Archive for the 'Nuno Ramos' Category

O PÃO DO CORVO, Nuno Ramos

março 3, 2010

Há portanto em cada parede uma parede ausente, maligna, pressentida, enterrada talvez ou transparente, duplicada dentro de cada tijolo. É isso que se percebe numa casa vazia e que percebo agora no pilar enorme desse viaduto. Tanto faz seu formato ou espessura, sua temperatura, a cor do seu cimento ou da sujeira depositada há tantos anos. Tanto faz o que guarda dentro – o mesmo cimento ou um jardim maravilhoso. Tanto faz mas sua solidez de pilar parece eterna, egípcia, necessária. É errado que pareça tão constante, que sustente tanto peso, que impeça uma catástrofe. Eu devia poder modelá-lo como barro mole, dar uma dentada feito marzipã, derrubá-lo sem nenhum prejuízo concreto. A falta de finalidade do mundo físico devia ser um convite para a sua destruição minuciosa e sem remorso.

O PÃO DO CORVO, Nuno Ramos

fevereiro 22, 2010

Há uma camada de poeira que recobre as coisas, protegendo-as de nós. Polvilho escuro da fuligem, fragmento de sal e de alga, toneladas de matéria em grãos que vão cruzando o oceano transformam-se em fiapos transparentes depositados pouco a pouco para preservar o que ficou embaixo. Quase nada se tem pensado a respeito deste fenômeno. Trata-se provavelmente de uma enorme operação de camuflagem, de equalização de um sinal remoto que perceberíamos facilmente na ausência desta montanha de pequenos agregados. Algo dentro das coisas está sendo disfarçado, escondido a qualquer preço, e até mesmo o extrato de rocha, terra e lava seca onde pisamos, construímos nossas cabanas e parimos nossos filhos parece estar ali para embrulhar alguma coisa que tende ao centro. A agregação infindável da Gravidade, da massa caindo sobre a massa, matéria abraçando matéria num apetite sempre renovado, constitui a expressão mais evidente deste princípio. É como se um ser primordial, pleno numa gargalhada antiga, percebesse uma fenda em seu corpo ou pus em seus olhos, uma penugem de cor estranha em seu pêlo ou ainda uma má-formação em seus membros. Antes de abismar-se na tristeza, envergonhado com o que percebeu, conseguiu ainda recobrir-se com o que havia à sua volta, apanhando tudo o que deixara escapar de si, pois até há pouco fazia parte de seu corpo perfeito a matéria de que agora se vestiu – a poeira e a terra, a folhagem e a penugem, o fogo explosivo das estrelas e a escuridão congelada. A gigantesca espiral em movimento, concêntrica, como um feto encolhendo-se, com que se retraiu esta divindade incapaz de compreender-se, de incluir-se inteira, ensinou ao tempo e ao espaço, que até então estavam nela, eram ela, o seu comportamento básico – tombo, solavanco, suspensão; areia, matéria, enigma. É difícil compreender como terá irradiado pelas coisas esta atitude de reclusão e de vergonha. A matéria, na verdade, talvez não seja mais do que a expressão primeira desta fuga. Ao invés da afirmação explosiva a partir de um nada pleno, toda a Física teria por princípio a negação e o ocultamento de alguma coisa percebida, o disfarce de um defeito, a espiral protetora em torno de uma identidade cheia de desgosto. A expansão do universo, segundo este ponto de vista, deveria prosseguir apenas até que o recobrimento se cumprisse, tornando-se depois desnecessária.

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