Posts Tagged ‘Cristina’

NOTAS DO SUBSOLO, Dostoiévski

abril 3, 2017

 

As veneráveis formigas começaram com um formigueiro e terminarão também, provavelmente, com um formigueiro, o que muito honra sua constância e sua natureza positiva. Mas o homem é um ser inconstante e pouco honesto e, talvez, à semelhança do jogador de xadrez, gosta apenas do processo de procurar atingir um objetivo , e não do objetivo em si. E quem sabe? Não se pode garantir, mas talvez todo o objetivo a que o homem se dirige na Terra se resuma a esse processo constante de buscar conquistar ou, em outras palavras, à própria vida, e não ao objetivo exatamente, o qual, evidentemente, não deve passar de dois e dois são quatro, ou seja, uma fórmula, e dois e dois são quatro já não é vida, senhores, mas o começo da morte. Pelo menos, o homem sempre teve um certo temor desse dois e dois são quatro, e eu até agora tenho. Suponhamos que o homem não faça outra coisa além de procurar esse dois e dois são quatro, atravessando oceanos, sacrificando a vida nessa busca, mas sou capaz de jurar que ele tem medo de encontrá-lo realmente. Porque ele sente que, assim que o encontrar, não haverá mais nada para procurar. Os trabalhadores, ao término do trabalho, pelo menos recebem seu dinheiro e podem ir para o botequim e depois podem acabar na delegacia – e têm, assim, ocupação para a semana. Mas o homem para onde irá? Pelo menos, sempre se nota que ele fica um pouco sem jeito quando consegue atingir algum desses objetivos. Ele ama o processo de conseguir, mas atingir mesmo, nem tanto, e isso, claro está, é terrivelmente engraçado. Em uma palavra, o homem é constituído de modo cômico; em tudo isso, pelo visto, há um jogo de palavras. Mas dois e dois são quatro é, de qualquer modo, uma coisa extremamente insuportável. Dois e dois são quatro, na minha opinião, é pura insolência. Dois e dois são quatro olha para você com ar petulante, fica no meio do seu caminho com as mãos na cintura e cospe pro lado. Concordo que dois e dois são quatro é uma coisa excelente; porém, se é para elogiar tudo, então dois e dois são cinco às vezes também é uma coisinha bem encantadora.

O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

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O DIABO

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Costuma-se pensar que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores. Isso não é de todo verdadeiro. As pessoas mais conservadoras em geral são os jovens, que desejam viver, mas que não pensam nem têm tempo para pensar como se deve viver e por isso tomam como modelo a vida já conhecida.

O DIABO E OUTRAS HISTÓRIAS, Liev Tolstói

agosto 8, 2016

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KHOLSTOMÉR, A HISTÓRIA DE UM CAVALO.

(…)

Eu entendi bem o que eles disseram sobre os lanhões e o cristianismo, mas naquela época era absolutamente obscuro para mim o significado das palavras “meu”, “meu potro”, palavras através das quais eu percebia que as pessoas estabeleciam uma espécie de vínculo entre mim e o chefe dos estábulos. Não conseguia entender de jeito nenhum em que consistia esse vínculo. Só o compreendi bem mais tarde, quando me separaram dos outros cavalos. Mas, naquele momento, não houve jeito de entender o que significava me chamarem de propriedade de um homem. As palavras “meu cavalo”, referidas a mim, um cavalo vivo, pareciam-me tão estranhas quanto as palavras “minha terra”, “meu ar”, “minha água”.

No entanto, estas palavras exerciam uma enorme influência sobre mim. Eu não parava de pensar nisso e só muito depois de ter as mais diversas relações com as pessoas compreendi finalmente o sentido que atribuíam àquelas estranhas palavras. Era o seguinte: os homens não orientam suas vidas por atos, mas por palavras. Eles não gostam tanto da possibilidade de fazer ou não fazer alguma coisa quanto da possibilidade de falar de diferentes objetos utilizando-se de palavras que convencionam entre si. Dessas, as que mais consideram são “meu” e “minha”, que se aplicam a várias coisas, seres e objetos, inclusive à terra, às pessoas e aos cavalos. Convencionaram entre si que, para cada coisa, apenas um deles diria “meu”. E aquele que diz “meu” para o maior número de coisas é considerado o mais feliz, segundo esse jogo. Para quê isso, não sei, mas é assim. Antes eu ficava horas a fio procurando alguma vantagem imediata nisso, mas não dei com nada.

