Archive for the 'Drummond' Category

ALGUMA POESIA, Carlos Drummond de Andrade

novembro 26, 2010

NO MEIO DO CAMINHO

AS PALAVRAS QUE NINGUÉM DIZ, Carlos Drummond de Andrade

dezembro 31, 2009

GRAVAÇÃO

“Pronto, tá ligado. Posso começar?
— Pode.
— O senhor se sente realizado?
— Por que você quer saber disso?
— Nada não. O professor é que mandou lhe perguntar.
— O professor tem interesse em saber se eu me sinto realizado?
— Sei não senhor.
— Então diga ao professor que venha me procurar.
— Pra quê?
— Para eu lhe perguntar se ele se sente realizado.
— O senhor vai perguntar isso a ele?
— Vou.
— O senhor também está estudando? Nessa idade, poxa!
— Que que tem? Toda idade é boa para estudar, a gente não acaba nunca de saber as coisas. Mas não estou estudando não.
— Então por que vai perguntar isso ao professor?
— Porque se ele quer saber se eu me sinto realizado, eu também quero saber a mesma coisa dele. Indiscrição por indiscrição.
— Gozado… Mas se o senhor fizer isso, não bota o meu nome no meio, porque vai dar grilo. Vê lá, hem?
— Fique descansado. Não vou comprometer você.
— E o senhor só vai responder a minha pergunta depois de falar com ele? E se ele não responder? Se demorar? Tenho de entregar esta entrevista até quinta-feira.
— Bem, eu respondo agora mesmo.
— Então, responde, vamos lá.
— Primeiro eu preciso saber: o que é se sentir realizado?
— O senhor não sabe?
— Para dizer o que eu sinto, quero saber antes se o que eu sinto é o mesmo que se deve sentir quando se está realizado, ou se julga estar. E para isso é preciso saber o que é estar realizado.
— Poxa, não complica.
— Estou complicando, meu querido? Minha intenção era simplificar, esclarecer. O que é mesmo se sentir realizado?
— Ora! Se sentir realizado é… quer dizer… Não sei explicar muito bem, mas o senhor entende, né?
— Mais ou menos. Quer dizer: menos. E você?
— Se o senhor não entende bem, eu é que vou entender?
— Então, como é que eu posso responder?
— Ué, o senhor é o entrevistado, o que sabe das coisas.
— E quando não sei?
— Não sabe se está realizado?
— Não sei nem o que é realizado.
— Corta essa. Não vai me dizer que não tem dicionário em casa.
— Tenho alguns, mas em vez de me tirarem as dúvidas, me acrescentam outras.”

CLARO ENIGMA, Drummond

novembro 3, 2009

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HOTEL TOFFOLO

E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.

Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.

Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.

Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.

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