Posts Tagged ‘Manuel’

O COMPLEXO DE PORTNOY, Philip Roth

agosto 5, 2018

“Ao invés de chorar por aquele que se decide aos catorze anos a jamais pôr os pés de novo numa sinagoga, ao invés de lamuriar-se por aquele que deu as costas à saga do seu povo, tratem é de chorar por vocês mesmos, que não param de chupar e chupar a uva azeda dessa religião! Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está espirrando pelos meus ouvidos, esta saga de judeus sofredores! Façam-me um favor, meu povo, enfiem a herança sofredora no seu cu sofredor, pois acontece que também sou um ser humano!

Mas você é um judeu, diz minha irmã. É um garoto judeu, mais do que pensa, e não está fazendo outra coisa senão se tornar infeliz, berrando ao vento…

(…)

Sabe, pergunta-me ela, onde estaria agora se houvesse nascido na Europa, ao invés de na América?

A questão não é essa, Hannah.

Morto, diz ela.

A questão não é essa!

Morto. Na câmara de gás, ou fuzilado, ou incinerado, ou chacinado, ou enterrado vivo. Sabe disso? E podia gritar à vontade que não era judeu e sim um ser humano, que nada tinha a ver com a sua estúpida herança sofredora, ainda assim seria levado para o seu destino. Estaria morto, eu estaria morta e…

Mas não é sobre isso que estou falando!

Sua mãe e seu pai estariam mortos.

Por que há de estar do lado deles!

Não estou do lado de ninguém, diz ela. Estou só lhe dizendo que ele não é uma pessoa tão ignorante quanto você pensa.

Vai me dizer que minha mãe também não é? Vai me dizer que os nazistas fazem com que tudo o que ela diz e faz seja inteligente e brilhante? Vai me dizer que os nazistas sejam uma desculpa para tudo o que acontece nesta casa?

Oh, não sei, diz minha irmã, talvez: talvez sejam. E agora ela começa a chorar também, fazendo-me sentir um monstro, pois deita lágrimas por seis milhões, pelo menos é o que me parece, ao passo que eu verto a minha só por mim mesmo. Ou pelo menos é o que me parece.”

CARTAS DE VIAGEM E OUTRAS CRÔNICAS, Campos de Carvalho

abril 13, 2018

Ao por os pés no chão cada manhã deveríamos pensar: estou realizando o ato mais importante que um homem pode realizar fora de sua cama e de si mesmo, que é o de pisar o mundo, em consequência carregá-lo às costas, sentir-lhe todas as alegrias e tristezas humanamente e não como um robô ensinado por seus pais e avós também robôs. Estou pisando o mundo e só eu posso na minha fragilidade e em meio a tanto espelho e a tanta porta descobrir o que é certo e o que não é, qual o caminho que leva ao mar como acontece às tartarugas recém-nascidas e quais os caminhos que não levam a lugar nenhum e de onde nos espreita, com suas mil faces, o anjo da morte. Só eu posso na minha cegueira guiar-me com as luzes profundas da intuição, aquele fiapo de luz entrevisto no fim do imenso túnel e ao qual me agarrarei como o afogado à ponta de uma corda: uma possibilidade em mil de salvar-me, de acertar com o meu caminho, mas sempre uma razão de viver e de ainda continuar vivo, lado a lado com os milhões de espermatozóides que tentam comigo a grande aventura. Um crápula muitas vezes perplexo no seu (alheio) labirinto, dando murros no ar e imprecando nas trevas – mas o mesmíssimo ser capaz de amanhã escrever um Invenção de Orfeu ou beijar qual Francisco de Assis todos os leprosos do caminho, levado pelos ventos do gênio ou da santidade, o olhar perdido no horizonte enfim achado, finalmente em paz com a sua consciência e pronto para morrer para o mundo e depois morrer.

 

O FILHO DE MIL HOMENS, Valter Hugo Mãe

outubro 22, 2017

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“Os filhos, pensava ele, são modos de estender o corpo e aquilo a que se vai chamando alma. São como continuarmos por onde já não estamos e estarmos, passarmos a estar verdadeiramente, porque ansiamos e sofremos mais pelos filhos do que por nós próprios, assim como nos reconfortam mais as alegrias deles do que a satisfação que diretamente auferimos. Por isso temos gula pelos filhos, uma gula do tamanho dos absurdos, sempre começada, sempre incontrolável. E queremos tudo dos filhos como se nunca nos bastasssem, nunca nos cansassem porque, ainda que nos cansemos, estamos incondicionalmente dispostos a continuar, uma e outra vez até que seja o corpo extenuado a desistir, mas nunca o nosso ímpeto, nunca o nosso espírito. Até porque desistir de um filho seria como desistir do melhor de nós próprios. Cada filho somos nós no melhor que temos para dar. No melhor que temos para ser.”

UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar

maio 25, 2017

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“só usa a razão quem nela incorpora suas paixões”

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 22, 2015

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Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:

– Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

– Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

– Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

– Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

(…)

– Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

SEM PLUMAS, Woody Allen

junho 10, 2015

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GUIA BREVE, PORÉM ÚTIL, À DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Concentrar-se em frente ao palácio do governo e gritar a palavra “Pudim” até que as exigências sejam atendidas.

Engarrafar o trânsito da cidade conduzindo um rebanho de carneiros pela avenida na hora do rush.

Telefonar a membros do establishment e cantar alguma canção de protesto ou de ninar.

Fazer-se passar por policial e então faltar ao serviço.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

junho 3, 2015

memorias postumas de bras cubas

Súbito deu-me a consciência um repelão, acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-abaixado a esse ofício, à custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de Dona Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de Dona Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.

A VIDA PRIVADA DAS ÁRVORES, Alejandro Zambra

maio 27, 2015

a vida privada

Semana passada, Julián fez trinta anos. A festa foi um pouco estranha, marcada pelo desânimo do aniversariante. Assim como algumas mulheres diminuem a idade, ele às vezes precisa acrescentar alguns anos à sua, olhar para o passado com um volúvel travo de amargura. Ultimamente deu de cismar que devia ter sido dentista ou geólogo ou meteorologista. De repente, acha estranho seu ofício: professor. Mas sua verdadeira profissão, pensa agora, é ter caspa. Imagina-se dando esta resposta:

Qual é a sua profissão?

Ter caspa.

A INVENÇÃO DE MOREL, Adolfo Bioy Casares

fevereiro 5, 2014

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Estar morto! Como me entusiasmou essa ideia (vaidosamente, literariamente)!

Havia um tempo que eu pensava nisso, de modo que já estava um pouco farto, e segui adiante com menos lógica: não estava morto até que apareceram os intrusos; na solidão, é impossível estar morto. Para ressuscitar, devo suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo: não suspeitarão de sua destruição.

Estava pensando em outra coisa, num incrível projeto de rapto privadíssimo, como de sonho, que eu só contaria para mim.

Em momentos de extrema ansiedade imaginei estas explicações injustificáveis, fúteis. O homem e a cópula não suportam longas intensidades.

BONSAI, Alejandro Zambra

dezembro 20, 2013

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No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:

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