Archive for the 'Umberto Eco' Category

BAUDOLINO, Umberto Eco

outubro 26, 2009

livro-baudolino

“Ouve agora. Ouvi dizer há pouco que os ciápodes não são amigos dos blêmios. Não pertencem ao reino ou à província?”

“Oh não, eles como nós é servos do Presbyter, e como eles os pôncios, os pigmeus, os gigantes, os panotos, os sem língua, os núbios, os eunucos e os sátiros-que-não-se-vêem-nunca. Todos bons cristãos e servos fiéis do Diácono e do Presbyter.”

“Não sois amigos porque sois diferentes?”, perguntou o Poeta.

“O que ser diferentes?”

“Bem, no sentido de que és diferente de nós e…”

“Por que eu diferente de vós?”

“Santo Deus”, disse o Poeta, “tanto para começar tens uma perna só! Nós e o blêmio temos duas!”

“Também vós e blêmio se levantar uma perna tem apenas uma!”

“Mas não tens outra para abaixar.”

“Por que devo eu abaixar perna que não tem? Deve tu baixar terceira perna que não tem?”

Boidi intrometeu-se, conciliador:

“Ouve, Gavagai, admitirias que o blêmio não tem cabeça?”

“Como não tem cabeça? Tem olhos, nariz, boca, fala, come. Como faz tudo isso se não tem cabeça?”

“Mas não reparaste que não tem pescoço, e que depois do pescoço, tem uma coisa redonda que tu também tens no pescoço e ele não?”

“O que quer dizer reparaste?”

“Viste, percebeste, que sabes quê!”

“Talvez tu diz que ele não é totalmente igual a mim, que minha mãe não pode confundir eu com ele. Mas tu também não é igual a esse teu amigo, porque ele tem sinal no rosto e tu não tem. E teu amigo é diferente daquele negro como um dos Magos, e ele diferente daquele outro com barba negra de rabino.”

(…)

Boron disse:

“Vamos acabar com isso. Este ciápode não sabe reconhecer uma só diferença entre ele e um blêmio, como não sabemos ver nenhuma entre Porcelli e Baudolino. E o que acontece quando dois estrangeiros se encontram? Entre dois mouros, sabereis ver bem a diferença?”

“Sim”, disse Baudolino, “mas um blêmio e um ciápode não são como nós e os mouros, que os vemos somente quando vamos ter com eles. Vivem todos na mesma província e ele distingue entre blêmio e blêmio, se diz que aquele que acabamos de ver é seu amigo, enquanto os outros não. Ouça-me bem, Gavagai: disseste que na província moram panotos. Sei o que são so panotos, é uma gente muito parecida conosco, só que possuem duas orelhas tão grandes que descem até os joelhos, e quando faz frio costumam envolver o corpo com elas, como um manto. São assim os panotos?”

“Sim, como nós. Eu também tem orelhas.”

“Mas não até os joelhos, por Deus!”

“Tu também tem orelhas muito maiores do que teu amigo próximo.”

“Mas não como os panotos, pelo amor de Deus!”

“Cada um tem orelhas que sua mãe fez para ele.”

“Mas então porque dizes que blêmios e ciápodes jamais se entendem?”

“Eles pensa mal.”

“Como mal?”

“Eles cristãos que erram. Eles phantasiastoi. Eles dizem igual a nós que Filho não é da mesma natureza do Pai, porque Pai existe antes que começa tempo, enquanto Filho é criado pelo Pai, não por necessidade, mas por vontade. Portanto, o Filho é filho adotivo de Deus, não? Blêmios diz sim, Filho não tem mesma natureza do Pai, mas este Verbo, mesmo que apenas filho adotivo não pode se fazer carne. Assim, Jesus nunca se transforma em carne, aquilo que apóstolos viu era apenas… como posso dizer… phantasma…”

(…)

“E os panotos?”, perguntou Baudolino.

“Oh, a eles não importa o que faz o Filho quando desce à terra, eles pensa só no Espírito Santo. Ouve: eles diz que cristãos no Ocidente pensa que Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Eles protesta e diz que este como Filho veio depois e no credo de Constantinopla não diz assim. Espírito Santo para eles procede somente do Pai. Eles pensa contrário dos pigmeus. Pigmeus diz que Espírito Santo procede só do Filho e não do Pai. Panotos odeia principalmente pigmeus.”

