Archive for the 'Julio Cortázar' Category

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

outubro 27, 2012

O PERSEGUIDOR

(…) o que queria explicar a mim mesmo é que a distância que vai de Johnny até nós não tem explicação, não se fundamenta em diferenças explicáveis. E acho que ele é o primeiro a pagar as consequências disso, que o afeta tanto quanto a nós. Dá vontade de dizer na mesma hora que Johnny é como um anjo entre os homens, até que uma elementar honradez obriga a engolir a frase, a dar-lhe a volta com formosura e a reconhecer que talvez o que aconteça é Johnny ser um homem entre os anjos, uma realidade entre as irrealidades que somos todos nós. E vai ver, é por isso que Johnny toca meu rosto com os dedos e me faz sentir tão infeliz, tão transparente, tão pouca coisa com minha boa saúde, minha casa, minha mulher, meu prestígio. Meu prestígio, principalmente. Principalmente meu prestígio.

Mas é a mesma coisa de sempre, saí do hospital e assim que pisei na rua, nas horas, em tudo que tenho de fazer, a omelete girou molemente pelo ar e deu a volta. Pobre Johnny, tão fora da realidade. (É assim, é assim. Para mim é mais fácil acreditar que é assim, agora que estou num café e a duas horas depois da minha visita ao hospital, do que tudo que escrevi aí em cima forçando-me feito um condenado a ser pelo menos um pouco decente comigo mesmo.)

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

outubro 1, 2012

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AS BABAS DO DIABO

Na marca dos quatorze, talvez dos quinze, dava para adivinhá-lo vestido e alimentado por seus pais mas sem um centavo no bolso, tendo que deliberar com os colegas antes de decidir entre um café, um conhaque, um maço de cigarros. Andaria pelas ruas pensando nas companheiras de estudo, no bom que seria ir ao cinema e ver o último filme, ou comprar romances ou gravatas ou garrafas de licor com rótulos verdes e brancos. Em sua casa (sua casa seria respeitável, seria almoço ao meio-dia e paisagens românticas nas paredes, com um vestíbulo escuro e um porta-guarda-chuvas de carvalho ao lado da porta), choveria devagar o tempo de estudar, de ser a esperança de mamãe, de parecer com papai, de escrever para a tia de Avignon. Por isso tanta rua, o rio todo para ele (mas sem um centavo) e a cidade misteriosa dos quinze anos, com suas marcas nas portas, seus gatos estremecedores, o saco de batata frita de trinta francos, a revista pornográfica dobrada em quatro, a solidão como um vazio no bolso, os encontros felizes, o fervor por tanta coisa incompreendida mas iluminada por um amor total, pela disponibilidade parecida com o vento e com as ruas.

AS ARMAS SECRETAS, Julio Cortázar

dezembro 22, 2010

 

AS BABAS DO DIABO

Nunca se saberá como isto deve ser contado, se na primeira ou na segunda pessoa, usando a terceira do plural ou inventando constantemente formas que não servirão para nada. Se fosse possível dizer: eu viram subir a lua, ou: em mim nos dói o fundo dos olhos, e principalmente assim: tu mulher loura eram as nuvens que continuam correndo diante de meus teus seus nossos vossos seus rostos. Que diabo.

HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS, Julio Cortázar

outubro 5, 2010

INSTRUÇÕES PARA SUBIR UMA ESCADA

As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhesse a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)

HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS, Julio Cortázar

dezembro 3, 2009

INSTRUÇÕES PARA SUBIR UMA ESCADA

(…)

As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incômodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-la no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)

