Posts Tagged ‘Daniel’

ALMAS MORTAS, Nikolai Gogol

janeiro 20, 2011

Isto, porém, de maneira alguma diminuiu a excelente disposição em que se encontrava o nosso herói.

O RETRATO DE DORIAN GRAY, Oscar Wilde

janeiro 17, 2011

 

— Basta, Basil. Está falando de coisas sobre as quais nada sabe — disse Dorian Gray mordendo os lábios, com expressão de infinito desprezo na voz. — Você me pergunta por que Berwick deixa a sala quando entro. É porque sei tudo a respeito de sua vida, não porque ele saiba alguma coisa da minha.  Com o sangue que lhe corre nas veias, como poderia ter uma vida limpa? Você me pergunta de Henry Ashton e do jovem Perth. Terei eu ensinado a um os seus vícios e ao outro seus desregramentos? Se o tolo filho de Kent toma por esposa uma mulher da rua, tenho algo a ver com isso? Se Adrian Sigleton falsifica a assinatura de um amigo, numa dívida, sou por acaso seu tutor? Sei bem como fala o povo, na Inglaterra. Os que pertencem à classe média ventilam seus preconceitos morais à mesa de jantar e cochicham sobre o que eles chamam a libertinagem de seus superiores, para fingir que frequentam a alta sociedade e tem intimidade com as pessoas que difamam. Neste país, basta um homem ter distinção e inteligência para que as línguas dos medíocres se agitem contra ele. E que espécie de vida leva esta gente que assume atitude moralista? Meu caro, você se esquece de que estamos na pátria dos hipócritas.

ODES DE RICARDO REIS, Fernando Pessoa

janeiro 12, 2011

LÍDIA

Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio,
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise’ssemos, trocar beijos e abrac,os e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o’bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

O COBRADOR, Rubem Fonseca

dezembro 16, 2010

“a invenção vem da imaginação e a imaginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada.”

AS PALAVRAS, Sartre

dezembro 8, 2010

 

Nunca fui inteiramente enganado por essa “escrita automática”. Mas a brincadeira também me agradava em si mesma: filho único, podia brincar com isso sozinho. Por instantes, eu detinha a mão, fingia hesitar para me sentir, com a testa franzida e o olhar alucinado, escritor. Eu adorava o plágio, aliás, por enobismo, e o impelia deliberadamente ao extremo, como se vai ver.

BICHOS-PAPÕES ANÔNIMOS, Pascal Bruckner

novembro 21, 2010

 

Tendo conservado de sua vida ativa o hábito da clandestinidade, Tristan Goldman ligava para Carciofi cada noite de uma cabine telefônica diferente. Contou-lhe que, assim como ocorre com alguns bandidos ou mafiosos cansados de viver à margem, muitos papões costumavam desertar, e que para eles fora criado um grupo de reintegração chamado Papões Anônimos. Os membros dessa organização são seres arrependidos: cohecem os sintomas do mal, manisfestam enorme compaixão por seus irmãos e irmãs, e ajudam-nos, graças a uma disciplina de ferro, a perderem progressivamente os seus hábitos maléficos. Segundo os princípios da associação, ainda que se torne abstêmio nenhum papão pode considerar-se curado por conta própria; ele deve ficar sob a observação de um padrinho, o qual tem autorização para entrar em sua casa a qualquer momento do dia ou da noite. No caso dos mais resistentes, são necessários anos para liberá-los.

CATECISMO de DEVOÇÕES, INTIMIDADES & PORNOGRAFIAS, Xico Sá

setembro 16, 2010

NO QUE CONCERNE AO LAPSUS LINGUAE

Aqui o lapso de língua diz respeito àquela criatura que preguiçosamente se debruça sobre a vulva ou o pau e não se devota, limitando-se a um mero favor sexual sem vigor ou alma. A burocratização do sagrado ato de sorver o objeto de desejo. Falta de manga na infância, no caso dos meninos; falta de espiga de milho cozido, no tocante às meninas.

SOBRE A AMIZADE, Cícero

agosto 28, 2010

Fiquemos, pois, com nosso bom senso comum, como se costuma dizer. Aqueles que se comportam, que vivem de forma tal que evidencia boa-fé, integridade, equidade e liberalidade, nos quais não há cobiça, nem paixão, nem louca ousadia e demonstram grande firmeza de caráter, como as personagens que acabo de citar, e que foram, todos eles, considerados homens de bem, nós, na minha opinião, devemos, também, assim chamá-los, porque, na medida do possível, seguem a natureza, que é a melhor guia da vida.

O PRAZER DO TEXTO, Roland Barthes

junho 9, 2010

O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre? Na perversão (que é o regime do prazer textual) não há “zonas erógenas” (expressão aliás bastante importuna); é a intermitência, como o disse muito bem a psicanálise, que é erótica: a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a malha), entre duas bordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga); é essa cintilação mesma que seduz, ou ainda: a encenação de um aparecimento-desaparecimento.

ALÉM DO BEM E DO MAL, Friedrich Nietzsche

maio 21, 2010

MÁXIMAS E INTERLÚDIOS

140. Conselho em forma de enigma. — “Se o laço não deve romper — é preciso antes morder.”

175. Por fim amamos o próprio desejo, e não o desejado.

180. Há uma inocência na mentira que é o signo da boa-fé numa causa.

184. Há uma exuberância da bondade que pode parecer maldade.

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