aventura de mi tiempo, los viajes espaciales? – le dije.
– Hace ya siglos que hemos renunciado a esas translaciones, que fueron ciertamente admirables. Nunca pudimos evadirnos de un aquí y de un ahora.

EL LIBRO DE ARENA, Jorge Luis Borges

dezembro 29, 2009

Nos presentaron. Le dije que era profesor en la Universidad de los Andes en Bogotá. Aclaré que era colombiano.
Me preguntó de un modo pensativo:
– ¿Qué es ser colombiano?
– No sé – le respondí -. Es un acto de fé.
– Como ser noruega – asintió.

O LIVRO DOS SERES IMAGINÁRIOS, Jorge Luis Borges

novembro 27, 2009

 

HANIEL, KAFZIEL, AZRIEL E ANIEL

 

Na Babilônia, Ezequiel teve uma visão com quatro animais ou anjos, “e cada um deles tinha quatro rostos e quatro asas” e “a figura de seus rostos era rosto de homem, e rosto de leão do lado direito, e rosto de boi do lado esquerdo, e ao mesmo tempo os quatro tinham rosto de águia”. Avançavam para onde os levasse o espírito, “cada um na direção para a qual estava voltado seu rosto”,

ESSE OFÍCIO DO VERSO, Jorge Luis Borges

novembro 17, 2009

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Lembrem que Alfred North Whitehead escreveu que, entre as muitas falácias, há a falácia do dicionário perfeito – a falácia de pensar que, para cada percepção dos sentidos, para cada asserção, para cada ideia abstrata, pode-se encontrar um equivalente, um símbolo exato, no dicionário. E o próprio fato de as línguas serem diferentes nos faz suspeitar que isso não exista.

SEIS PROBLEMAS PARA DOM ISIDRO PARODI, H. Bustos Domecq

novembro 9, 2009

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“Não há mistério. Minha correspondente e admiradora é Mariana Ruiz Villalba de Muñagorri, “Moncha” para seus íntimos. Ponho as cartas na mesa. Apesar das imposturas da calúnia, não houve comércio carnal. Planamos num plano mais alto – emocional, mental. Enfim, um argentino nunca compreenderá essas afinidades.”

O LIVRO DE AREIA, Jorge Luis Borges

agosto 11, 2009

Livro de areia

UNDR

Assim teve início a aventura que duraria tantos invernos. Não referirei seus azares nem tratarei de recordar a ordem cabal de suas circunstâncias. Fui remador, mercador de escravos, lenhador, salteador de caravanas, cantor, catador de águas fundas e de metais. Padeci cativeiro durante um ano nas minas de mercúrio, que afrouxam os dentes. Militei com homens da Suécia na guarda de Mekligarthr (Constantinopla). Às margens do Azov, uma mulher que não esquecerei me quis; deixei-a ou ela me deixou, o que dá no mesmo. Fui atraiçoado e atraiçoei. Mais de uma vez o destino me fez matar. Um soldado grego me desafiou e me deu a escolha de duas espadas. Uma era maior um palmo que a outra. Compreendi que tentava me intimidar e escolhi a mais curta. Perguntou-me por quê. Respondi-lhe que de meu punho a seu coração a distância era igual. Em uma margem do Mar Negro está o epitáfio rúnico que gravei para meu companheiro Lelf Arnarson. Combati os sarracenos com os Homens Azuis de Serkland. No curso do tempo fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho. O essencial era a Palavra. Uma ou outra vez desacreditei dela. Repeti para mim que renunciar ao belo jogo de combinar palavras belas era insensato e que não há por que indagar sobre uma só, talvez ilusória. Esse raciocínio foi vão. Um missionário me propôs a palavra Deus que rechacei. Em certa aurora, à beira de um rio que se ampliava em um mar, acreditei haver dado com a revelação.

O LIVRO DE AREIA, Jorge Luis Borges

junho 18, 2009

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A objeção era justa. Respondi:

– Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos.

CUENTOS DE FÚTBOL ARGENTINO, Roberto Fontanarrosa

maio 15, 2009

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Esse est percipi, de Bustos Domecq

“Poco antes de adormecerse del todo, me remitió a un amigo común, Tulio Savastano, presidente del club Abasto Juniors, de cuya sede, sita en el Edificio Amianto, de avenida Corrientes y Pasteur, me di traslado. Este directivo, pese al régimen doble dieta a que lo tiene sometido su médico y vecino doctor Narbondo, mostrábase aún movedizo y ágil. Un tanto enfarolado por el último triunfo de su equipo sobre el combinado canario, se despachó a sus anchas y me confió, mate va, mate viene, pormenores de bulto que aludían a la cuestión sobre el tapete. Aunque yo me repitiese que Savastano había sido otrora el compinche de mis mocedades de Agüero esquina Humahuaca, la majestad del cargo me imponía y, cosa de romper la tirantez, congratulélo sobre la tramitación del último goal que, a despecho de la intervención de Zarlenga y Parodi, conviertiera el centro-half Renovales, tras aquel pase histórico de Musante. Sensible a mi adhesión al once de Abasto, el prohombre dio una chupada postrimera a la bombilla exhausta, diciendo filosóficamente, como aquel que sueña en voz alta:

-Y pensar que fui yo el que les inventé esos nombres.

-¿Alias? -pregunté, gemebundo-. ¿Musante no se llama Musante? ¿Renovales no es Renovales? ¿Limardo no es el genuino patronímico del ídolo que aclama la afición?

La respuesta me aflojó todos los miembros.

-¿Cómo? ¿Usted cree todavía en la afición y en los ídolos? ¿Dónde ha vivido, don Domecq?

(…)

Junté fuerzas para aventurar la pregunta:

-¿Debo deducir que el score se digita?

Savastano, literalmente, me revolcó en el polvo.

-No hay score ni cuadros ni partidos. Los estadios ya son demoliciones que se caen a pedazos. Hoy todo pasa en la televisión y en la radio. La falsa excitación de los locutores, ¿nunca lo llevó a maliciar que todo es patraña? El último partido de fútbol se jugó en esta capital el día 24 de junio del 37. Desde aquel preciso momento, el fútbol, al igual que la vasta gama de los deportes, es un género dramático, a cargo de un solo hombre en una cabina o de actores con camiseta ante el cameraman.

(…)

-¿Y la conquista del espacio? -gemí.

-Es un programa foráneo, una coproducción yanqui-soviética. Un laudable adelanto, no lo neguemos, del espectáculo cientifista.

-Presidente, usted me mete miedo -mascullé, sin respetar la vía jerárquica-. ¿Entonces en el mundo no pasa nada?

-Muy poco -contestó con su flema inglesa.”

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