Archive for the 'Luis Fernando Verissimo' Category

A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO, Luis Fernando Verissimo

junho 15, 2010

OS DUNGAS

Depois do Júlio todos os governantes de Roma passaram a ser césares, e “césar” – na forma de kaiser, tzar, etc. – ficou nome genérico, como um dia “dunga” também será. Os times terão zagueiros, laterais, médios, “dungas” e atacantes, e jogadores em estados ainda por nascer descreverão sua função ou sua ambição como “de dunga” – dunga pela direita, dunga pela esquerda, dunga avançado, dunga recuado… Havia dungas antes do Dunga, como houve césares antes de César, mas o protótipo dos dungas que virão é esse nosso, que aproveita comemoração de gol para dar bronca.

Todos os melhores times deste mundial têm o seu dunga, de uma forma ou de outra. Ou são jogadores que galvanizam o time com sua própria energia e empenho, e bronca, ou são os destruidores que liberam os companheiros para a criação, garantindo o rebote. Os franceses têm o Deschamps, os italianos têm o Dino Baggio, os alemães tem o Hamann, os argentinos têm o Verón… Marcel Desailly, o zagueiro francês que é possivelmente o melhor jogador da Copa 98 até agora, e Matthaeus, o mítico alemão que tiraram da cadeira de rodas e escalaram para dar vergonha ao time, têm credenciais para o título, mas são menos dunga do que Deschamps e Hamann. Justamente porque são brilhantes e têm certas pretensões estéticas, além do coração e da coragem, o que os desqualifica como dungas autênticos. A dungalogia tem suas sutilezas.

Os dungas são os caroços do time. Já não se concebe um time só polpa, por melhor que seja a polpa. Até no Brasil, que custou a aceitar a sua inevitabilidade, dá-se ao dunga o que é do dunga. O caroço dá forma ao time, garante a continuidade da sua alma e quebra os dentes de quem o ataca. Nenhuma seleção sem um dunga passou das oitavas.

PEÇAS ÍNTIMAS, Luis Fernando Verissimo

maio 11, 2010

Manuel, o Incréu, foi pro Céu, e Deus o chamou a Sua Presença para que, vendo o Seu rosto e as Suas grandes barbas brancas, se convencesse da Sua existência. E, diante de Deus, o rosto de Manuel se iluminou, ele abriu os braços e exclamou: “Karl Marx!”.

OS ESPIÕES, Luis Fernando Verissimo

fevereiro 19, 2010

– Estou no céu! Estou no céu!
– O que aconteceu com você?
– Estou apaixonado!
– Você não vai mais voltar?
– Depende.
E Dubin contou que na manhã de sábado Paula o levara para passear pela cidade e arredores no seu carro. Na chácara perto da cidade onde seu pai plantava rosas ela o conduzira até um córrego borbulhante, na beira do qual tinham se amado entre insetos e carrapatos, à sombra de uma figueira. Sim, disse Dubin, os córregos borbulham mesmo, como nos livros. Eu ouvi. E amar ao ar livre, sobre a grama, no meio da manhã, era diferente de tudo que ele já experimentara na vida.
– O cheiro de terra, cara! Cheiro de bosta! Tesão telúrico! Tesão telúrico!

O CLUBE DOS ANJOS, Luis Fernando Verissimo

dezembro 22, 2009

Certa vez, dez anos antes, o Ramos se erguera e ficara um longo tempo nos olhando, com afeto, antes de falar. Nos olhara um por um, como se nos abençoasse. Depois dissera: “Guardem este momento. Um dia nos lembraremos dele e diremos: foi o nosso melhor momento. Compararemos outros momentos das nossas vidas com ele e diremos que nunca mais fomos assim, exatamente assim. Nos saciaremos de novo, por certo, pois essa é a benção do apetite. Não é todo dia que se quer ver um pastoso Van Gogh ou ouvir uma crocante fuga de Bach, ou amar uma suculenta mulher, mas todos os dias se quer comer, a fome é o desejo reincidente, é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba mas a fome continua, e se um fastio de Ravel é para sempre, um fastio de pastel não dura um dia.” Em vez de “Ravel” e “pastel” ele talvez tenha dito “Pachebel” e “bechamel”, estou citando de memória. Ramos: “Mas mesmo saciados, nunca mais estaremos saciados como agora, cheios das nossas próprias virtudes e do nosso prazer na amizade, na comida e na vida – e no conhaque.” E ele erguera seu copo, fazendo com que todos erguessem o seu. “Senhores, exultai. Estamos no nosso ápice.” Todos beberam. Depois ele dissera: “Senhores, chorai. Começou o nosso declínio.” E todos beberam, mais alegres ainda.

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