Archive for the 'Robert Musil' Category

O HOMEM SEM QUALIDADES, Robert Musil

fevereiro 10, 2010

Parece que o bravo homem prático e realista jamais ama a realidade, nem a leva a sério. Em criança, rasteja debaixo da mesa quando os pais não estão, para transformar o quarto deles numa aventura com esse truque tão simples e genial; quando menino, deseja ardentemente um relógio; quando adolescente, com relógio de ouro, deseja uma mulher que combine com ele; quando homem com relógio e mulher, anseia por uma posição elevada; e quando conseguiu, feliz, realizar esse pequeno círculo de desejos, e balança dentro dele calmamente para lá e para cá como um pêndulo, sua provisão de sonhos insatisfeitos não parece ter diminuído. Pois quando deseja elevar-se um pouco, usa de uma metáfora. Obviamente porque às vezes a neve o aborrece, ele a compara com seios reluzentes de mulher, e quando os seios de sua mulher o começam a entediar, compara-os com a neve reluzente; ficaria apavorado se algum dia os bicos desses seios lhe aparecessem como bicos de pomba, ou como corais incrustados, mas isso o excita poeticamente. Ele é capaz de transformar qualquer coisa em outra: neve em pele, pele em pétala de flor, pétala de flor em açúcar, açúcar em pó-de-arroz, pó-de-arroz em flocos de neve… pois aparentemente só lhe interessa transformar coisas no que elas não são, o que prova que tal homem não suporta ficar muito tempo num lugar, não importa onde esteja.

O HOMEM SEM QUALIDADES, Robert Musil

maio 5, 2009

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“Na verdade, não se pode negar que esses sonhos ancestrais, na opinião dos não-matemáticos, se concretizaram de repente de um modo bem diverso do que se imaginara. A corneta do postilhão de Münchhausen era mais bela que a voz em conserva, industrial; a bota de sete léguas, mais bela que um caminhão; o reino de Larino, mais belo que um túnel de ferrovia; a mandrágora, mais bela que um fototelegrama; comer o coração da própria mãe para compreender os pássaros era mais belo que estudar psicologia animal sobre a expressividade dos pios. Ganhou-se em realidade, perdeu-se em sonho. Não nos deitamos mais sob a árvore, espiando o céu entre o dedo grande do pé e o dedo médio, mas trabalhamos; também não devemos passar fome nem sonhar demais, se quisermos ser eficientes, mas comer bifes e fazer exercício. É exatamente como se a velha humanidade ineficiente tivesse adormecido sobre um formigueiro; quando despertou a humanidade nova, as formigas tinham entrado no seu sangue, e desde então ela precisa fazer movimentos incessantes, sem conseguir se livrar desse chatíssimo ímpeto de fanatismo pelo trabalho.”

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