
Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.
Coincidiram.

Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.
Coincidiram.

Das viagens
Conhecer o mundo não adianta nada: as viagens apenas complicam a ignorância.

“Não há mistério. Minha correspondente e admiradora é Mariana Ruiz Villalba de Muñagorri, “Moncha” para seus íntimos. Ponho as cartas na mesa. Apesar das imposturas da calúnia, não houve comércio carnal. Planamos num plano mais alto – emocional, mental. Enfim, um argentino nunca compreenderá essas afinidades.”

Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.

– Deixa que eu falo com ele – diz o ladrão ao recruta.
– As leis na Rússia são boas. Pena que os russos não estejam aqui para cumpri-las – o velho reclama, quando o ladrão lhe oferece dez dólares pela travessia.
Paga com a nota de um roubo recente. O velho quer saber de onde vêm os dólares. Desconfia que seja dinheiro roubado de turistas.
– É meu. Ele me roubou – Andrei se adianta, para tranquilizar o barqueiro, com um desprendimento que surpreende o batedor de carteiras.
Os três atravessam o canal sob a lua minguante e o céu de estrelas.

Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites que apenas são possíveis quando somos jovens, amigo leitor. O céu estava tão cheio de estrelas, tão luminoso, que quem erguesse os olhos para ele se veria forçado a perguntar a si mesmo: será possível que sob um céu assim possam viver homens irritados e caprichosos? A própria pergunta é pueril, muito pueril… mas oxalá o Senhor, amigo leitor, lha possa inspirar muitas vezes.

HOTEL TOFFOLO
E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.

“Ouve agora. Ouvi dizer há pouco que os ciápodes não são amigos dos blêmios. Não pertencem ao reino ou à província?”
“Oh não, eles como nós é servos do Presbyter, e como eles os pôncios, os pigmeus, os gigantes, os panotos, os sem língua, os núbios, os eunucos e os sátiros-que-não-se-vêem-nunca. Todos bons cristãos e servos fiéis do Diácono e do Presbyter.”
“Não sois amigos porque sois diferentes?”, perguntou o Poeta.
“O que ser diferentes?”
“Bem, no sentido de que és diferente de nós e…”
“Por que eu diferente de vós?”
“Santo Deus”, disse o Poeta, “tanto para começar tens uma perna só! Nós e o blêmio temos duas!”
“Também vós e blêmio se levantar uma perna tem apenas uma!”
“Mas não tens outra para abaixar.”
“Por que devo eu abaixar perna que não tem? Deve tu baixar terceira perna que não tem?”
Boidi intrometeu-se, conciliador:
“Ouve, Gavagai, admitirias que o blêmio não tem cabeça?”
“Como não tem cabeça? Tem olhos, nariz, boca, fala, come. Como faz tudo isso se não tem cabeça?”
“Mas não reparaste que não tem pescoço, e que depois do pescoço, tem uma coisa redonda que tu também tens no pescoço e ele não?”
“O que quer dizer reparaste?”
“Viste, percebeste, que sabes quê!”
“Talvez tu diz que ele não é totalmente igual a mim, que minha mãe não pode confundir eu com ele. Mas tu também não é igual a esse teu amigo, porque ele tem sinal no rosto e tu não tem. E teu amigo é diferente daquele negro como um dos Magos, e ele diferente daquele outro com barba negra de rabino.”
(…)
Boron disse:
“Vamos acabar com isso. Este ciápode não sabe reconhecer uma só diferença entre ele e um blêmio, como não sabemos ver nenhuma entre Porcelli e Baudolino. E o que acontece quando dois estrangeiros se encontram? Entre dois mouros, sabereis ver bem a diferença?”
“Sim”, disse Baudolino, “mas um blêmio e um ciápode não são como nós e os mouros, que os vemos somente quando vamos ter com eles. Vivem todos na mesma província e ele distingue entre blêmio e blêmio, se diz que aquele que acabamos de ver é seu amigo, enquanto os outros não. Ouça-me bem, Gavagai: disseste que na província moram panotos. Sei o que são so panotos, é uma gente muito parecida conosco, só que possuem duas orelhas tão grandes que descem até os joelhos, e quando faz frio costumam envolver o corpo com elas, como um manto. São assim os panotos?”
“Sim, como nós. Eu também tem orelhas.”
“Mas não até os joelhos, por Deus!”
“Tu também tem orelhas muito maiores do que teu amigo próximo.”
“Mas não como os panotos, pelo amor de Deus!”
“Cada um tem orelhas que sua mãe fez para ele.”
“Mas então porque dizes que blêmios e ciápodes jamais se entendem?”
“Eles pensa mal.”
“Como mal?”
“Eles cristãos que erram. Eles phantasiastoi. Eles dizem igual a nós que Filho não é da mesma natureza do Pai, porque Pai existe antes que começa tempo, enquanto Filho é criado pelo Pai, não por necessidade, mas por vontade. Portanto, o Filho é filho adotivo de Deus, não? Blêmios diz sim, Filho não tem mesma natureza do Pai, mas este Verbo, mesmo que apenas filho adotivo não pode se fazer carne. Assim, Jesus nunca se transforma em carne, aquilo que apóstolos viu era apenas… como posso dizer… phantasma…”
(…)
“E os panotos?”, perguntou Baudolino.
“Oh, a eles não importa o que faz o Filho quando desce à terra, eles pensa só no Espírito Santo. Ouve: eles diz que cristãos no Ocidente pensa que Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Eles protesta e diz que este como Filho veio depois e no credo de Constantinopla não diz assim. Espírito Santo para eles procede somente do Pai. Eles pensa contrário dos pigmeus. Pigmeus diz que Espírito Santo procede só do Filho e não do Pai. Panotos odeia principalmente pigmeus.”
(…)
Pediram então a Gavagai que os levasse a Pndapetzim, e ele se apressou, com saltos moderados, para possibilitar aos cavalos que o seguissem. Depois de duas horas, chegaram ao fim do mar de ervas altas, e entraram numa zona cultivada com oliveiras e árvores frutíferas: sentaram-se debaixo das árvores, observando-as com curiosidade, seres de feições quase humanas. que cumprimentavam com as mãos, emitindo apenas uivos. Eram, explicou Gavagai, os seres sem língua, que viviam fora da cidade, porque eram messalianos, acreditavam que se poderia ir para o céu somente graças a uma oração silenciosa e contínua, sem se aproximar dos sacramentos, sem praticar obras de misericórdia e outras formas de mortificação, sem outros atos de culto. Por isso, não freqüentavam as igrejas de Pndapetzim. Eram malvistos por todos, porque consideravam que até mesmo o trabalho era uma obra de bem e, portanto, inútil. Viviam paupérrimos, nutrindo-se das frutas das árvores, que, no entanto, pertenciam a toda a comunidade, e das quais se serviam sem reserva alguma.
“De resto, são como vós, não é verdade?”, provocava-o o Poeta.
“É como nós quando nós está calados.”

“Quer dizer que em Tzinista existem pequenos ovos que são colocados no colo das mulheres e dos quais, vivificados pelo calor, nascem pequenos bichos. São colocados pouco depois nas folhas da amoreira das quais se nutrem. Quando crescem, fiam a seda com o seu próprio corpo e nela se envolvem como um túmulo. Transformam-se mais tarde em maravilhosas borboletas multicoloridas e furam o casulo. Antes de partir, os machos penetram as fêmeas por trás e ambos vivem sem comida, no calor de seu abraço, até a morte, e a fêmea morre, afinal, chocando seus ovos.”