Archive for the 'Marguerite Duras' Category

A DOENÇA DA MORTE, Marguerite Duras

abril 3, 2011

O choro a acorda. Ela te olha. Olha o quarto. E de novo ela te olha. Acaricia a tua mão. Ela pergunta: Você chora por quê? Você diz que cabe a ela dizer por que você chora, que ela é que deveria saber.

Ela responde baixinho, com doçura: Porque você não ama. Você responde que é isso.

Ela pede a você que lhe diga claramente. Você lhe diz: Eu não amo.

Ela diz: Nunca?

Você diz: Nunca.

Ela diz: O desejo de estar prestes a matar um amante, de guardá-lo para si, só para si, de arrebatá-lo, de roubá-lo a contrapelo de todas as leis, de todos os impérios da moral, você não sabe o que é isso, você nunca soube?

Você diz: Nunca.

Ela te olha, ela repete: É curioso um morto.

O AMANTE, Marguerite Duras

julho 19, 2010

O que acontece é justamente o silêncio, esse lento trabalho de toda a minha vida. Ainda estou lá, na frente daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Jamais escrevi, acreditanto escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.

EMILY L., Marguerite Duras

fevereiro 24, 2010

Olhamos para o rio.
A balsa está quase vazia. De repente o calor oprime, pesa. A ausência de vento se torna difícil de suportar. Você diz:
– Você inventou para mim. Não tenho nada a ver com a história que você teve comigo.
– Você disse o contrário, uma vez, no início.
– Digo qualquer coisa e depois esqueço. Você sabe – você sorri -, mas estou sempre perto de você no desespero que lhe causo.

O AMANTE, Marguerite Duras

novembro 16, 2009

o-amante-gde

Jamais bom dia, boa noite, bom ano. Jamais obrigado. Jamais falar. Jamais a necessidade de falar. Tudo continua mudo, distante. É uma família talhada na pedra, petrificada numa solidez sem nenhum acesso. A cada dia tentamos nos matar, matar. Não só não nos falamos como também não olhamos um para o outro. A partir do momento em que nos vemos já não somos capazes de nos olhar. Olhar significa um movimento de curiosidade, favorável ou não, uma fraqueza. A pessoa observada não vale esse olhar. É sempre desonroso. A palavra conversação é banida. Creio que é essa a melhor definição da vergonha e do orgulho.

EMILY L., Marguerite Duras

setembro 2, 2009

emily

“Esqueci as palavras para dizer-lhe. Eu as sabia e as esqueci, e lhe falo no esquecimento dessas palavras. Ao contrário de todas as aparências, não sou uma mulher que se entrega de corpo e alma ao amor de um único ser, fosse este o mais querido do mundo. Sou alguém infiel. Gostaria muito de encontrar as palavras que reservei para lhe dizer isso. E eis que algumas me voltam. Eu queria lhe dizer o que acho, é que devia se guardar sempre na consciência, pronto, encontro a palavra, um lugar, um espécie de lugar pessoal, é isso, para estar só e para amar. Para amar não se sabe o quê, nem quem nem como, nem por quanto tempo. Para amar, eis que de repente todas as palavras me voltam… para guardar em si o lugar de uma espera, nunca se sabe, da espera de um amor, de um amor talvez ainda sem ninguém, mas disto e apenas disto, do amor. Eu queria lhe dizer que você era essa espera. Você e apenas você se tornou a face exterior da minha vida, aquela que nunca vejo, e permanecerá como esse desconhecido de mim em que se tornou, e isso até a minha morte. Nunca me responda. Não guarde nenhuma esperança de me encontrar, por favor. Emily L.”

O AMANTE, Marguerite Duras

junho 17, 2009

O-amante-gde

“A pele é de uma doçura suntuosa. O corpo. O corpo é magro, sem força, sem músculos, podia ser o corpo de um doente, de um convalescente, ele é imberbe, sua única virilidade é a do sexo, é muito fraco, parece estar à mercê de um insulto, parece sofrer. Ela não olha para o rosto. Não olha. Só o toca. Toca a doçura do sexo, da pele, acaricia a cor dourada, a novidade desconhecida. Ele geme, chora. Dominado por um amor abominável. ”

“Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza nas minhas fotografias da infância. Que hoje essa tristeza, sentindo-a como a mesma que sempre senti, quase pode ter o meu nome, tanto ela se parece comigo. Digo que hoje essa tristeza é um bem-estar, o bem-estar de ter afinal caído na infelicidade que minha mãe anuncia há tanto tempo, quando ela uiva no deserto de sua vida.”

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