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O MÉDICO E O MONSTRO, Robert Louis Stevenson

maio 16, 2010

De fato, o pior dos meus defeitos era uma certa inclinação a uma alegria impaciente, tal como a que tem feito a felicidade de muitos, mas que eu achava difícil conciliar com meu imperioso desejo de andar com a cabeça erguida e de ostentar um semblante mais do que usualmente sério perante o público. Daí sucedeu-se que eu ocultava meus prazeres; quando atingi os anos da reflexão, comecei a olhar à minha volta e fazer um balanço do meu progresso e posição no mundo; encontrava-me já comprometido com uma profunda dualidade de vida. Muitos homens teriam até alardeado as irregularidades de que eu era culpado; mas das altas posições que havia colocado diante de mim, eu as olhava e escondia com um sentimento quase mórbido de vergonha. Foi, portanto, mais a rigorosa natureza de minhas aspirações do que qualquer degradação particular em meus defeitos que fez em mim o que eu era e, com um fosso ainda mais profundo do que na maioria dos homens, separou em mim aquelas esferas do bem e do mal que dividem e compõem a natureza dual do ser humano. Neste caso, eu era levado a refletir intensa e inveteradamente sobre aquela dura lei da vida que reside nas raízes da religião, e é uma das mais abundantes fontes de angústia. Embora tão profundamente dividido, eu não era, de modo algum, um hipócrita; ambos os meus lados existiam absolutamente a sério; eu não era mais eu mesmo quando punha de lado as restrições e mergulhava na degradação do que quando trabalhava, à luz do dia, no avanço do conhecimento ou no alívio da dor do sofrimento. Ocorreu que a direção dos meus estudos científicos, que conduzia plenamente rumo ao místico me ao transcendental, reagiu e jogou uma forte luz sobre esta consciência da guerra perene entre minhas partes. A cada dia, e por ambos os lados de minha inteligência, o moral e o intelectual, eu era, assim, atraído firmemente para mais perto daquela verdade cuja descoberta parcialmente condenou a um tão terrível desastre: a de que o ser humano não é realmente um só, e sim, na verdade, dois. Digo dois porque o estágio do meu próprio conhecimento não vai além deste ponto. Outros virão, outros irão me superar no mesmo sentido; eu arrisco a hipótese de que o homem será, em última análise, conhecido como um simples estado formado por múltiplos, incongruentes e independentes habitantes.

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