Archive for the 'Liev Tolstói' Category

O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

9788540507258

O DIABO

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Costuma-se pensar que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores. Isso não é de todo verdadeiro. As pessoas mais conservadoras em geral são os jovens, que desejam viver, mas que não pensam nem têm tempo para pensar como se deve viver e por isso tomam como modelo a vida já conhecida.

O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

9788540507258

KHOLSTOMÉR, A HISTÓRIA DE UM CAVALO.

(…)

Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras “meu”, “meu potro”, palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consistia esse vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras “meu cavalo”, referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras “minha terra”, “meu ar”, “minha água”.

No entanto, estas palavras exerciam uma enorme influência sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas palavras. Era o seguinte: os homens não orientam suas vidas por atos, mas por palavras. Eles não gostam tanto da possibilidade de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade de falar de diferentes objetos utilizando-se de palavras que convencionam entre si. Dessas, as que mais consideram são “meu” e “minha”, que se aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa, apenas um deles diria “meu”. E aquele que diz “meu” para o maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para quê isso, não sei, mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.

GUERRA E PAZ, Liev Tolstói

novembro 18, 2012

Voilà une belle mort – disse Napoleão, olhando para Bolkónski.
O príncipe Andrei entendeu que as palavras se referiam a ele e que foram ditas por Napoleão. Observou que quem falava tais palavras foi tratado de sire. Mas ouviu aquelas palavras da mesma forma como ouviria o zumbido de uma mosca. Não só não se interessou como nem se deu conta daquelas palavras e esqueceu-as imediatamente. Sua cabeça queimava; sentia que perdia sangue e via, acima o céu distante, alto e eterno. Sabia que era Napoleão – o seu herói; mas naquele instante Napoleão lhe parecia um homem tão pequeno, insignificante, em comparação com o que se passava, agora, entre a sua alma e aquele céu alto e infinito, com nuvens que fugiam. Quem estava ao seu lado e o que falasse a seu respeito, isso era de todo indiferente para Andrei naquele instante; só estava contente porque pessoas haviam parado perto dele e só desejava que tais pessoas o ajudassem e o devolvessem à vida, que lhe parecia tão bela, pois agora ele a compreendia de um moedo muito diferente. Reuniu todas as suas forças para mexer-se e emitir algum som. Moveu ligeiramente a perna e soltou um gemido fraco, dolorido, que causou pena nele próprio.

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