YO NO SOY YO, Juan Ramón Jiménez

junho 23, 2014

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YO NO SOY YO

Soy este
que va a mi lado sin yo verlo;
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces, olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
el que perdona, dulce, cuando ódio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pie cuando yo muera.

FAHRENHEIT 451, Ray Bradbury

junho 23, 2014

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Os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria. Vocês, bombeiros, de vez em quando garantem um circo no qual multidões se juntam para ver a bela chama de prédios incendiados, mas, na verdade, é um espetáculo secundário, e dificilmente necessário para manter a ordem. São muito poucos os que ainda querem ser rebeldes.

FAHRENHEIT 451, Ray Bradbury

junho 23, 2014

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Estamos vivendo num tempo em que as flores tentam viver de flores, e não com a boa chuva e o húmus preto. Mesmo os fogos de artifício, apesar de toda a sua beleza, derivam de produtos químicos da terra. No entanto, de algum modo, achamos que podemos crescer alimentando-nos de flores e fogos de artifício, sem completar o ciclo de volta à realidade. Você conhece a lenda de Hércules e Anteu, o gigantesco lutador cuja força era invencível desde que ele ficasse firmemente plantado na terra? Mas quando Hércules o ergueu no ar, deixando-o sem raízes, ele facilmente pereceu. Se não existe nessa lenda nenhuma lição para nós hoje, nesta cidade, em nosso tempo, então sou um completo demente.

A HISTÓRIA DO CABELO, Alan Pauls

janeiro 17, 2014

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Há um momento na vida em que ele começa a pensar no cabelo como os outros pensam na morte. Não assim de repente, ah, o cabelo! Não, ele não descobre algo cuja existência ignorava. Sempre soube que o cabelo está ali, entocado em algum lugar, mas pôde viver perfeitamente sem levá-lo em conta, sem torná-lo algo presente. Não descobre uma experiência, mas uma dimensão; não algo que sua vida não tivesse incluído até então: algo que já estava nele, trabalhando-o em silêncio, com uma paciência de ruminante, à espera do momento oportuno para acordar e emitir os primeiros sinais de uma vida visível. A morte é um exemplo clássico. Sabe-se que “existe a morte” como se sabe que o destino de todo corpo é decair ou que a água, numa determinada temperatura, transforma-se em vapor. É algo que se sabe: uma certeza invisível, administrada diariamente e em doses tão infinitesimais que perde consistência, confunde-se com o contínuo da vida e acaba passando despercebida. Assim por anos a fio. Até que de repente aparece e reivindica o que é seu. Um conhecido sofre um ataque enquanto dirige e a cadeira que duas semanas depois estava reservada para seu jantar de aniversário fica vazia para sempre. Alguém próximo se queixa de uma dor insignificante ao engolir e dias depois o médico que anota numa ficha o relato que lhe faz o episódio para de escrever e levanta a cabeça e olha para ele franzindo o cenho. De repente algo se precipita e se consolida: o que era invisível e sigiloso se torna material, de pedra, ineludível, um obstáculo escuro que não chega a bloquear totalmente o caminho mas contra o qual não há jeito de não tropeçar, e que, intruso vigilante, começa a aparecer em todas e em cada uma das fotografias que tiramos quando brincamos de imaginar nosso futuro.

A CONTADORA DE FILMES, Hernán Rivera Letelier

novembro 29, 2013

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Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado –  com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.

Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

O REMORSO DE BALTAZAR SERAPIÃO, valter hugo mãe

outubro 29, 2013

baltazar

sabe, senhor paulo, as mães são como lugares de onde deus chega. lugares onde deus está e a partir dos quais pode chegar até nós. porque só através delas nos encontramos aqui. e, por isso, não há mãe alguma que não mereça o céu, porque, em verdade, as mães transportam o céu dentro delas, e multiplicam-no a custo, como um ofício, mesmo que dotadas de burrice grande ou estupidez perigosa. é como lhe peço que encomende como melhor sabe os cuidados de deus. que os encomende de coração bom para que nada do que façamos seja falso. haverá de se ter debaixo desta pedra uma mulher como se fosse uma própria nuvem do céu, uma coisa muito leve sob o peso da pedra. muito leve mas forte, capaz de resistir aos ventos. capaz de fazer tempestades.

A FERA NA SELVA, Henry James

maio 8, 2013

A Fera na Selva

– Você me contou que sempre teve, desde os primeiros tempos, como a coisa mais profunda dentro de você, a sensação de estar sendo poupado para algo raro e estranho, talvez prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde acabaria acontecendo.

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