Archive for the 'Juan Ramón Ribeyro' Category

SÓ PARA FUMANTES, Juan Ramón Ribeyro

julho 30, 2009

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SILVIO NO ROSEIRAL.

Sem que ninguém compreendesse por quê, abandonou subitamente a reunião e pegou a última caminhonete que partia para a montanha e que poderia deixá-lo na porta da fazenda. Assim que chegou, acomodou-se na mesa e escreveu uma vez mais a palavra RES. Como nada lhe ocorria, inverteu-a e escreveu SER. Logo apareceu a frase Sou Excessivamente Rico. Mas tratava-se evidentemente de uma falsa formulação. Não era um homem rico, muito menos excessivamente. A fazenda permitia-lhe viver sozinho e frugal. Voltou a examinar as letras e compôs Serás Enterrado Rápido, o que não deixou de estremecê-lo, apesar de lhe parecer uma profecia infundada. Mas outras frases foram substituindo a anterior: Sábado Entrante Reparar, reparar o quê? Só Ensaiando Regressarás, aonde? Sócrates Envelhecendo Rejuvenesceu, que era uma fórmula estúpida e contraditória. Sírio Engendrou Rocio, frase duvidosamente poética e além do mais equívoca, pois não sabia se aludia à estrela ou a um habitante da Síria. As frases que podia compor a partir dessas letras eram infinitas. Silvio encheu páginas de seu caderno, chegando a fórmulas tão enigmáticas e disparatadas como Salve-se Enfrentando Rio, Sucedeu-lhe Encontrar Rúpia ou Sova Encarniçadamente Rodilho, o que, em última instância, significava substituir uma chave por outra.

Sem dúvida, tinha embarcado numa viagem sem destino. Por tenacidade ainda ensaiou outras frases. Todas o remetiam à incongruência.

SÓ PARA FUMANTES, Julio Ramón Ribeyro

julho 28, 2009

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SÓ PARA FUMANTES.

Naquela época fumar já se infiltrara em todos os atos de minha vida, a ponto de nenhum deles – a não ser dormir – poder se cumprir sem a intervenção do cigarro. Nesse aspecto cheguei a extremos maníacos ou demoníacos, como o de não conseguir abrir uma carta sem acender um cigarro. Muitas vezes me aconteceu de receber uma carta importantíssima e deixá-la horas e horas sobre a mesa, até obter os cigarros que me permitissem rasgar o envelope e lê-la. Essa carta poderia inclusive conter o cheque de que precisava para resolver o problema da minha falta de tabaco. Mas a ordem não podia ser invertida: primeiro, o cigarro, e depois a abertura do envelope e a leitura da carta. Estava, pois, instalado em plena insânia, e já maduro para as piores concessões e baixezas.

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