(…)

Pediram então a Gavagai que os levasse a Pndapetzim, e ele se apressou, com saltos moderados, para possibilitar aos cavalos que o seguissem. Depois de duas horas, chegaram ao fim do mar de ervas altas, e entraram numa zona cultivada com oliveiras e árvores frutíferas: sentaram-se debaixo das árvores, observando-as com curiosidade, seres de feições quase humanas. que cumprimentavam com as mãos, emitindo apenas uivos. Eram, explicou Gavagai, os seres sem língua, que viviam fora da cidade, porque eram messalianos, acreditavam que se poderia ir para o céu somente graças a uma oração silenciosa e contínua, sem se aproximar dos sacramentos, sem praticar obras de misericórdia e outras formas de mortificação, sem outros atos de culto. Por isso, não freqüentavam as igrejas de Pndapetzim. Eram malvistos por todos, porque consideravam que até mesmo o trabalho era uma obra de bem e, portanto, inútil. Viviam paupérrimos, nutrindo-se das frutas das árvores, que, no entanto, pertenciam a toda a comunidade, e das quais se serviam sem reserva alguma.

“De resto, são como vós, não é verdade?”, provocava-o o Poeta.

“É como nós quando nós está calados.”

BAUDOLINO, Umberto Eco

outubro 26, 2009

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“Quer dizer que em Tzinista existem pequenos ovos que são colocados no colo das mulheres e dos quais, vivificados pelo calor, nascem pequenos bichos. São colocados pouco depois nas folhas da amoreira das quais se nutrem. Quando crescem, fiam a seda com o seu próprio corpo e nela se envolvem como um túmulo. Transformam-se mais tarde em maravilhosas borboletas multicoloridas e furam o casulo. Antes de partir, os machos penetram as fêmeas por trás e ambos vivem sem comida, no calor de seu abraço, até a morte, e a fêmea morre, afinal, chocando seus ovos.”

BAUDOLINO, Umberto Eco

outubro 26, 2009

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“Entre aqueles monges, havia um tal de Zósimo de Calcedônia. Impressionou-me seu vulto magérrimo, dois olhos como carbúnculos que rodavam sem parar, iluminando uma grande barba negra e os longos cabelos.Quando falava, parecia que dialogava com um crucifixo que sangrava a dois palmos do rosto.”

“Conheço o tipo, nossos mosteiros estão cheios dele. Morrem muito jovens, de tuberculose…”

“Não ele. Nunca vi na minha vida um glutão daquela espécie. Certa noite o levei para a casa de duas cortesãs venezianas, que, como deves saber, são famosíssimas entre as cultoras daquela arte tão antiga quanto o mundo. Às três da manhã eu já estava bêbado e fui embora, mas ele ficou e, algum tempo depois, uma das moças me disse que nunca tiveram de trabalhar tanto para conter um satanás daquela espécie.”

“Conheço o tipo, nossos mosteiros estão cheios dele. Morrem muito jovens, de consumpção…”

BAUDOLINO, Umberto Eco

julho 28, 2009

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“et enquanto caminhávamos et já se viam os acampamentos chegou uma companhia de cavayeiros bardados et logo que nos viram puseram-se de geolhos et baixaram os piques et as bandeiras et alevantaram as espadas mas o que será tudo isso et elles gritavam Chaiser Kaisar pera cá e Keiser pera lá et Sanctissimus Rex et beijavam a mão daquelle senhor et quase fiquei de queyxo caído porque mnha boca aberta como hum forno poys entendi que aquelle senhor de barba ruiva era o Emperador Fridericus em carne et osso e eu lhe havia contado disparates a noite toda como se fosse hum Tolo qual quer
agora vai mandar cortar mnha cabeça disse et custei para elle VII moedas mas se quisesse mha cabeça cortava ontem de noite gratis et polo amor de Deus
et elle diz não te adssuste está tudo bem traigo importantes notícias de huma Visão pequeno puer diz a todos a visão que tiveste no bosque et me atiro ao chão como se eu tivesse o mal caduco fico de olhos esbugalhados e deixo cair a baba da boca et grito eu vi eu vi et conto todalla mentira de São Baudolino que me faz a proffeçia et todos louvam dominedeus Domine Deus et dizem Milagre milagre gottstehmirbei
et estavam ali também os mensageiros de Terdona que não haviam deicido ainda se iriam render-se ou não mas quando me ouviram prostraram-se no chão e disseram que se até os samtos estavam contra elles era melhior que se rendessem pois tanto não iria agoentar muito”

A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA, Umberto Eco

abril 8, 2009

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“Imagine que você nasceu corcunda, cego e surdo-mudo ou que as pessoas que amava caíram ao seu redor como moscas, pais, mulher, filho de cinco anos e que o além não fosse mais que a repetição, diferente, mas contínua dos sofrimentos que viveu? O inferno não são les autres mas o rastro de morte que deixamos ao viver?”

“Não posso sofrer sobre mim a dor do mundo inteiro – concedam-me a dádiva de um feroz egoísmo”.

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