ÚLTIMO ROUND, Julio Cortázar

julho 30, 2009

livro Ultimo Round - 22.01

SOBRE O EXTERMÍNIO DOS CROCODILOS EM AUVERGNE

Não cabe a menor dúvida de quase todos os camponeses viram os crocodilos, mas, como desconfiam que o primeiro a denunciá-los terá gravemente comprometida sua tranquilidade pessoal e suas tarefas rurais, deixam o tempo passar à espera de que algum outro camponês, exasperado pela devastação que esses nocivos animais fazem em seus campos e estábulos, decida encaminhar uma queixa às autoridades. Segundo os cálculos da OMS, de quatro a cinco séculos já se passaram nessa expectativa, e é evidente que os crocodilos aproveitam tais circunstâncias psicoeconômicas para se multiplicarem e proliferarem sem a menor dificuldade em Auvergne.
Nos últimos tempos procurou-se convencer alguns camponeses mais instruídos ou inteligentes de que não só não perderiam nada se revelassem a existência dos crocodilos, como seu extermínio melhoraria consideravelmente o nível de vida nessa província francesa. Para tal, os assistentes sociais e psicólogos especialmente enviados dos centros urbanos deram todas as garantias de que a denúncia da existência dos crocodilos não acarretaria nenhum transtorno para o camponês que a formulasse; em nenhum caso lhe pediriam que abandonasse suas terras para repetir seu depoimento em Clermond Ferrand ou em outra cidade, não se invadiria sua propriedade com forças policiais e não se envenenariam as águas dos seus mananciais. De fato, bastaria que os crocodilos fossem formalmente denunciados para que as autoridades aplicassem de imediato o plano conjunto e geral de liquidação desses perigosos sáurios, plano preparado há muito tempo em seus menores detalhes e cuja execução redundaria num imenso benefício comum.
De nada valeram as promessas. Até hoje não se sabe de ninguém que tenha visto um crocodilo em Auvergne, e embora os investigadores possuam indícios científicos de que até mesmo as crianças de pouca idade estão perfeitamente informadas da sua existência e a comentam entre si enquanto brincam ou desenham, os crocodilos continuam gozando da maligna impunidade que sua falsa existência lhes dá. Em tais condições, portanto, seu extermínio se torna mais do que problemático, e o perigo ao tomar banho nos rios ou passear pelos campos se intensifica à medida que passam os anos.

HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E FAMAS, Julio Cortázar

maio 1, 2009

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“Entre sim e não, que infinita rosa-dos-ventos.”

OS REIS, Julio Cortázar

abril 24, 2009

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“MINOS
Pareces falar por cima de mim. Estamos sós mas não é comigo que falas.

ARIADNE
Falar é falar-se”.

“ARIADNE
Tens medo do eco?

MINOS
Há alguém por trás. Como em todo espelho, alguém que sabe e espera.”

“ARIADNE
Como poderia viver sem comer? A cólera nasceu do primeiro que sentiu fome.”

“ARIADNE
Vi quando o levaram.

MINOS
Uma mulher não sabe olhar. Só vê seus sonhos.

ARIADNE
Rei, assim olham os deuses e os heróis. Tu mesmo, o que vês do dia senão a noite, o medo, o Minotauro que teceste com as teias da insônia? Quem o tornou feroz? Teus sonhos. Quem lhe trouxe o primeiro grupo de rapazes e donzelas, arrancados de Atenas pelo terror e o prestígio? Ele é tua obra furtiva, como a sombra da árvore é um resto do seu terror noturno.”

“TESEU
Aconselharam-me a caminhar com os olhos fechados para evitar as ilusões; o instinto cresce com a sombra e o desamparo.”

“MINOS
É estranho. Cada um constrói seu próprio percurso, é o seu percurso. Por que, então, os obstáculos? Trazemos o Minotauro no coração, no recinto negro da vontade? Quando ordenei ao arquiteto esta serpente de mármore, era como se previsse a irrupção do cabeça de touro. E também como se tua barca, ó matador de sonhos cruéis!, já estivesse subindo o rio, toda velas negras, para Cnossos. Será que vamos extraindo o acontecer do nosso presente torturado? Edificamos tão horrivelmente a nossa desdita?”

“ARIADNE
Os irmãos parecem menos homens e menos vivos, imagens aderidas à nossa, apenas livres. Dói dizer: irmão.”

“TESEU
Perguntas em vão. Nada sei de ti: isto dá força à minha mão.

MINOTAURO
Como poderias dar o golpe? Sem saber em quem, em quê?

TESEU
Se esperasse para ouvir, talvez não te pudesse matar depois.”

“TESEU
Se és tão forte, prova.

MINOTAURO
Para quem? Sair para o outro cárcere, já definitivo, já horrivelmente povoado com seu rosto e seu peplo. Aqui eu era espécie e indivíduo, cessava minha monstruosa discrepância. Só volto à dupla condição animal quando me olhas. A sós sou um ser de traçado harmonioso; se decidisse recusar-te minha morte, travaríamos uma batalha estranha, tu contra o monstro, eu te olhando combater uma imagem que não reconheço como minha.”

“MINOTAURO
Se te ofereço o pescoço, serei covarde?

TESEU
Não, Minotauro. Algo me diz que poderias combater e não queres. Prometo ferir-te bem, como se fere os amigos.”

“MINOTAURO
O que sabes tu sobre a morte, doador da vida profunda. Olha, só há um meio para matar os monstros: aceitá-los.”

“TESEU
Cala-te! Morre ao menos calado! Estou farto de palavras, cadelas sedentas! Os heróis odeiam as palavras!

MINOTAURO
Exceto as do canto de louvor…”

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