A INVENÇÃO DE MOREL, Adolfo Bioy Casares

fevereiro 5, 2014

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Estar morto! Como me entusiasmou essa ideia (vaidosamente, literariamente)!

Havia um tempo que eu pensava nisso, de modo que já estava um pouco farto, e segui adiante com menos lógica: não estava morto até que apareceram os intrusos; na solidão, é impossível estar morto. Para ressuscitar, devo suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo: não suspeitarão de sua destruição.

Estava pensando em outra coisa, num incrível projeto de rapto privadíssimo, como de sonho, que eu só contaria para mim.

Em momentos de extrema ansiedade imaginei estas explicações injustificáveis, fúteis. O homem e a cópula não suportam longas intensidades.


A HISTÓRIA DO CABELO, Alan Pauls

janeiro 17, 2014

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Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como os outros pensam na morte. Não assim de repente, ah, o cabelo! Não, ele não descobre algo cuja existência ignorava. Sempre soube que o cabelo está ali, entocado em algum lugar, mas pôde viver perfeitamente sem levá-lo em conta, sem torná-lo algo presente. Não descobre uma experiência, mas uma dimensão; não algo que sua vida não tivesse incluído até então: algo que já estava nele, trabalhando-o em silêncio, com uma paciência de ruminante, à espera do momento oportuno para acordar e emitir os primeiros sinais de uma vida visível. A morte é um exemplo clássico. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É algo que se sabe: uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida e acaba passando despercebida. Assim por anos a fio. Até que de repente aparece e reivindica o que é seu. Um conhecido sofre um ataque enquanto dirige e a cadeira que duas semanas depois estava reservada para seu jantar de aniversário fica vazia para sempre. Alguém próximo se queixa de uma dor insignificante ao engolir e dias depois o médico que anota numa ficha o relato que lhe faz o episódio para de escrever e levanta a cabeça e olha para ele franzindo o cenho. De repente algo se precipita e se consolida: o que era invisível e sigiloso se torna material, de pedra, ineludível, um obstáculo escuro que não chega a bloquear totalmente o caminho mas contra o qual não há jeito de não tropeçar, e que, intruso vigilante, começa a aparecer em todas e em cada uma das fotografias que tiramos quando brincamos de imaginar nosso futuro.


BONSAI, Alejandro Zambra

dezembro 20, 2013

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No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:


A CONTADORA DE FILMES, Hernán Rivera Letelier

novembro 29, 2013

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Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado –  com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.

Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.


O REMORSO DE BALTAZAR SERAPIÃO, valter hugo mãe

outubro 29, 2013

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sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa. é como lhe peço que encomende como melhor sabe os cuidados de deus. que os encomende de coração bom para que nada do que façamos seja falso. haverá de se ter debaixo desta pedra uma mulher como se fosse uma própria nuvem do céu, uma coisa muito leve sob o peso da pedra. muito leve mas forte, capaz de resistir aos ventos. capaz de fazer tempestades.


AS COISAS, George Perec

outubro 3, 2013

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Em teoria, um jovem que faz alguns estudos e depois cumpre honestamente suas obrigações militares encontra-se por volta dos vinte e cinco anos nu como no dia em que nasceu, embora já virtualmente possuidor, por causa de seu próprio saber, de mais dinheiro do que jamais fora capaz de desejar. Isto é, ele sabe com toda certeza que chegará um dia em que terá seu apartamento, sua casa de campo, seu carro, seu aparelho de som de alta fidelidade. No entanto, ocorre que essas exaltantes promessas se façam desagradavelmente esperar: pertencem, por sua própria natureza, a um processo do qual dependem, se quisermos refletir melhor, o casamento, o nascimento dos filhos, a evolução dos valores morais, atitudes sociais e comportamentos humanos. Em suma, o jovem deverá se instalar, e isso lhe tomará bem uns quinze anos.

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? E, pensando em se consolar, cai nas armadilhas das vendas a prazo. A partir daí, está pego, bem pego: só lhe resta se armar de paciência. Infelizmente, quando está no fundo do poço, o jovem não é mais tão jovem, e, cúmulo da desgraça, poderá até mesmo lhe parecer que sua vida já ficou para trás, que ela era apenas seu esforço, e não seu objetivo, e conquanto ele seja muito sensato, muito prudente – pois sua lenta ascensão lhe terá dado uma saudável experiência – para ousar fazer tais comentários, será uma absoluta verdade o fato de que estará com quarenta anos e que a instalação de suas residências, principal e secundária, e a educação de seus filhos terão bastado para preencher as magras horas que não tiver dedicado a seu labor…


O PÁSSARO PINTADO, Jerzy Kosinski

maio 23, 2013

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Encostado na parede do moinho, perto do estábulo, jazia o ajudante. A princípio pensei em passar por ele rapidamente, mas logo lembrei-me de que ele não enxergava. Estava ainda sob o efeito do choque; o rosto coberto com as mãos, chorava e gemia, todo ensanguentado. Tive vontade de dizer alguma coisa, mas refreei-me, com medo de que me perguntasse o que havia sido feito de seus olhos, obrigando-me a a contar que o moleiro os tinha esmagado. Sentia muita pena dele.

