Archive for the 'Victor Hugo' Category

OS MISERÁVEIS, Victor Hugo

maio 19, 2010

A probidade, a sinceridade, a candura, a convicção e a ideia do dever são coisas que, mesmo odiosas, continuam sublimes; sua majestade, própria da consciência humana, persiste mesmo no horror; são virtudes que têm um vício comum, o erro. A impiedosa alegria honesta de um fanático em plena atrocidade conserva não sei que brilho lugubremente venerável. Sem que o percebesse, Javert, em sua formidável felicidade, era digno de lástima, como todo ignorante que triunfa. Nada tão pungente e terrível como aquela figura onde se mostrava o que poderíamos chamar de lado mau da bondade.

OS MISERÁVEIS, Victor Hugo

janeiro 21, 2010

Já perscrutamos bastante as profundezas dessa consciência e é chegado o momento de continuarmos a examiná-la. Não o fazemos sem emoção ou estremecimento. Nada existe de mais terrível que esse tipo de contemplação. Os olhos do espírito não podem encontrar em nenhum lugar nada mais ofuscante, nada mais tenebroso que o homem; não poderão fixar-se em nada mais temível, mais complicado, mais misterioso e mais infinito. Existe uma coisa que é maior que o mar: o céu. Existe um espetáculo maior que o céu: é o interior de uma alma.

OS MISERÁVEIS, Victor Hugo

dezembro 2, 2009

É claro que não vou escrever isso no Moniteur, digo-o aqui, entre amigos, Inter Pocula. Sacrificar a terra ao paraíso é deixar a presa por uma sombra. Ser logrado pelo infinito! Nunca eu seria tão burro. Eu sou nada. Meu nome é Sua Alteza, o Conde de Nada, Senador. Por acaso eu já existia antes de nascer? Não. Continuarei a existir depois da morte? Não. Que coisa sou então? Um pouco de pó incorporado num organismo qualquer. Qual a minha missão nesta terra? É minha a escolha: ou sofrer ou gozar. Para onde me conduzirá o sofrimento? Ao nada; e, no entanto, sofri. Aonde me levará o prazer? Ao nada; e, no entanto, gozei. Minha escolha está feita. É preciso ou comer ou ser comido. Prefiro comer. É melhor ser dente que erva. Essa é a minha sabedoria. Depois é como eu digo, lá está o coveiro, o nosso panteão, e tudo some numa cova enorme. Fim. Finis. Liquidação total. Esse caminho leva ao mais completo desaparecimento. Creia-me: a morte morreu. Que haja por lá alguém que tenha algo para me comunicar é coisa que não admito. Isso é coisa inventada pelas amas-de-leite. Bicho-papão para as crianças e Jeová para os adultos. Absolutamente: nosso futuro é a noite. Depois da sepultura só existe a igualdade do nada. Tenha sido em Sardanápalo ou Vicente de Paulo, não importa; tudo se reduz ao mesmo nada. Essa é a verdade. Por isso, viva o superior a tudo. Use o seu ego enquanto o tem.

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