Archive for the 'Pedro Juan Gutiérrez' Category

TRILOGIA SUJA DE HAVANA, Pedro Juan Gutiérrez

abril 14, 2010

Na verdade esses entardeceres com rum e luz dourada e poemas duros ou melancólicos e cartas aos amigos distantes me davam autoconfiança. Se você tiver idéias próprias – mesmo que sejam só algumas idéias próprias -, precisa entender que vai encontrar continuamente caras fechadas, gente querendo questionar, diminuir você, “fazer compreender” que você não tem nada a dizer, ou que deve evitar aquele fulano porque é louco, ou veado, ou um verme, um vagabundo, outro, porque é punheteiro e voyeur, outro é ladrão, outro, macumbeiro, espírita, maconheiro, a outra é fofoqueira, indecente, puta, sapatona, mal-educada. Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, tediosas e “perfeitas”. E assim querem transformar você num excluído e num merda. Metem você na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros. E dizem:

“A vida é assim, meu senhor, um processo de seleção e exclusão. Nós temos a verdade. O resto que se dane.” E como passam trinta e cinco anos martelando isto no seu cérebro, quando você fica isolado acha que é o maior e se empobrece porque perde a coisa mais bonita da vida que é desfrutar da diversidade, aceitar que não somos todos iguais e que se fôssemos seria muito chato.

NOSSO GG EM HAVANA, Pedro Juan Gutiérrez

novembro 26, 2009

 

Fazia poucas semanas que tinha acabado de escrever The Quiet American, e ainda se sentia cansado e confuso. Não esquecia seu longo romance de cinco anos em Saigon, com Fuong, e como o marido sabia de tudo e tolerava. Ele mantinha os dois como empregados em sua casa. Ao escrever eliminou esse detalhe e situou Fuong como uma jovem solteira e simples. Substituiu o marido ambicioso — ou cafetão — da realidade pela irmã de Fuong no romance.

Sentia culpa. Seu senso cristão da vida, e ao mesmo tempo sua honestidade inata, continuamente o faziam sentir-se culpado. Elizabeth, sua secretária, perguntara uns dias antes, enquanto terminava de datilografar o romance:

— Como você pode conciliar a sua fé com o inferno?
— Tenho minhas maneiras.

Na verdade, pouco podia fazer para conciliar suas luzes e suas sombras. Agora observava o mar azul, brilhante sob o sol, e lembrava da pequena orgia de três dias que fizera em Roma com sua namorada americana Catherine Waltson. Adorava Cathy porque ela não tinha inibições. Era depravada. Não sabia ser de outro modo. Ele a tinha batizado. A pedido dela, era seu padrinho diante da Igreja católica, mas faziam amor atrás dos altares em pequenas igrejas de povoados. Agora, em Roma, ela inventara de ir de novo a um bordel. Disfarçou-se de homem e foram como dois amigos fazendo farra. Vez por outra repetiam o programa. Era assanhada e fazia anos que os dois desfrutavam dessa relação sadomasoquista e louca. O marido de Catherine, um lorde inglês muito mais velho, era um sujeito maçante e paciente. Ela era jovem, magra, bonita, e não sabia o que fazer com tanto tempo, dinheiro e energia.

GG pensava que acontecia a mesma coisa com todos os escritores um pouco viris: em toda parte apareciam mulheres entediadas, liam seus livros, ficavam fascinadas e iam caçar o escritor para se divertir um pouquinho. Por isso se refugiava em Capri sempre que podia e trocava seu número telefônico de tantos em tantos meses. As pessoas frívolas e superficiais o incomodavam. E, quanto mais velho ficava, mais gente frívola e superficial aparecia ao seu redor. Ou seria ele que ficava mais denso e perdia leveza e senso de humor?

“A questão essencial é a medida. Evitar o excesso. Três dias de orgia em Roma foi perfeito. Uma semana teria sido chato e cansativo. É preciso deixar sempre um pouquinho de desejo na ponta dos dedos”, pensou GG. Foi até o toca-discos e pôs para tocar a Serenata Notturna, de Mozart. Sentou-se na sua poltrona preferida e escutou de olhos fechados. De novo pensou na pergunta que sua secretária lhe fizera, e respondeu para si mesmo: “O equilíbrio, minha querida Elizabeth. Um pouquinho de inferno e um pouquinho de paraíso. A fórmula é simples. E funciona.”

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