Archive for the 'Samuel Beckett' Category

PRIMEIRO AMOR, Samuel Beckett

junho 28, 2010

Tente agora me pôr para fora, eu disse. Eu só devo ter compreendido o sentido dessas palavras, e mesmo do pequeno ruído que elas produziram, alguns segundos depois de pronunciá-las. Eu estava tão desabituado a falar que me ocorria de vez em quando deixar escapar, pela boca, frases impecáveis do ponto de vista gramatical, mas inteiramente desprovidas, não direi de significado, pois ao examiná-las bem elas tinham um e às vezes vários significados, mas de fundamento.

PRIMEIRO AMOR, Samuel Beckett

junho 21, 2010

Ela começou a se despir. Quando não sabem mais o que fazer, elas se despem, e é decerto o melhor que têm a fazer. Ela tirou tudo com uma lentidão capaz de irritar um elefante, exceto as meias, destinadas sem dúvida a levar minha excitação ao auge. Foi então que vi que ela era vesga. Não era, felizmente, a primeira vez que eu via uma mulher nua, pude então ficar ali, sabia que ela não explodiria. Pedi para ver o outro quarto, pois ainda não o tinha visto. Se já tivesse visto diria que queria vê-lo de novo. Você não vai se despir?, disse ela. Oh, sabe, disse eu, raramente me dispo. Era verdade, eu nunca fui do tipo que se despe a torto e a direito.

(…)

Eu estava só enfim, na escuridão enfim. Não entrarei em detalhes. Acreditava ter partido para uma boa noite, apesar da estranheza do lugar, mas não, minha noite foi extremamente agitada. Acordei no dia seguinte quebrado, minhas roupas em desordem, as cobertas também, e Anne do meu lado, nua naturalmente. O que ela deve ter se desgastado! Eu continuava com o caldeirão na mão. Olhei dentro. Não tinha me servido dele. Olhei para meu sexo. Se ao menos ele soubesse falar. Não entrarei em detalhes. Essa foi a minha noite de amor.

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