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NO VERSO DESSA CANOA, Marcus Vinicius de Freitas

setembro 21, 2009

No verso dessa010

BARCA DA DÚVIDA

Eu nunca vi Deus,
E se Deus é isso, essa desgraça, essa transformação
do vale em precipício,
agora é que não quero mesmo nunca vê-lo.
Eu não passo de um velho carpinteiro
que nunca soube de navios.
Mas sei dos fios da meada
que me levam do nascente ao pôr-do-sol.
Sei fazer e criar filhos.
Sei enterrar mortos, depois de vesti-los de madeira.
Vivo entre os que vivem e comem
e prefiro mil vezes ser homem
do que eterno deus inútil.
Sei do prazer em meu corpo
e da dor que ninguém me tira,
pois se tirarem o corpo
ainda assim o prazer fica
ainda assim fica a dor.
O prazer de comer e amar e beber
que Deus nunca poderá saber.
Sei dos limites do tempo
e do tempo de morrer
que fazem cada momento
a vida inteira de viver.

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