Archive for the 'Philip Roth' Category

O COMPLEXO DE PORTNOY, Philip Roth

agosto 5, 2018

“Ao invés de chorar por aquele que se decide aos catorze anos a jamais pôr os pés de novo numa sinagoga, ao invés de lamuriar-se por aquele que deu as costas à saga do seu povo, tratem é de chorar por vocês mesmos, que não param de chupar e chupar a uva azeda dessa religião! Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está espirrando pelos meus ouvidos, esta saga de judeus sofredores! Façam-me um favor, meu povo, enfiem a herança sofredora no seu cu sofredor, pois acontece que também sou um ser humano!

Mas você é um judeu, diz minha irmã. É um garoto judeu, mais do que pensa, e não está fazendo outra coisa senão se tornar infeliz, berrando ao vento…

(…)

Sabe, pergunta-me ela, onde estaria agora se houvesse nascido na Europa, ao invés de na América?

A questão não é essa, Hannah.

Morto, diz ela.

A questão não é essa!

Morto. Na câmara de gás, ou fuzilado, ou incinerado, ou chacinado, ou enterrado vivo. Sabe disso? E podia gritar à vontade que não era judeu e sim um ser humano, que nada tinha a ver com a sua estúpida herança sofredora, ainda assim seria levado para o seu destino. Estaria morto, eu estaria morta e…

Mas não é sobre isso que estou falando!

Sua mãe e seu pai estariam mortos.

Por que há de estar do lado deles!

Não estou do lado de ninguém, diz ela. Estou só lhe dizendo que ele não é uma pessoa tão ignorante quanto você pensa.

Vai me dizer que minha mãe também não é? Vai me dizer que os nazistas fazem com que tudo o que ela diz e faz seja inteligente e brilhante? Vai me dizer que os nazistas sejam uma desculpa para tudo o que acontece nesta casa?

Oh, não sei, diz minha irmã, talvez: talvez sejam. E agora ela começa a chorar também, fazendo-me sentir um monstro, pois deita lágrimas por seis milhões, pelo menos é o que me parece, ao passo que eu verto a minha só por mim mesmo. Ou pelo menos é o que me parece.”

INDIGNAÇÃO, Philip Roth

julho 23, 2009

indignacao

“Minha mãe e eu nos damos perfeitamente bem. Sempre nos demos. Assim como me dei bem com meu pai por quase toda a vida. Desde o último ano do primário até que entrei para a Robert Treat trabalhei em regime de tempo parcial para ele no açougue. Éramos tão próximos quanto podem ser um pai e um filho. Ultimamente houve alguma tensão entre nós, o que deixou os dois entristecidos.”
“Tensão com respeito a quê, se posso saber?”
“Ele ficou desnecessariamente preocupado com minha independência.”

HOMEM COMUM, Philip Roth

junho 24, 2009

Homem Comum

A religião era uma mentira que ele identificara ainda bem jovem, e todas as religiões pareciam-lhe insuportáveis, todas as superstições religiosas eram bobagens sem sentido, uma criancice; não suportava aquela total falta de maturidade – aquele vocabulário infantil, aquela santimônia e aqueles carneiros, os ávidos fiéis. Para ele, nada de conversa fiada a respeito da morte e Deus, nem fantasias obsoletas sobre o céu. A única coisa que havia era o corpo, nascido para viver e morrer conforme o que fora estabelecido pelos corpos que viveram e morreram antes. Se havia encontrado uma filosofia para seu próprio uso, era essa – ele a encontrara bem cedo e de modo intuitivo e, por mais básica que fosse, não havia mais nada além dela. Se algum dia escrevesse sua autobiografia, o título seria Vida e morte de um corpo do sexo masculino.

HOMEM COMUM, Philip Roth

junho 10, 2009

9788535910872

A maioria das pessoas, ele pensava, o consideraria um sujeito quadrado. Quando jovem, ele próprio se considerava quadrado, tão convencional e desprovido de espírito de aventura que, concluído o curso de belas-artes, em vez de tentar estabelecer-se por conta própria como pintor e viver de bicos – o que era sua ambição secreta –, resolveu, para ser um bom filho, atendendo mais à vontade dos pais que a seus próprios desejos, casar-se, teve filhos e começou a trabalhar em publicidade para ter segurança financeira. Nunca se considerou nada mais que um ser humano comum, e teria dado qualquer coisa para que seu casamento durasse a vida inteira. Ao se casar, não era outra a sua expectativa. Porém o casamento se tornou uma prisão para ele, e assim, depois de muitos pensamentos tortuosos que o ocupavam enquanto trabalhava e nas horas em que deveria estar dormindo, começou, aos poucos e com muito sofrimento, a se preparar para pular fora. Não é isso que um ser humano comum faria? Não é isso que fazem seres humanos comuns todos os dias?

%d blogueiros gostam disto: