Archive for the 'Machado de Assis' Category

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 22, 2015

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Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:

– Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

– Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

– Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

– Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

(…)

– Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

junho 3, 2015

memorias postumas de bras cubas

Súbito deu-me a consciência um repelão, acusou-me de ter feito capitular a probidade de Dona Plácida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e privações. Medianeira não era melhor que concubina, e eu tinha-abaixado a esse ofício, à custa de obséquios e dinheiros. Foi o que me disse a consciência; fiquei uns dez minutos sem saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinação exercida por Virgília sobre a ex-costureira, da gratidão desta, enfim da necessidade. Notou a resistência de Dona Plácida, as lágrimas dos primeiros dias, as caras feias, os silêncios, os olhos baixos, e a minha arte em suportar tudo isso, até vencê-la. E repuxou-me outra vez de um um modo irritado e nervoso.

Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de Dona Plácida estava agora ao abrigo da mendicidade: era uma compensação. Se não fossem os meus amores, provavelmente Dona Plácida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.

A VIDA PRIVADA DAS ÁRVORES, Alejandro Zambra

maio 27, 2015

a vida privada

Semana passada, Julián fez trinta anos. A festa foi um pouco estranha, marcada pelo desânimo do aniversariante. Assim como algumas mulheres diminuem a idade, ele às vezes precisa acrescentar alguns anos à sua, olhar para o passado com um volúvel travo de amargura. Ultimamente deu de cismar que devia ter sido dentista ou geólogo ou meteorologista. De repente, acha estranho seu ofício: professor. Mas sua verdadeira profissão, pensa agora, é ter caspa. Imagina-se dando esta resposta:

Qual é a sua profissão?

Ter caspa.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 15, 2010

“Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casa alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertimos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia na intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho do sótão.

– Não, senhora – replicou a Razão -, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.”

CONTOS, Machado de Assis

junho 14, 2010

FELICIDADE PELO CASAMENTO

A casa não era grande nem pequena; tinha duas salas, uma alcova, e um gabinete. Não tinha jardim. Ao manifestar o meu despeito por isso, acudiu João:

– Há jardins e passeios nos arredores, meu amo. Meu amo pode, sempre que quiser, ir passear pelo interior. E Petrópolis? Isso é coisa rica!

Consolei-me com a expectativa dos passeios.

Passei os primeiros dias a ver a cidade.

Vi muita gente boquiaberta diante das vidraças da rua do Ouvidor, manifestado no olhar o mesmo entusiasmo que eu quando contemplava os meus rios e as minhas palmeiras. Lembrei-me com saudade das minhas antigas diversões, mas tive o espírito de não condenar aquela gente. Nem todos podem compreender os encantos da natureza, e a maioria dos espíritos só se nutrem de quinquilharias francesas. Agradeci a Deus não me ter feito assim.

UM HOMEM CÉLEBRE, Machado de Assis

junho 4, 2010

Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da doença, e ia dar-lhe a notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro, referiu-lhe o estado do Pestana, de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que lhe dissesse o que era; o editor obedeceu.
– Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.
– Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.
Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o remédio; o editor levantou-se e despediu-se.
– Adeus.
– Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que fez em toda a vida, e era tempo, porque expirou na madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal consigo mesmo.

CONTOS, Machado de Assis

março 17, 2010

ALMAS AGRADECIDAS

A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele que o faz. Magalhães exprimia todo seu reconhecimento pela dedicação e perseverança de Oliveira; mas a alegria de Oliveira não tinha limites. A explicação desta diferença está talvez neste fundo de egoísmo que há em todos nós.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

janeiro 19, 2010

Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade, – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, Machado de Assis

julho 7, 2009

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Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras, porque uma e outra dessas duas ilusões, melhor é a que se gosta sem doer.

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