Archive for the 'Juan Rulfo' Category

PEDRO PÁRAMO, Juan Rulfo

julho 16, 2010

– Faz calor aqui – eu disse.

– Pois é, mas isso não é nada – respondeu o outro. – Fique tranqüilo. Quando chegarmos a Comala, o senhor vai ver o que é calor forte. Aquilo fica em cima das brasas da terra, bem na boca do inferno. Digo eu que muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor.

PEDRO PÁRAMO, Juan Rulfo

março 23, 2010

– Por que você chora, mamãe? – perguntou, pois assim que pôs os pés no chão reconheceu o rosto de sua mãe.

– Seu pai morreu – disse ela.

E depois, como se tivessem disparado os gatilhos de sua pena, deu volta sobre si mesma uma e outra vez, uma e outra vez, até que algumas mãos chegaram aos seus ombros e conseguiram deter o remexer de seu corpo.

Pela porta via-se o amanhecer no céu. Não havia estrelas. Só um céu de chumbo, cinzento, ainda não clareado pela luminosidade do sol. Uma luz parda, como se o dia não fosse começar, mas como se apenas estivesse chegando o princípio da noite.

Lá fora, no pátio, os passos, como de gente que ronda. Ruídos calados. E aqui, aquela mulher, de pé no umbral; seu corpo impedindo a chegada do dia; deixando aparecer, através dos seus braços, fiapos de céu, e debaixo de seus pés réstias de luz; uma luz borrifada como se o chão debaixo dela estivesse inundado de lágrimas. E depois o soluço. E outra vez o pranto suave mas agudo, e a dor fazendo seu corpo se contorcer.

– Mataram seu pai.

– E quem matou você, minha mãe?

PEDRO PÁRAMO, Juan Rulfo

março 11, 2010

– Não. E aliás, o que foi feito da sua mãe?

– Morreu – disse.

– Já morreu? E de quê?

– Eu não soube de quê. Talvez de tristeza. Suspirava muito.

– Isso é ruim. Em cada suspiro é como se a gente se desfizesse de um sorvo de vida.

O GALO DE OURO, Juan Rulfo

agosto 6, 2009

galo

– Não quis ofender, Bernarda.
– Você acha que estou ofendida? Estou triste, é outra coisa – disse, limpando com as costas da mão aquela lágrima e outra que começava a brotar.
– Você gostava dele?
– Ele é que gostava de mim. Mas tentava me amarrar. Queria me trancar em casa. E ninguém faz isso comigo… Eu simplesmente não aguento, só isso. Para quê? Para apodrecer em vida?
– Talvez fosse conveniente. A casa dele é enorme.
– É, mas tem paredes.

