Archive for the 'Philip Roth' Category

INDIGNAÇÃO, Philip Roth

julho 23, 2009

indignacao

“Minha mãe e eu nos damos perfeitamente bem. Sempre nos demos. Assim como me dei bem com meu pai por quase toda a vida. Desde o último ano do primário até que entrei para a Robert Treat trabalhei em regime de tempo parcial para ele no açougue. Éramos tão próximos quanto podem ser um pai e um filho. Ultimamente houve alguma tensão entre nós, o que deixou os dois entristecidos.”
“Tensão com respeito a quê, se posso saber?”
“Ele ficou desnecessariamente preocupado com minha independência.”

HOMEM COMUM, Philip Roth

junho 24, 2009

Homem Comum

A religião era uma mentira que ele identificara ainda bem jovem, e todas as religiões pareciam-lhe insuportáveis, todas as superstições religiosas eram bobagens sem sentido, uma criancice; não suportava aquela total falta de maturidade – aquele vocabulário infantil, aquela santimônia e aqueles carneiros, os ávidos fiéis. Para ele, nada de conversa fiada a respeito da morte e Deus, nem fantasias obsoletas sobre o céu. A única coisa que havia era o corpo, nascido para viver e morrer conforme o que fora estabelecido pelos corpos que viveram e morreram antes. Se havia encontrado uma filosofia para seu próprio uso, era essa – ele a encontrara bem cedo e de modo intuitivo e, por mais básica que fosse, não havia mais nada além dela. Se algum dia escrevesse sua autobiografia, o título seria Vida e morte de um corpo do sexo masculino.

HOMEM COMUM, Philip Roth

junho 10, 2009

9788535910872

A maioria das pessoas, ele pensava, o consideraria um sujeito quadrado. Quando jovem, ele próprio se considerava quadrado, tão convencional e desprovido de espírito de aventura que, concluído o curso de belas-artes, em vez de tentar estabelecer-se por conta própria como pintor e viver de bicos – o que era sua ambição secreta –, resolveu, para ser um bom filho, atendendo mais à vontade dos pais que a seus próprios desejos, casar-se, teve filhos e começou a trabalhar em publicidade para ter segurança financeira. Nunca se considerou nada mais que um ser humano comum, e teria dado qualquer coisa para que seu casamento durasse a vida inteira. Ao se casar, não era outra a sua expectativa. Porém o casamento se tornou uma prisão para ele, e assim, depois de muitos pensamentos tortuosos que o ocupavam enquanto trabalhava e nas horas em que deveria estar dormindo, começou, aos poucos e com muito sofrimento, a se preparar para pular fora. Não é isso que um ser humano comum faria? Não é isso que fazem seres humanos comuns todos os dias?

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