Archive for the 'Ernest Hemingway' Category

PARIS É UMA FESTA, Ernest Hemingway

setembro 6, 2012

Evan Shipman, outro bom poeta, embora displicente  quanto à publicação de seus versos, achou melhor que essas indagações permanecessem envoltas em mistério.

– Necessitamos de um pouco de mistério em nossas vidas, Hem – disse-me ele certa vez. – O escritor completamente desambicioso e o bom poema inédito, eis duas coisas que muita falta nos fazem hoje em dia. Mas o problema da subsistência é de uma realidade desgraçada…

TER E NÃO TER, Ernest Hemingway

dezembro 15, 2009

Ele sempre foi assim comigo e eu fui sempre assim com ele. Dizia-me que nunca tivera mulher alguma como eu e eu sabia que não havia homem como ele. Sabia disso muito bem, mas agora ele está morto.

Bem, está na hora de fazer alguma coisa. Sei que preciso fazer. Quando se teve um homem como aquele e um cubano imundo liquida com ele, não é possível começar assim de repente; porque tudo que havia dentro de mim desapareceu. Não sei o que fazer. Não é o que se passava quando ele estava fora, em suas viagens. Daí, ele sempre voltava, mas agora vou ter que me virar pelo resto de minha vida. E estou gorda, feia e velha, e não o tenho mais aqui para me dizer que não estou.

O VELHO E O MAR, Ernest Hemingway

dezembro 12, 2009

O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente lhe querem. Às vezes aqueles que o amam lhe dão nomes feios mas sempre como se tratasse de uma mulher. Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam bóias como flutuadores para as suas linhas e têm barcos a motor, comprados quando os fígados dos tubarões valiam muito dinheiro, quando falam do mar dizem el mar, que é masculino. Falam do mar como de um adversário, de um sítio ou mesmo de um inimigo. Mas o velho pescador pensa sempre no mar no feminimo e como se fosse uma coisa que desse ou não desse grandes favores, e se o mar fizesse coisas selvagens ou cruéis era só porque não podia evitá-lo. “A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres”, pensou o velho.

TER E NÃO TER, Ernest Hemingway

dezembro 5, 2009

— Tem uns caras desconhecidos querendo alugar meu barco para fazer uma viagem — explicou.
— Mas o pessoal da alfândega apreendeu o seu barco.
— Sim, mas os tais sujeitos não sabem disso.
— Que viagem é essa?
— Dizem que querem levar alguém que precisa ir a Cuba tratar de um negócio e não pode viajar nem de avião nem de navio. Era sobre isso que o Bico Doce estava conversando comigo.
— Tem gente fazendo isso?
— Claro! Todo dia, depois da Revolução. Pelo jeito, não é nada difícil. Muita gente vai até Cuba assim.
— E o barco?
— Temos de roubar o barco. Você sabe, não o consertaram ainda, e não posso dar partida no motor sozinho.
— Como vai tirá-lo da capitania?
— Dou um jeito.
— E como vamos voltar?
— Ainda não pensei nisso. Se não está querendo ir, pode dizer.
— Claro que estou, mas só se for para ganhar alguma grana.
— Escute — disse Harry. — Você está ganhando sete dólares e meio por semana. Tem na escola três crianças que sentem fome ao meio dia. Tem uma família com a barriga doendo e eu lhe dou uma oportunidade de ganhar um dinheirinho.
— Você não disse quanto será esse dinheirinho. A gente precisa ganhar uma grana firme quando se arrisca.
— Você sabe muito bem que agora não tem muito dinheiro em jogada nenhuma, Al — argumentou Harry. — Veja o meu caso… Eu costumava ganhar trinta e cinco dólares por dia, durante a estação inteira, levando gente para pescar. Agora, fui baleado, perdi o braço e o meu barco, contrabandeando uma merda de uma carga de bebida que mal valia o preço do barco. Mas, me escute bem, minhas crianças não vão ficar com a barriga doendo de fome e não vou cavar esgotos para o governo por menos dinheiro do que preciso para alimentá-las. Aliás, fosse como fosse eu não ia poder mesmo cavar esgotos agora. Não sei quem fez as leis, mas sei que não há lei que nos obrigue a passar fome.
— Cheguei a fazer greve por mais salário — repliquei.
— É, mas depois voltou ao serviço — disse ele. — Espalharam por aí que vocês estavam fazendo greve contra a caridade do governo. Você sempre trabalhou, não foi? Nunca pediu nenhuma esmola.
— Não existe muito trabalho sendo oferecido hoje em dia — eu resmunguei de volta. — Está difícil conseguir ganhar o que a gente precisa para viver.
— Por quê?
— Não sei.
— Nem eu. Mas enquanto tiver gente comendo por aí, minha família também vai comer. Eles estão querendo é que vocês, conchos, passem fome até darem o fora, para poderem fazer disto aqui uma cidade só para turistas.
— Você fala como um radical — disse eu.
— Não sou radical coisa nenhuma — respondeu. — Estou cheio de tudo. Estou cheio, e já há muito tempo.
— Acredito. E perder o braço não fez você se sentir melhor.
— Para o diabo com o meu braço! Quem perde um braço perde um braço. Tem coisas piores do que perder um braço. A gente tem dois braços e também tem duas de uma outra coisa. Um homem ainda é um homem com apenas um braço ou com apenas uma daquelas coisas. Para o diabo com tudo isso! Não quero falar nesse assunto.
Depois de um minuto de silêncio, acrescentou:
— Eu ainda tenho aquelas duas outras coisas.

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