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UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar

maio 25, 2017

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“só usa a razão quem nela incorpora suas paixões”

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 22, 2015

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Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:

– Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

– Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

– Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

– Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

(…)

– Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

SEM PLUMAS, Woody Allen

junho 10, 2015

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GUIA BREVE, PORÉM ÚTIL, À DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Concentrar-se em frente ao palácio do governo e gritar a palavra “Pudim” até que as exigências sejam atendidas.

Engarrafar o trânsito da cidade conduzindo um rebanho de carneiros pela avenida na hora do rush.

Telefonar a membros do establishment e cantar alguma canção de protesto ou de ninar.

Fazer-se passar por policial e então faltar ao serviço.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

junho 3, 2015

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Súbito deu-me a consciência um repelão, acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-abaixado a esse ofício, à custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de Dona Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de Dona Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.

A VIDA PRIVADA DAS ÁRVORES, Alejandro Zambra

maio 27, 2015

a vida privada

Semana passada, Julián fez trinta anos. A festa foi um pouco estranha, marcada pelo desânimo do aniversariante. Assim como algumas mulheres diminuem a idade, ele às vezes precisa acrescentar alguns anos à sua, olhar para o passado com um volúvel travo de amargura. Ultimamente deu de cismar que devia ter sido dentista ou geólogo ou meteorologista. De repente, acha estranho seu ofício: professor. Mas sua verdadeira profissão, pensa agora, é ter caspa. Imagina-se dando esta resposta:

Qual é a sua profissão?

Ter caspa.

A INVENÇÃO DE MOREL, Adolfo Bioy Casares

fevereiro 5, 2014

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Estar morto! Como me entusiasmou essa ideia (vaidosamente, literariamente)!

Havia um tempo que eu pensava nisso, de modo que já estava um pouco farto, e segui adiante com menos lógica: não estava morto até que apareceram os intrusos; na solidão, é impossível estar morto. Para ressuscitar, devo suprimir as testemunhas. Será um extermínio fácil. Não existo: não suspeitarão de sua destruição.

Estava pensando em outra coisa, num incrível projeto de rapto privadíssimo, como de sonho, que eu só contaria para mim.

Em momentos de extrema ansiedade imaginei estas explicações injustificáveis, fúteis. O homem e a cópula não suportam longas intensidades.

BONSAI, Alejandro Zambra

dezembro 20, 2013

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No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:

A CONTADORA DE FILMES, Hernán Rivera Letelier

novembro 29, 2013

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Certa vez li por aí, ou vi num filme, que quando os judeus eram levados pelos alemães naqueles vagões fechados, de transportar gado –  com apenas uma ranhura na parte alta para que entrasse um pouco de ar -, enquanto iam atravessando campos com cheiro de capim úmido, escolhiam o melhor narrador entre eles e, subindo-o em seus ombros, o elevavam até a ranhura para que fosse descrevendo a paisagem e contando o que via conforme o trem avançava.

Eu agora estou convencida de que entre eles deve ter havido muitos que preferiam imaginar as maravilhas contadas pelo companheiro a ter o privilégio de olhar pela ranhura.

AS COISAS, George Perec

outubro 3, 2013

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Em teoria, um jovem que faz alguns estudos e depois cumpre honestamente suas obrigações militares encontra-se por volta dos vinte e cinco anos nu como no dia em que nasceu, embora já virtualmente possuidor, por causa de seu próprio saber, de mais dinheiro do que jamais fora capaz de desejar. Isto é, ele sabe com toda certeza que chegará um dia em que terá seu apartamento, sua casa de campo, seu carro, seu aparelho de som de alta fidelidade. No entanto, ocorre que essas exaltantes promessas se façam desagradavelmente esperar: pertencem, por sua própria natureza, a um processo do qual dependem, se quisermos refletir melhor, o casamento, o nascimento dos filhos, a evolução dos valores morais, atitudes sociais e comportamentos humanos. Em suma, o jovem deverá se instalar, e isso lhe tomará bem uns quinze anos.

Uma perspectiva dessas não é reconfortante. Ninguém se entrega a ela sem esbravejar. Ora bolas, pensa o jovem que está começando, vou ter de passar os dias dentro dessas salas envidraçadas em vez de ir passear nos campos floridos? Vou me flagrar cheio de esperança nas vésperas das promoções, vou estimar, vou intrigar, vou ter de me controlar, eu, que sonhava com poesia, com trens noturnos, com areias quentes? E, pensando em se consolar, cai nas armadilhas das vendas a prazo. A partir daí, está pego, bem pego: só lhe resta se armar de paciência. Infelizmente, quando está no fundo do poço, o jovem não é mais tão jovem, e, cúmulo da desgraça, poderá até mesmo lhe parecer que sua vida já ficou para trás, que ela era apenas seu esforço, e não seu objetivo, e conquanto ele seja muito sensato, muito prudente – pois sua lenta ascensão lhe terá dado uma saudável experiência – para ousar fazer tais comentários, será uma absoluta verdade o fato de que estará com quarenta anos e que a instalação de suas residências, principal e secundária, e a educação de seus filhos terão bastado para preencher as magras horas que não tiver dedicado a seu labor…

A FERA NA SELVA, Henry James

maio 6, 2013

A Fera na Selva

 

Sendo ao longo do Tempo que deveria cumprir o seu destino, então era no Tempo que seu destino deveria agir, e quando acordou para a realidade de não ser mais um jovem, que era exatamente a consciência de estar esgotado, e, por sua vez, a consciência de ser fraco, acordou também para outra realidade. Tudo se juntava: eles se submetiam, ele e sua incerteza, à mesma lei indivisível. Quando as próprias possibilidades se tornaram consequentemente esgotadas, quando o segredo dos deuses se tornou tênue, quase mesmo se evaporou, isto, e isto somente, era o fracasso. Não teria sido fracasso ter falido, ter sido desonrado, exposto à execração pública, enforcado; o fracasso era não acontecer nada.

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