FOLHAS DE RELVA, Walt Whitman

Novembro 20, 2009

Foi posto em dúvida
que os que corrompem seus próprios corpos
segregam a si mesmos?
E se aqueles que profanam os vivos
forem tão maus
quanto aqueles que profanam os mortos?
E se o corpo não fizer plenamente
tudo quanto a alma faz?
E se o corpo não for alma

– que será a alma?


DICIONÁRIO DAS IDEIAS FEITAS, Gustave Flaubert

Novembro 19, 2009

ACIDENTE – Sempre deplorável ou lastimável (como se alguém pudesse achar alegre uma desgraça…).

ALEGRIA – Sempre acompanhada de “louca”.

AQUILES – Acrescentar “dos pés ligeiros”; isto faz crer que se leu Homero.

ASSASSINO – Sempre covarde, mesmo quando foi intrépido e audacioso. Menos culpado do que um incendiário.

CALOR -  Sempre insuportável. Não se deve beber quando faz calor.

INTRODUÇÃO – Palavra obscena.

IMBECIS – Todos aqueles que não pensam como nós.

INVERNO – Sempre excepcional (ver verão). É mais saudável do que as outras estações.

ITALIANOS – Todos músicos. Todos traidores.

LOIRAS – Mais quentes do que as morenas (ver morenas).

MORENAS – Mais quentes do que as loiras (ver loiras).

NEGRAS – Mais quentes do que as brancas (ver morenas e loiras).

OTIMISTA – Equivalente de imbecil.

RISADA – É sempre homérica.

RUIVAS – Ver loiras, morenas e negras.

SANÇÃO PRAGMÁTICA – Ninguém sabe o que é.

SÍFILIS – Mais ou menos, todo mundo tem sífilis.

VERÃO – Sempre excepcional (ver inverno).


RUBÁIYÁT, Omar Kháyyám

Novembro 18, 2009

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Todos sabem que meus lábios nunca murmuraram uma oração.

Não procurei nunca dissimular os meus pecados.

Ignoro se existem realmente uma Justiça e uma Misericórdia.

Mas, se existem, não desespero delas:

fui sempre um homem sincero.


ESSE OFÍCIO DO VERSO, Jorge Luis Borges

Novembro 17, 2009

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Lembrem que Alfred North Whitehead escreveu que, entre as muitas falácias, há a falácia do dicionário perfeito – a falácia de pensar que, para cada percepção dos sentidos, para cada asserção, para cada ideia abstrata, pode-se encontrar um equivalente, um símbolo exato, no dicionário. E o próprio fato de as línguas serem diferentes nos faz suspeitar que isso não exista.


CRIME E CASTIGO, Dostoiévski

Novembro 16, 2009

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A coisa é clara: não se vende em proveito próprio, por conforto, nem para escapar da morte, mas se vende em proveito do outro! Se vende por uma pessoa querida, por uma pessoa adorada! É nisso que consiste toda essa nossa coisa: pelo irmão, pela mãe ela se vende! Vende tudo! Oh, aqui, havendo oportunidade, nós esmagamos até o nosso sentimento ético; levamos à loja de usados a liberdade, a tranqüilidade, até a consciência, tudo, tudo. Dane-se a vida! Contanto que esses nossos seres apaixonados sejam felizes. Como se não nos bastasse inventar a nossa própria casuística, aprendemos com os jesuítas e, pode ser, por um momento tranqüilizamos a nós mesmos, persuadimos a nós mesmos de que se deve agir assim, de que realmente se deve, para atingir um bom objetivo. Nós somos assim mesmo, e tudo é claro como o dia.


O AMANTE, Marguerite Duras

Novembro 16, 2009

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Jamais bom dia, boa noite, bom ano. Jamais obrigado. Jamais falar. Jamais a necessidade de falar. Tudo continua mudo, distante. É uma família talhada na pedra, petrificada numa solidez sem nenhum acesso. A cada dia tentamos nos matar, matar. Não só não nos falamos como também não olhamos um para o outro. A partir do momento em que nos vemos já não somos capazes de nos olhar. Olhar significa um movimento de curiosidade, favorável ou não, uma fraqueza. A pessoa observada não vale esse olhar. É sempre desonroso. A palavra conversação é banida. Creio que é essa a melhor definição da vergonha e do orgulho.


O FILHO DA MÃE, Bernardo Carvalho

Novembro 15, 2009

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– Anna foi embora dois meses depois do seu nascimento. No começo, fiquei revoltada, mas aos poucos, conforme fui me apegando a você, obrigada a voltar a ser mãe por necessidade, comecei a entender. Se desde o início ela pretendia abandoná-lo, era melhor que saísse o quanto antes. Não são todas as mães que amam desde o início. E Anna tinha vindo para Grózni para se livrar do amor. As mulheres nascem para um amor que é insustentável e que passam a vida tentando compensar com amores secundários, para não ficarem loucas. Por isso, querem mais de um filho, para que o amor de um anule o do outro. Quando começam, não podem parar.


COMO SE CASA COMO SE MORRE, Émile Zola

Novembro 14, 2009

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Que estranho sistema, dividir a humanidade em dois campos, os homens de um lado, as mulheres de outro; assim, depois de ter armado os dois campos um contra o outro, uni-los dizendo-lhes “Vivam em paz!”


MADAME BOVARY, Gustave Flaubert

Novembro 13, 2009

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Aliás, mais as coisas eram próximas, mais seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava imediatamente, campo entediante, pequenos-burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso singular em que ela se achava presa, enquanto do outro lado estendia-se, à perda de vista, a imensa região das felicidades e das paixões.


O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA, Gabriel García Márquez

Novembro 11, 2009

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Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.

Coincidiram.