Archive for the 'Saramago' Category

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, José Saramago

junho 18, 2010

De deus, que por obrigações de cargo está ao mesmo tempo no universo todo, porque de outro modo não teria qualquer sentido havê-lo criado, seria uma ridícula pretensão esperar que mostrasse um interesse especial pelo que acontece no pequeno planeta terra, o qual, aliás, e isto talvez a ninguém tenha ocorrido, é por ele conhecido sob um nome completamente diferente, mas a morte, esta morte que, como já havíamos dito páginas atrás, está adstrita à espécie humana com carácter de exclusividade, não nos tira os olhos de cima nem por um minuto, a tal ponto que até mesmo aqueles que por enquanto ainda não vão morrer sentem que constantemente o seu olhar os persegue.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, José Saramago

março 2, 2010

“Entendido já foi que a palavra que define exactamente este novelo é remorso, mas a experiência e a prática da comunicação, ao longo das idades, têm vindo a demonstrar que a síntese não passa de uma ilusão, é assim, salvo seja, como uma invalidez da linguagem, não é querer dizer amor e não chegar a língua,  é ter língua e não chegar ao amor.”

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE, José Saramago

dezembro 11, 2009

Aqui, na sala da morte e da gadanha, seria impossível estabelecer um critério parecido com o que foi adoptado por aquele conservador de registro civil que decidiu reunir num só arquivo os nomes e os papéis, todos eles, dos vivos e dos mortos que tinha à sua guarda, alegando que só juntos podiam representar a humanidade como ela deveria ser entendida, um todo absoluto, independentemente do tempo e dos lugares, e que tê-los mantido separados havia sido um atentado contra o espírito.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Saramago

novembro 9, 2009

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Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.

O CONTO DA ILHA DESCONHECIDA, Saramago

julho 13, 2009

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…mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe pra filosofar, dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa.

O CADERNO DE SARAMAGO, José Saramago

abril 13, 2009

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“Leio numa reportagem sobre o terramoto nos Abbruzzos que os sobreviventes, desesperados, impotentes, se perguntam por que foi que o destino os escolheu a eles e à sua terra para campo da tremenda catástrofe. É uma pergunta que nunca terá resposta, mas que invariavelmente fazemos quando a infelicidade nos veio bater à porta, como se em qualquer parte do universo existisse um responsável a quem pedir contas pelos males que nos sucedam. Muitas vezes não há tempo para mais que ver a morte diante, ou nem sequer para isso, quando uma bomba rebenta a dez passos ou o caiuco se desfaz em pedaços com a costa ali mesmo, ao alcance, quando a inundação arrasta casas e pontes como se de obstáculos insignificantes se tratasse, quando o alude ou o deslizamento de terras sepultam povoações inteiras. Perguntamos porquê a nós, porquê a mim, e não há resposta. Jacques Brel também tinha perguntado: “Pourquoi moi? Pourquoi maintenant?” – e morreu. É o destino, dizemos, e nele não está escrita a palavra ressurreição. É bom sabê-lo porque, em verdade, o mundo não está para ressurreições. Já basta o que basta.”

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