CHÃO EM CHAMAS, Juan Rulfo

maio 21, 2009

JuanRulfo

Macario

“Agora já faz muito tempo que não me dá para chupar aqueles montes que ela tem onde a gente só tem costelas, e de onde sai, sabendo tirar, um leite melhor do que o que a minha madrinha dá para a gente no almoço de domingo… Antes Felipa ia todas as noites até o quarto onde eu durmo, e se aninhava comigo, deitando em cima de mim ou se estendendo de ladinho. Depois se ajeitava para que eu pudesse chupar daquele leite doce e quente que se deixava escorrer aos jorros pela minha língua… Muitas vezes comi flores de jasmim do cabo para distrair a fome. E o leite de Felipa era desse sabor, só que eu gostava mais porque ao mesmo tempo em que me dava os goles, Felipa me fazia cosquinhas por todos os lugares. Depois acontecia quase sempre dela ficar comigo ao meu lado, até a madrugada. E isso me ajudava muito; porque eu não me apurava de frio nem de nenhum medo de me condenar no inferno se eu morresse sozinho ali, numa daquelas noites… Às vezes não tenho tanto medo do inferno. Mas às vezes sim. Além do mais gosto de me dar meus bons sustos com essa história de que vou para o inferno qualquer dia desses, por ter a cabeça tão dura e por gostar de dar cabeçadas em tudo que encontro. Mas aí Felipa vem e espanta meus medos. Faz cócegas com suas mãos como só ela sabe fazer e acaba com esse meu medo de morrer. E por um instantinho até me esqueço desse medo… Felipa diz, quando tem vontade de ficar comigo, que vai contar ao Senhor todos os meus pecados. Que irá logo para o céu e vai conversar com Ele pedindo que me perdoe essa muita maldade que me enche o corpo de cima a baixo. Ela dirá que me perdoe, para que eu não me preocupe mais. Por isso se confessa todos os dias. Não porque ela seja má, e sim porque eu estou repleto de demônios por dentro, e ela tem de tirar esses capetas do meu corpo confessando-se por mim. Todos os dias. Todas as tardes de todos os dias. Por toda a vida ela me fará esse favor. Isso diz Felipa. Por isso eu gosto tanto dela… E ainda sim, isso de ter a cabeça dura desse jeito é que são elas. Dou cabeçadas nos pilares do corredor durante horas inteiras e não acontece nada com a minha cabeça, que agüenta sem quebrar. E depois dou cabeçadas no chão; primeiro devagarzinho, depois mais depressa e mais forte e aquilo soa feito um tambor. Igual ao tambor que anda com o pífano, quando o pífano vem para a quermesse do divino. E então eu estou lá na igreja, amarrado na madrinha, ouvindo lá fora o tuntum do tambor… E minha madrinha diz que se no meu quarto tem percevejos e baratas e escorpiões é porque vou arder no inferno se continuar com essa mania de bater no chão com a minha cabeça. Mas o que eu quero é ouvir o tambor. Isso é o que ela deveria saber. Ouvir o tambor, como quando estou na igreja, esperando sair depressa na rua para ver como é aquele tambor que se ouve de tão longe, até o fundo da igreja e por cima das condenações do senhor padre…: “O caminho das coisas boas está cheio de luz. O caminho das coisas ruins é escuro.” Isso é o que diz o senhor padre. Eu me lavanto e saio do meu quarto quando ainda está escuro. Varro a rua e me meto outra vez no meu quarto antes que a luz do dia me pegue. Na rua acontecem coisas. Está cheio de gente para me esfolar vivo a pedradas assim que me vir. Chovem pedras grandes e afiadas de tudo que é lado. E depois é preciso remendar a camisa e esperar muitos dias até que também se remendem as rachaduras na cara ou nos joelhos. E agüentar outra vez que me amarrem as mãos, porque senão elas correm para arrancar a crosta da ferida remendada e o jorro de sangue torna a sair. E isso que o sangue também tem sabor bom, embora, isso sim, não parece o sabor do leite de Felipa…”

PEDRO PÁRAMO, Juan Rulfo

maio 11, 2009

pedro2

“Afuera en el patio, los pasos, como de gente que ronda. Ruidos callados. Y aquí, aquella mujer, de pie en el umbral; su cuerpo impidiendo la llegada del día; dejando asomar, a través de sus brazos, retazos de cielo, y debajo de sus pies regueros de luz; una luz asperjada como si el suelo debajo de ella estuviera anegado en lágrimas. Y después el sollozo. Otra vez el llanto suave pero agudo, y la pena haciendo retorcer su cuerpo.
– Han matado a tu padre.
– ¿Y a ti quién te mató, madre?”

“-No. Y a propósito, ¿qué es de tu madre?
– Murió – dije.
– ¿Ya murió? ¿Y de qué?
– No supe de qué. Tal vez de tristeza. Suspiraba mucho.
– Eso es malo. Cada suspiro es como un sorbo de vida del que uno se deshace.”

“- ¿Te acuerdas, Justina? Acomodaste las sillas a lo largo del corredor para que la gente que viniera a verla esperara su turno. Estuvieron vacías. (…) Nadie vino a verla. Así estuvo mejor. La muerte no se reparte como si fuera un bien. Nadie anda en busca de tristezas.”

“En este mundo, que lo aprieta a uno por todos lados, que va vaciando puños de nuestro polvo aquí y allá, deshaciéndose en pedazos como si rociara la tierra con nuestra sangre. ¿Qué hemos hecho? ¿Por qué se nos ha podrido el alma? Tu madre decía que cuando menos nos queda la caridad de Dios. Y tú la niegas, Susana. ¿Por qué me niegas a mí como tu padre? ¿Estás loca?
– ¿No lo sabías?
– ¿Estás loca?
– Claro que sí, Bartolomé. ¿No lo sabías?”

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