DICIONÁRIO DAS IDEIAS FEITAS, Gustave Flaubert
Novembro 19, 2009ACIDENTE – Sempre deplorável ou lastimável (como se alguém pudesse achar alegre uma desgraça…).
ALEGRIA – Sempre acompanhada de “louca”.
AQUILES – Acrescentar “dos pés ligeiros”; isto faz crer que se leu Homero.
ASSASSINO – Sempre covarde, mesmo quando foi intrépido e audacioso. Menos culpado do que um incendiário.
CALOR - Sempre insuportável. Não se deve beber quando faz calor.
INTRODUÇÃO – Palavra obscena.
IMBECIS – Todos aqueles que não pensam como nós.
INVERNO – Sempre excepcional (ver verão). É mais saudável do que as outras estações.
ITALIANOS – Todos músicos. Todos traidores.
LOIRAS – Mais quentes do que as morenas (ver morenas).
MORENAS – Mais quentes do que as loiras (ver loiras).
NEGRAS – Mais quentes do que as brancas (ver morenas e loiras).
OTIMISTA – Equivalente de imbecil.
RISADA – É sempre homérica.
RUIVAS – Ver loiras, morenas e negras.
SANÇÃO PRAGMÁTICA – Ninguém sabe o que é.
SÍFILIS – Mais ou menos, todo mundo tem sífilis.
VERÃO – Sempre excepcional (ver inverno).
RUBÁIYÁT, Omar Kháyyám
Novembro 18, 2009
Todos sabem que meus lábios nunca murmuraram uma oração.
Não procurei nunca dissimular os meus pecados.
Ignoro se existem realmente uma Justiça e uma Misericórdia.
Mas, se existem, não desespero delas:
fui sempre um homem sincero.
ESSE OFÍCIO DO VERSO, Jorge Luis Borges
Novembro 17, 2009
Lembrem que Alfred North Whitehead escreveu que, entre as muitas falácias, há a falácia do dicionário perfeito – a falácia de pensar que, para cada percepção dos sentidos, para cada asserção, para cada ideia abstrata, pode-se encontrar um equivalente, um símbolo exato, no dicionário. E o próprio fato de as línguas serem diferentes nos faz suspeitar que isso não exista.
CRIME E CASTIGO, Dostoiévski
Novembro 16, 2009
A coisa é clara: não se vende em proveito próprio, por conforto, nem para escapar da morte, mas se vende em proveito do outro! Se vende por uma pessoa querida, por uma pessoa adorada! É nisso que consiste toda essa nossa coisa: pelo irmão, pela mãe ela se vende! Vende tudo! Oh, aqui, havendo oportunidade, nós esmagamos até o nosso sentimento ético; levamos à loja de usados a liberdade, a tranqüilidade, até a consciência, tudo, tudo. Dane-se a vida! Contanto que esses nossos seres apaixonados sejam felizes. Como se não nos bastasse inventar a nossa própria casuística, aprendemos com os jesuítas e, pode ser, por um momento tranqüilizamos a nós mesmos, persuadimos a nós mesmos de que se deve agir assim, de que realmente se deve, para atingir um bom objetivo. Nós somos assim mesmo, e tudo é claro como o dia.
O AMANTE, Marguerite Duras
Novembro 16, 2009
Jamais bom dia, boa noite, bom ano. Jamais obrigado. Jamais falar. Jamais a necessidade de falar. Tudo continua mudo, distante. É uma família talhada na pedra, petrificada numa solidez sem nenhum acesso. A cada dia tentamos nos matar, matar. Não só não nos falamos como também não olhamos um para o outro. A partir do momento em que nos vemos já não somos capazes de nos olhar. Olhar significa um movimento de curiosidade, favorável ou não, uma fraqueza. A pessoa observada não vale esse olhar. É sempre desonroso. A palavra conversação é banida. Creio que é essa a melhor definição da vergonha e do orgulho.
O FILHO DA MÃE, Bernardo Carvalho
Novembro 15, 2009
– Anna foi embora dois meses depois do seu nascimento. No começo, fiquei revoltada, mas aos poucos, conforme fui me apegando a você, obrigada a voltar a ser mãe por necessidade, comecei a entender. Se desde o início ela pretendia abandoná-lo, era melhor que saísse o quanto antes. Não são todas as mães que amam desde o início. E Anna tinha vindo para Grózni para se livrar do amor. As mulheres nascem para um amor que é insustentável e que passam a vida tentando compensar com amores secundários, para não ficarem loucas. Por isso, querem mais de um filho, para que o amor de um anule o do outro. Quando começam, não podem parar.
COMO SE CASA COMO SE MORRE, Émile Zola
Novembro 14, 2009
Que estranho sistema, dividir a humanidade em dois campos, os homens de um lado, as mulheres de outro; assim, depois de ter armado os dois campos um contra o outro, uni-los dizendo-lhes “Vivam em paz!”
MADAME BOVARY, Gustave Flaubert
Novembro 13, 2009
Aliás, mais as coisas eram próximas, mais seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava imediatamente, campo entediante, pequenos-burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso singular em que ela se achava presa, enquanto do outro lado estendia-se, à perda de vista, a imensa região das felicidades e das paixões.
O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA, Gabriel García Márquez
Novembro 11, 2009
Depois de tantos anos de amores calculados, o gosto desabrido da inocência tinha o encanto de uma perversão renovadora.
Coincidiram.