Perguntava a mim mesmo se a perda da visão implicaria também o esquecimento de tudo o que havia sido visto antes. Se assim fosse, o homem não enxergaria realmente mais, nem em sonho. Caso contrário, porém, mantida a visão da memória, a cegueira não seria assim tão ruim. O mundo parecia-me quase igual em toda a parte, e apesar de as pessoas serem diferentes umas das outras, como os animais e as árvores, não deveria ser difícil saber-lhes as feições depois de tê-las visto durante tantos anos. Eu tinha vivido apenas sete anos, mas já lembrava muitas coisas, e quando fechava os olhos reencontrava, ainda mais vívidos, inúmeros detalhes. Quem sabe sem os olhos o ajudante talvez descobrisse um mundo novo e fascinante.


O PÁSSARO PINTADO, Jerzy Kosinski

maio 20, 2013

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Como invejava Mitka! Subitamente compreendi uma boa parte do que um dos soldados dissera numa discussão com ele. “Ser Humano – este é um título glorioso. O homem carrega em si mesmo sua própria guerra particular, a qual lhe compete desencadear, ganhe ou perca – e sua própria justiça, a qual só a ele compete ministrar.” Agora, Mitka, o Cuco, havia imposto a vingança pela morte de seus amigos, a despeito das opiniões dos outros, do risco de sua posição no regimento e de seu título de Herói da União Soviética. Se não pudesse vingar seus amigos, de que teriam valido todos aqueles dias de treino na arte de franco-atirador, o controle da visão, da mão e da respiração? Que valor teria o título de Herói, respeitado e adorado por dezenas de milhares de cidadãos, se ele não mais o merecia a seus próprios olhos?

Havia outro elemento na vingança de Mitka. Um homem, não importa quão popular ou admirado, vive principalmnete consigo mesmo. Se ele não estiver em paz consigo mesmo, se estiver contrariado acerca de algo que não fez mas que deveria ter feito a fim de preservar a imagem que guarda de si mesmo, ele é como o “infeliz Demônio, espírito desterrado, pairando muito acima do mundo pecador”.

Compreendi algo mais. Havia muitos atalhos e muitas elevações guiando-nos à culminância da moral. Mas podia-se também atingir o topo sozinho, com a ajuda, na maioria das vezes, de um único amigo do modo como Mitka e eu havíamos subido na árvore. Este era um topo diferente, separado da marcha das massas trabalhadoras.


A FERA NA SELVA, Henry James

maio 8, 2013

A Fera na Selva

– Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.


A DESOBEDIÊNCIA CIVIL, Henry David Thoreau

maio 8, 2013

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Não pago imposto individual há seis anos. Por causa disso, certa vez, fui colocado na cadeia por uma noite. E, enquanto contemplava as sólidas paredes de pedra, com dois ou três pés de espessura, a porta de madeira e ferro, com um pé de espessura, e a grade de ferro que filtrava a luz, não pude deixar de ficar impressionado com a insensatez daquela instituição que me tratava como se eu fosse um mero amontoado de carne, sangue e ossos, pronto pra ser aprisionado. Estranhei que ela tenha concluído, por fim, que aquele fosse o melhor uso que poderia fazer de mim e que não tenha pensado em aproveitar-se de meus serviços de algum modo. Vi que, se havia um muro de pedra entre eu e meus concidadãos, havia um outro ainda mais difícil de galgar e transpor para que eles pudessem tornar-se tão livres quanto eu. Não me senti aprisionado sequer por um momento e aqueles muros pareceram-me um enorme desperdício de pedra e argamassa. Sentia-me como se apenas eu, entre todos meus concidadãos, tivesse pago o imposto. Eles claramente não sabiam como tratar-me mas portavam-se como pessoas mal-educadas. Em cada ameaça e em cada cumprimento havia um disparate, por pensarem que meu maior desejo era estar do outro lado daquele muro de pedra. Eu não podia senão sorrir ao ver quão diligentemente fechavam a porta às minhas meditações, que os perseguiam totalmente desimpedidas, e eles é que eram, na verdade, tudo de perigoso. Como não podiam alcançar-me, resolveram punir meu corpo; como meninos que, não conseguindo atacar alguém que odeiam, maltratam-lhe o cão. Vi que o Estado era irresponsável, tímido como uma mulher solitária com suas colheres de prata, e que não sabia distinguir seus amigos de seus inimigos, e perdi o resto de respeito que ainda nutria por ele, e tive pena dele.

Portanto, o Estado nunca enfrenta intencionalmente a consciência intelectual ou moral de um homem, mas apenas seu corpo, seus sentidos. Não está equipado com inteligência ou honestidade superiores, mas com força física superior. Não nasci para ser forçado a nada. Respirarei a meu próprio modo. Vejamos quem é o mais forte.


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